Brincadeiras são mais do que momentos lúdicos para as crianças

O brincar é a forma como meninos e meninas se expressam, aprendem e têm prazer. Portanto, deve ser livre e protagonizado por eles

por Carolina Cotta 10/04/2016 08:00

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Crianças resgatam brincadeiras e atividades que garantem diversão a valer (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Por caixas que virem casinhas, carrinhos, naves espaciais. Por sementes que cresçam ao olhar de quem as semeou. Por peões, pipas, cordas e bambolês que ultrapassem o tempo, unindo pais e filhos não em uma brincadeira direcionada, mas no resgate do pouco que diverte muito. Por uma nova velha infância. Em tempos marcados pela tecnologia e consumismo e onde o ócio é item de luxo, é imperativo resgatar a brincadeira como lugar da convivência, criatividade, entrega ao prazer mais genuíno dessa fase da vida.

Tablet e as demais telas podem ser fontes de prazer, mas não exclusivamente. E não deveriam ser o “cala-choro”, o recurso mais fácil. Um jardim, por outro lado, pode virar verdadeiro ambiente do brincar, pelo espaço livre, pelo contato com a natureza, pela chance de criar com formas simples e de experimentar sensações com a terra, o ar, a água, o vento. E mais: os pais devem cuidar para que a brincadeira não seja conduzida. Mas será que estamos sabendo brincar? Ou deixar nossas crianças brincarem?

Para a publicitária Mariana Sá, cofundadora do Movimento Infância Livre do Consumismo (Milc), que defende a regulação da publicidade no que diz respeito ao consumismo, desde a alimentação, com a glamourização dos industrializados, e dos brinquedos, incentivando o brincar livre, é preciso desvincular o brincar como ferramenta que ensina valores, conteúdo e estrutura subjetividades. “Brincar tem essa função também, mas não deveria ser só isso. As crianças precisam brincar para ter prazer”, acredita.

REINVENTAR
Para a psicóloga Cristiane Melgaço, sócia do Espaço Corre Cutia, resgatar a velha infância não é trazer de volta a nossa infância e a infância de nossos pais e avós. E sim reinventá-la, constantemente. “É buscar na cultura da infância, tão rica e parte do nosso patrimônio cultural, aquilo que encante e que desperte interesse nos dias de hoje”, explica. A ludicidade é, por excelência, a linguagem da infância. Segundo a especialista, para brincar não é preciso um objeto, mas pessoas.

“E dentro de todas elas, independentemente da idade, há ludicidade. É muito gostoso possibilitar a elas esse encontro com o que temos de mais humano. Brincar de pique, de esconder e de roda é mágico e contagiante. Não é à toa que brincadeiras como “ciranda, cirandinha” são cantadas em diferentes regiões do nosso país e que todas as gerações vivas saibam cantá-la ou pelo menos se recordem de algum momento da infância em que brincaram assim”, defende.

O PAPEL DA ESCOLA

Espaço de encontro de crianças, de diferentes culturas e hábitos, a escola tem papel determinante nos modos de brincar. A psicóloga Luciana Borges, supervisora pedagógica da Escola da Serra, acredita no modelo em que se oferece à criança a possibilidade de brincar de maneira mais livre, sem muita condução do adulto. “Cabe a nós sugerir a elas explorar os elementos da natureza, o desenvolvimento sensorial com diversos materiais e a questão do movimento. A brincadeira é a linguagem da criança e precisa ser valorizada”, defende.

Para a especialista, as crianças de hoje estão muito objetivas e pragmáticas. Promover a brincadeira permite enriquecer seu universo simbólico, algo que tem faltado nelas nos dias de hoje. Uma das formas de fazê-lo é levar isso para dentro da escola. Segundo Luciana, até os 3 anos, a criança brinca muito sozinha, cria suas próprias brincadeiras. Quando chega à escola, parte para o coletivo, começa a incluir os amigos. “Evitamos a tecnologia para não interferir nesse processo de encontro com o outro”, explica.

