Você é o que você não vê: entenda como humanos e micro-organismo mantêm parceria de sucesso

Essencial para o bom funcionamento do corpo, bióloga inglesa lança livro no qual ressalta a importância dos micro-organismos

por Flávia Duarte 07/04/2016 11:00

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SUZANNE PLUNKETT / Reuters
Só na ponta dos dedos, neste momento, você carrega 50 milhões de micróbios (foto: SUZANNE PLUNKETT / Reuters)
O título por si só é intrigante: 10% humano - como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente. A provocação que a bióloga inglesa Alanna Collen faz no título do recém-lançado livro no Brasil causa desconforto. Ela propõe, assim, jogar terra na onipotência humana, ser vaidoso que se considera melhor do que todas as demais espécies vivas. Somos, de fato, mais complexos do que uma bactéria unicelular, mas Allana comprova em seu estudo que, para essa máquina funcionar, precisamos dos seres simples na anatomia, mas eficientíssimos no trabalho de manter nossa saúde e até aumentar nosso estado de felicidade.

A moça começou a refletir sobre o tema quando, aos 22 anos, foi vítima de uma infecção tropical. Para destruir as bactérias invasoras que adoeciam seu organismo e provocavam efeitos colaterais, que variavam desde sintomas físicos a mudanças de comportamento, ela foi tratada com antibióticos por um longo período. Ficou boa da infecção, além dos micro-organismos que causavam a doença, a medicação dizimou as colônias benignas de bactérias.

Allana sentiu os efeitos na pele, sobretudo no sistema digestivo, e ficou vulnerável às mais variadas viroses. Foi quando decidiu usar sua formação para entender a vida desses seres microscópicos e a relação deles com o homem. Pesquisou durante anos e chegou à conclusão de que, na verdade, os medicamentos que combateram os invasores indesejáveis, também deflagaram uma guerra contra as colônias de micro-organismos inócuos, e outros tanto funcionais, deixando poucos sobreviventes. Sem o equilíbrio dessas comunidades invisíveis a olho nu, o resultado foi o surgimento de novos problemas e desconfortos.

A bióloga se debruçou nas pesquisas existentes para traçar o mapa de presença desse micróbios, carregados pelos humanos. Os números aos quais ela chegou são assustadores para uma mente asséptica: nosso corpo é composto de uma colônia formada por “100 trilhões de criaturinhas amigáveis”, como ela se refere. Bactérias, fungos, vírus e arqueias fazem parte do que a pesquisadora chamou de microbiota, que, traduzindo, seria esse ecossistema interno de seres invisíveis a olho nu.

E eles estão por toda parte, ainda que você se considere limpo e saudável. Allana contabiliza, que, só na ponta dos dedos, neste momento, você carrega 50 milhões de micróbios. Ao longo da vida, ela diz, “você vai ter abrigado o peso de cinco elefantes africanos em micro-organismos.” Para se ter uma ideia, o homem tem 20 mil genes. Enquanto isso, ele leva consigo tantas bactérias, vírus, fungos que somam 4,4 milhões de genes. Faça as contas e você concluirá que, matematicamente, você, na verdade, é pouco humano na essência, defende a bióloga.

ENTREVISTA
O biomédico Roberto Martins Figueiredo é tão familiarizado com o reino dos seres microscópicos que ganhou o apelido de Dr. Bactéria.  Ele fala um pouco dessa parceria entre os complexos seres humanos e os simples seres unicelulares.

Gabriela Rossa Drewes / Divulgação
"A criança tem de estar em contato com bactérias desde que nasce para se fortalecer contra doenças" - Dr. Bactéria (foto: Gabriela Rossa Drewes / Divulgação )
Nascemos com bactérias em nosso corpo? Qual é a diferença delas para as que estão no meio ambiente?
Nascemos totalmente sem bactérias. As primeiras provêm da mãe. Por isso, o parto normal é melhor do que a cesárea, pois contamina positivamente a criança. Essas bactérias, após a colonização (em torno de 1 ano), vão dar segurança e proteger a criança contra bactérias patogênicas (que causam doenças).

Por que é importante mantermos colônias de bactérias? Se elas morrem, quais são os prejuízos para a nossa saúde?

Sem elas, estamos totalmente sujeitos a germes patogênicos, a reações alérgicas (rinite, asma etc.), a deficiência nutricional pela falta de algumas vitaminas e de elementos nutricionais (celulose, por exemplo, que é digerida por elas).

Como podemos reforçar a presença dessas bactérias importantes dentro do nosso organismo?

Por meio da alimentação de probióticos (bactérias do bem, presentes em iogurtes) e prebióticos, alimentos que servem de base para germes do bem, como fibras e frutas.

Além das bactérias, quais outros micro-organismos vivem dentro do ser humano? Qual é a função deles?

Temos os fungos, como as leveduras, que participam do processo da digestão.

O que acontece com o sistema de defesa quando entra em contato com micro-organismo do ambiente externo. Por que ele não combate a colônia de bactérias que vive no nosso corpo?

Esses micro-organismos, chamados residentes, estão adaptados ao organismo humano e, por serem presentes desde a infância, o organismo humano não os reconhece como inimigos. Diferentemente da microbiota transitória, que está de passagem. A criança tem de estar em contato com bactérias desde que nasce para se fortalecer contra doenças.

