Falha na ereção ainda é tratada como tragédia pelos homens

A sexualidade é tão importante para a vida do homem que qualquer problema vira, algo que, para ele, bota em xeque sua própria identidade

por Gustavo Perucci 17/04/2016 14:39

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Bayer/divulgação
A psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins diz que os homens acreditam que, para ser aceitos, precisam ser fortes, ter sucesso, poder, coragem e nunca falhar (foto: Bayer/divulgação)


Não ser capaz de cumprir com o papel sexual inerente ao ser masculino é um dos principais fantasmas que assombram do adolescente ao idoso. Brochar, então, pode fazer qualquer homem surtar. Quer dizer, até pode ocorrer. Admitir, jamais! A obrigação de força e superioridade, de infalível, fecundador, mais que uma realidade, é um papel social adquirido culturalmente, que fecha as portas para compreensão e entendimento mais amplos do próprio sentido adquirido pelo gênero.

“Vivemos numa cultura patriarcal. Há 5 mil anos, o sistema patriarcal se instalou e dividiu a humanidade em duas partes – homem para um lado e mulher para o outro – e definiu, com muita clareza, o que é ser masculino e o que é ser feminino. Então, criou um ideal masculino: força, sucesso, nunca falhar, poder, coragem, ousadia. Os homens passaram a perseguir esse ideal para ser aceitos. Então, a sexualidade passou a ser algo muito importante para ele e qualquer problema de falha na ereção é uma tragédia. Bota em xeque a própria identidade. É uma coisa horrorosa para o homem, principalmente para aqueles que ainda estão submetidos a essa mentalidade”, explica a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins.

Ela cita um estudo que revelou que o homem, ao ter algum problema de disfunção erétil, demora, em média, quatro anos para procurar ajuda. E por que é tão difícil admitir para si mesmo algo completamente natural? Qual a razão de não se buscar auxílio e respostas em tempos mais racionais como os de hoje? Mesmo sabendo que existem médicos e terapias capazes de resolver, por que adiar a busca pela solução?

Chega a ser perigoso para a saúde mental de qualquer pessoa postergar resolução de um problema que afeta diretamente o sentido de sua existência. Não é por menos que, ao brochar a primeira, é comum a falha se repetir nas tentativas seguintes.

“Um psicanalista argentino definiu muito bem numa frase o que o homem sente quando brocha: 'Ele não quer saber de a mulher consolá-lo, tentar agradá-lo. Ele quer sumir dali, desaparecer. E, quando voltar, voltar galopando em seu pênis ereto, como um cavalheiro ressuscitado do apocalipse vivido'. Acho essa frase muito interessante, pois mostra o pânico que o cara passa. Não adianta a mulher dizer 'não tem problema, meu bem'. Ele não quer saber disso. Isso atinge o mais profundo do ser dele. Essa questão é uma cobrança cultural de que ele sempre tem que mostrar desempenho sexual exemplar”, acrescenta Lins.

Por sorte, a mentalidade patriarcal passa por uma mudança geral. Um dos principais marcos dessa transformação foram os movimentos de contracultura, ancorados na liberdade que surgiu depois da invenção da pílula anticoncepcional. Feministas, gays, hippies. Em pouco menos de um século, valores e comportamentos sectários passaram a ser questionados e, mais importante, deixaram de ser regra. Para os homens, é uma transição importante, principalmente para garantir nova possibilidade de reflexão e autoconhecimento.

“Estamos no meio desse processo. E, sempre que se está no meio de um processo encontram-se comportamentos díspares. Homens se comportando como há 40, 50 anos, com mentalidade bem patriarcal, e outros que já se libertaram desse mito da masculinidade. O caminho é que cada vez mais pessoas vão se libertando, de todas as idades, inclusive os velhos. É algo que sempre digo: 'Para viver bem, temos que refletir sobre valores e crenças aprendidos para nos livrar de moralismos e preconceitos. Agora, para viver bem tem que ter coragem, porque existe um condicionamento cultural desde que se nasce, uma porção de crenças são passadas a você como verdades absolutas. Acredito que os mais velhos, daqui a uns 20 anos, vão lidar com muito mais facilidade com essa questão”, conclui Lins.

ESTÍMULOS Pílulas e hormônios seduzem jovens e idosos, criando a expectativa de maior vigor e desempenho e, principalmente, infalibilidade. Os remédios contra disfunção modificaram a forma como o homem contemporâneo vive sua sexualidade. “Para eles, a vida sexual muito frequente é um mandato, uma verdadeira obrigação. O remédio, nesse sentido, é uma expressão dessa obrigação. Muitos tomam para fingir um interesse sexual que não existe mais. Será que isso é bom?”, questiona o psicanalista Contardo Caligaris.

Os remédios não são exclusividade dos mais velhos. Muitos jovens estão recorrendo às pílulas e ambos temem não encontrar no médico um interlocutor, comprando diretamente das farmácias, sem se informar corretamente. Porém, para alguns homens de idade mais avançada, eles prolongam a obrigação. “Para muitos, a idade avançada representaria um alívio em relação à diminuição do desejo sexual. Muitos têm a necessidade e vêm a oportunidade de inventar outras maneiras de viver, ter outras preocupações. Há uma espécie de contentamento com a relativização do aspecto sexual, tido antes como exigência. A velhice institui uma normalidade possível para a diminuição do desejo sexual”, explica.

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