As brincadeiras podem, ainda, ser meio de intercâmbio de culturas. Como ambiente propício para a convivência, a pedagoga Liara Moreira Sales, diretora-geral do Colégio Logosófico, acredita que é papel da escola apresentar os diversos tipos de brincar aos alunos. “Isso envolve uma questão cultural e histórica. As brincadeiras são parte do vínculo com as famílias e quando eles descobrem a forma como pais e avós brincavam e trazem isso para os demais colegas, podem revelar brincadeiras de origens e regiões diferentes. Isso amplia a possibilidade de a criança encontrar uma forma de se divertir diferente daquela rotineira.

Do tempo da vovó
Especialistas acreditam que crianças não precisam de tanto brinquedo para se divertir e que as brincadeiras tradicionais auxiliam no processo de socialização e amadurecimento

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Flávia Baltazar brinca de casinha com a sobrinha Guilhermina, de 4 anos, e a filha, Ana Rosa, de quase 2, e diz que o que elas mais gostam é correr no quintal (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Quantas vezes já ouvimos que a infância mudou, que as crianças não se interessam mais por brincadeiras de quintal, que a tecnologia é forte concorrente? Sim. A infância mudou e sempre mudará, mas, para a psicóloga Cristiane Melgaço, cabe aos adultos avaliar se essas mudanças estão sendo benéficas para as crianças. “Será que deixar a criança o dia inteiro diante de telas, interagindo o mínimo possível com outras pessoas, não é contribuir para que ela se torne um adulto intolerante, que não consegue esperar, que tem dificuldade para se relacionar? Isso sem contar o excesso de atividades superdirecionadas, que ocupam quase todo o tempo da criança, sem dar a ela a chance de criar, de imaginar e de compartilhar alegrias com os amigos. Nós, adultos, somos os responsáveis por aquilo que oferecemos às nossas crianças e pelos frutos que colheremos a partir dessas ofertas”, acredita


Mas como reinventar a infância? Para a especialista, o importante é criar alternativas para aquilo que já se acha que está dado. Estudiosos do tema reforçam a importância do brincar livre, no qual a brincadeira não é conduzida nem por um adulto nem por um brinquedo. Isso não quer dizer que os pais não possam brincar com os filhos, mas incluindo elementos, sugerindo. A comerciante Flávia Baltazar, de 40 anos, tem esse cuidado com a filha, Ana Rosa, de 1 ano e 9 meses, e com a afilhada Guilhermina, de 4 anos e meio. As duas brincam juntas na casa da avó, onde foi criado um quarto de brincadeiras para que se divirtam enquanto as mães trabalham. Mesmo assim, Flávia observa que o que as duas mais gostam é de simplesmente correr pelo quintal. Nada de brinquedos sofisticados, carros ou brincadeiras dos tempos de hoje.


“A gente fica tão congelada no mundo de adulto que, quando entra em contato com esse mundo das crianças, acha tudo lindo. De repente, elas nos lembram de brincadeiras que marcaram a nossa infância. Às vezes, temos preconceito, achamos que as crianças de hoje não vão se interessar pelas nossas brincadeiras, até lembrar que criança brinca de qualquer jeito. O que importa é brincar”, percebe. Segundo Cristiane, uma das sócias do Espaço Corre Cutia, que, além de atividades culturais e artísticas, valoriza as brincadeiras de quintal tradicionais da infância, essas, além de desenvolver a coordenação motora ampla, auxiliam no processo de socialização. “Toda brincadeira coletiva traz, implícitas, regras de convivência e de respeito, o aprendizado de saber esperar a sua vez, o desafio de ter que lidar com as limitações do outro – características de que a nossa sociedade, cada vez mais individualista, está urgentemente precisando”, acredita.

CONTATO COM A TERRA
A especialista também acredita no contato com a natureza como fundamental para a formação de pessoas que enxerguem o meio ambiente como parte principal da vida. “Brincar na areia, ter contato com a terra e saber de onde vêm os alimentos é importantíssimo para a criação de hábitos alimentares saudáveis e para a conscientização sobre preservação.” Mas não se pode desconsiderar que as telas e jogos on-line também são brincadeiras. Para Mariana Sá, o importante é dar espaço para um pouco de tudo. “Não precisamos demonizar as telas, apenas não deixar que as crianças se restrinjam a elas.” Ao argumento de que podem ser educativos, ela rebate: “Temos que parar de sistematizar o brincar como ferramenta de qualquer coisa”. Pensadora do consumismo, ela vê na prática, com os filhos, que as crianças não precisam de tanto brinquedo para se divertir.

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