Um retrato inusitado
Q
uando o projeto Genoma (que decifrou os genes humanos) foi anunciado em 2000, um estudo paralelo também teve início. O projeto Microbioma Humano, dirigido pelos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos, surgiu para identificar as espécies presentes no corpo humano. A ideia era fazer um retrato do DNA do nosso microbioma e, assim, saber qual seria a função deles. Outro desafio era responder o porquê de nosso sistema imunológico, ativado para destruir corpos estranhos, conviver pacificamente com um sem número deles.

Divulgação
10% humano - Como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente
Autor: Alanna Collen
Editora: Sextante
Preço: R$ 39,90
Páginas 288 (foto: Divulgação)
Os micróbios estão no ar, no que você toca, dentro e fora de você. Allana Collen propõe um passeio pelo corpo humano e é possível definir onde moram todas as colônias de micro-organismos. Comece pela pele. Cada pedacinho dela tem um tipo de bactéria diferente, dependo da característica do cenário em questão. O ambiente fresco e seco do antebraço ou do cotovelo, por exemplo, abriga uma espécie de cepa bacteriana, completamente diferente daquelas que vivem na região da virilha ou das que se alimentam do sebo das costas, por exemplo.

Há as que escolhem se acomodar no umbigo ou nas axilas, onde aproveitam a umidade e se alimentam do nitrogênio do suor. Elas também produzem cheiros, que seriam afrodisíacos para uns e repelentes para os outros. São as bactérias atuando no amor.

Existem ainda micro-organismos espalhados na parte interna de todos os órgãos: pulmão, vagina, intestino. Cada pessoa é dona de uma comidade de bactérias com características próprias, de acordo com o que comem. Algumas, são iguais para todos, com a mesma função. Na boca, há pelo menos nove regiões colonizadas por bactérias. Cada lugar analisado acumula centenas de Streptococcus, que podem, ou não, causar doenças. Algumas vivem ali; outras chegam pelo ar ou por meio dos alimentos.

Allana cita estudos que comprovam que a troca de bactérias na hora do beijo é uma forma de avaliar quais as potencialidades do seu futuro parceiro. “Aí você conhece a microbiota da outra pessoa, inclusive a capacidade imunológica dela, que você deseja transmitir a seus filhos”, explica.

Um batalhão de proteção, composto por 900 espécies de seres microscópicos, também estão no nariz, armados para evitar que outros seres de tamanho igualmente invisível aos olhos cheguem aos pulmões. O ambiente hostil e ácido do estômago é para as fortes. Poucas sobrevivem. Uma delas é a Helicobacter pylori, que pode estabelecer parceria ou adoecer o homem. Há mais um trilhão deles nas paredes dos intestinos grossos e delgados. Alguns micro-organismos têm a função digerir as partes duras dos vegetais, importantes para nossa dieta. Os fungos que colonizam o local transformam resíduos de comida em energia para outras células — sem tais aliados, elas morreriam em época de escassez de alimentos.

As bactérias ainda sintetizam a proteína que produz vitamina B12, importante em demasia para o funcionamento do cérebro. Estão em 75% do conteúdo das fezes. Vivas ou mortas, são mais de 4 mil espécies que dão sinais de como anda a saúde do indivíduo baseado no tipo de micro-organismo que ele elimina.

Essa parceria é indispensável e inevitável. Eles estabeleceram uma simbiose com os seres humanos. São essenciais para nossa saúde. “Perturbações aos micro-organismos podem provocar distúrbios gastrointestinais, alergias, doenças autoimunes e até obesidade. E também ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e autismo”, conclui Allana. Por isso, até que ponto a interferência no sistema imunológico ataca e elimina os seres que nos colonizam para nos ajudar?

Até felicidade eles nos trazem, garante um estudo descrito por Allana. Os pesquisadores mostram que voluntários que passaram por um período comendo barra de cereal com bactérias apresentaram menos sintomas de irritabilidade e depressão do que aqueles que comeram o produto sem adicional especial. “As bactérias vivas no nosso organismo aumentam os níveis de um composto químico no sangue chamado triptofano, uma molécula diretamente ligada à felicidade, já que ela é convertida em serotonina”, esclarece a bióloga

Justamente por fazer tão bem aos homens em inúmeros casos, torna-se um perigo tentar, cada dia mais, viver em um ambiente estéril. As alergias seriam uma prova de que é preciso ter contato com os seres microscópicos. Cada vez mais acostumados a ambientes sem bactérias e vírus, o sistema imunológico fica superativo e começa a querer matar qualquer presença diferente, até mesmo as que, teoricamente, não nos são nocivas, como o pólen das flores. Daí surgem os alérgicos, os asmáticos. É o resultado, aparentemente ilógico, das doenças modernas provocadas por falta de bactérias.

Na prática, isso quer dizer que a convivência com os micro-organismos é essencial para nossa saúde e até para a sanidade mental. Lutar a todo custo para eliminá-los é correr o risco de se colocar na linha de frente dessa batalha e sair ferido. “Cheguei a um ponto da minha descoberta dos micróbios que habitam o corpo humano em que parei de me ver como um indivíduo e comecei a me considerar um receptáculo da minha microbiota. Agora meus micro-organismos e eu somos uma equipe”, conclui Allana.

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