Cientistas conseguem acompanhar o processo de formação e especialização de neurônios

O estudo, feito em ratos, deve ajudar futuramente na compreensão e no tratamento de males como esquizofrenia, Parkinson e Alzheimer

por Estado de Minas 03/04/2016 11:43

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Valdo Virgo/CB/D.A Press
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Há milênios, cientistas e filósofos voltaram os olhos para o céu por acreditar que, ao estudar o Universo, poderiam responder dúvidas existenciais, como o início da vida. Com uma motivação de natureza semelhante, cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Genebra, na Suíça, se debruçaram sobre o cérebro para entender a origem da mente.

O resultado do estudo, publicado recentemente na revista Science, foi a visualização, pela primeira vez, do nascimento dos neurônios, ou, como apelidaram os pesquisadores, do “big bang neuronal”, um feito que deve ajudar a entender a origem de quadros como esquizofrenia, autismo e síndrome de Tourette e a pensar tratamentos para males como os de Parkinson e Alzheimer.

Para chegar a essa observação, a equipe levou aproximadamente três anos analisando a formação do córtex de ratos na fase fetal. Nessa região, há células progenitoras neurais, especializadas na criação dos diferentes tipos de neurônios. Os cientistas elaboraram uma técnica, à qual deram o nome de FlashTag, que marca essas células no momento em que estão se dividindo para gerar um neurônio. O método permitiu ao grupo isolar e observar o processo, acompanhando as principais dinâmicas para a formação de um cérebro saudável, desde os genes que são expressos nas primeiras horas até os locais onde as células se alojam para gerar o córtex.

“Antes, nós tínhamos apenas algumas fotos para reconstruir a história dos neurônios, o que deixava bastante espaço para especulações. Graças à técnica FlashTag, agora existe um filme genético completo diante de nossos olhos. Cada instante se torna visível, desde realmente o começo, o que nos leva a compreender o cenário em ação, identificando as principais características, as interações e os estímulos”, afirma, em comunicado, Denis Jabaudon, especialista em neurodesenvolvimento e diretor da pesquisa.

APLICAÇÕES Além da revelação do momento em que nasce um neurônio, o estudo oferece um avanço na compreensão de como os neurônios vão se comportar na fase adulta, o que deve ajudar a predizer problemas como esquizofrenia e autismo. Essa compreensão é importante porque, de acordo com Daniel Martins-de-Souza, bioquímico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que há alguns anos estuda a origem de doenças psiquiátricas, existem diversos distúrbios que parecem ligados à fase de formação do cérebro, o neurodesenvolvimento.

“A esquizofrenia é uma doença que tem sua gênese no neurodesenvolvimento. Sabe-se que existe uma desordem nessa fase que vai levar à esquizofrenia no futuro, na adolescência geralmente. Ainda não se sabe quando exatamente ocorre essa desordem, por isso (o resultado dessa pesquisa) pode ser uma ferramenta fantástica”, avalia. “Com ela pode ser criado um monitoramento em famílias que têm quadros de doenças psiquiátricas, fazendo um exame pré-clínico na criança e buscando formas de evitar a progressão da doença.”
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Quanto ao autismo, Alysson Muotri, neurobiólogo da Universidade da Califórnia em San Diego, reserva receios sobre a promessa de que, com a técnica dos cientistas de Genebra, será possível detectar a origem do problema. “Ainda não sabemos se essa pesquisa terá qualquer valia para o autismo. Tudo foi feito usando modelos de camundongos e não existem camundongos autistas. Caso algumas das vias que foram descobertas no trabalho sejam conservadas evolutivamente em humanos, poderíamos então explorá-las no contexto de autismo.”

Outra possibilidade de aplicação da técnica, de acordo com Denis Jabaudon, é a regeneração de neurônios danificados por doenças como esclerose e Parkinson. “Agora, somos capazes de ler essa ‘receita’ para entender o que é expresso, quando e em qual nível. O desafio é identificar quais são os ingredientes essenciais dessa receita. O objetivo a longo prazo é ser capaz de gerar e reparar neurônios, além de reconstruir circuitos em distúrbios neurodegenerativos”, diz o autor da pesquisa em entrevista ao Estado de Minas.

O bioquímico Martins-de-Souza, por outro lado, pondera que é preciso ter cautela, uma vez que ainda são necessários, entre outros avanços, estudos de aplicação da FlashTag em células humanas. “Não é do dia para a noite. A técnica precisa ser aperfeiçoada, talvez leve uma década para chegar a esses resultados. Mas é um achado com potencial de se tornar um divisor de águas.”

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