UFMG estuda "maconha do cérebro"

Trabalho, que conta com apoio da USP e do Instituto Max Planck, investiga sistema protetor natural do organismo, onde duas substâncias agem como o THC, subproduto da planta Cannabis sativa

por Eduardo Tristão Girão 23/03/2016 14:37

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Janey Costa / EM / D.A Press
O nome 'maconha do cérebro' se deve ao fato de a anandamida e o 2-AG, substâncias produzidas pelo corpo, agirem no mesmo receptor em que age o tetra-hidrocanabinol (THC), principal substância responsável pelos efeitos entorpecentes da droga (foto: Janey Costa / EM / D.A Press)
Os nomes são anandamida e 2-AG, mas você pode chamar as duas substâncias de “maconha do cérebro” – aliás, o termo é informalmente usado por cientistas. Elas são produzidas pelo corpo como forma de proteção quando o cérebro detecta determinados tipos de risco. No momento, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se debruçam sobre o tema: a expectativa deles é desenvolver medicamento que estimule a atividade do chamado sistema endocanabinoide, no qual a “maconha do cérebro” atua.

“Sabemos que este é um sistema protetor do cérebro, com função de resguardá-lo de estímulos que representem ameaça. Por exemplo, uma pessoa que passou muito estresse e desenvolve depressão ou transtorno do pânico. Descobrimos que essas substâncias agem no sentido de tentar atenuar esses efeitos com o intuito de proteção. Como se fosse um sistema imunológico do cérebro”, diz Fabrício Moreira, professor de farmacologia da UFMG e pesquisador, que lidera o projeto com a colega Daniele Aguiar.

A pesquisa foi iniciada em 2010, no Laboratório de Neuropsicofarmacologia do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biológicas da universidade. Envolve também instituições como a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, e o Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, na Alemanha, ambas sediando algumas etapas do projeto. Moreira enfatiza que ainda não há perspectiva de quando um medicamento com essa finalidade estará disponível no mercado.

O nome “maconha do cérebro” se deve ao fato de a anandamida e o 2-AG agirem no mesmo receptor em que age o tetra-hidrocanabinol (THC), principal substância responsável pelos efeitos entorpecentes da droga. “Nos receptores do cérebro, onde agem medicamentos como analgésicos, há um específico do THC. O que ninguém sabia era o porquê, já que só depois foi achada essa 'espécie de THC endógeno', ou seja, produzido pelo cérebro. Isso abriu nova e imensa perspectiva para entender o funcionamento do cérebro”, contextualiza o professor.

Paralelamente, os pesquisadores mineiros também estudam o canabidiol, outra substância presente na planta da maconha (Cannabis sativa) e que tem rendido aplicações medicinais consideradas interessantes. “Ele não induz aqueles efeitos da maconha como droga de abuso, causados pelo THC. É possível isolá-lo e já se sabe que ele estimula a produção da anandamida e do 2-AG. Sutilmente, ele facilita a ação dessas substâncias.”

REFERÊNCIA
A propósito, a descoberta dessas substâncias não foi feita por ele, que, no momento, concentra-se com os demais colaboradores em estudá-las e, a partir daí, desenvolver medicamentos para a área psiquiátrica. Entidades como o próprio Max Planck e as universidades da Califórnia, nos Estados Unidos, e de Nápoles, na Itália, também investigam a anandamida e 2-AG. No Brasil, há grupos acadêmicos com esse foco em São Paulo, Santa Catarina e Brasília – o da UFMG apresentará resultados da pesquisa este ano em congresso na Polônia.

“Pesquisas com maconha são feitas há bastante tempo”, acrescenta o pesquisador. Ele cita, entre os pioneiros, o professor Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que há cerca de 50 anos estuda como a maconha atua no cérebro e as possíveis aplicações medicinais da droga. “É o grande nome, o primeiro a ser citado. Ele sempre foi também um grande formador de pesquisadores, fazendo com que o Brasil seja um país importante nesse ponto de vista.”

O surgimento de um remédio baseado nesses princípios poderia substituir, por exemplo, a fluoxetina (Prozac é um dos seus nomes comerciais), bastante utilizado no combate à depressão. “Buscamos o desenvolvimento de medicamento que aja por outro mecanismo e que pode ter relação de segurança e eficácia mais favorável em relação ao que já existe, ou seja, mais seguro e com menos efeitos colaterais. A fluoxetina, por exemplo, tem vários efeitos e muitos pacientes não respondem a ela”, diz.

Anvisa autoriza importação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou na segunda-feira a prescrição médica e a importação,
por pessoa física, de medicamentos e produtos com canabidiol e tetra-hidrocanabinol (THC) em sua formulação, desde que exclusivamente para uso próprio e para tratamento de saúde. A Anvisa alertou, no entanto, que, como “muitos desses produtos não são registrados como medicamentos em seus países de origem, não são avaliados por autoridade sanitária competente. Assim sendo, não é possível garantir a dosagem adequada e a ausência de contaminantes, tampouco prever possíveis efeitos adversos em pacientes que os utilizarão”, informou. Em janeiro do ano passado, a agência brasileira retirou o canabidiol, substância extraída da planta Cannabis sativa, da lista de substâncias proibidas e o classificou como medicamento de uso controlado. O número de pessoas beneficiadas com tratamentos envolvendo medicamentos com canabidiol e THC vem aumentando. Até então, elas conseguiam via Justiça o direito de importar o remédio. Os produtos são usados para diversas doenças, entre elas epilepsia e dores crônicas.

 

Dartiu Xavier da Silveira - professor da Escola de Medicina da USP e pesquisador


1) O uso de remédios com substâncias presentes na maconha pode gerar alguma dependência?
Teoricamente, pode. Mas, na prática, não é muito observado. Embora isso seja novo no Brasil, fora do país a maconha medicinal é usada há 30 anos e as taxas de dependência são pequenas. É duas vezes mais fácil ficar dependente de álcool do que da maconha medicinal. A maioria das pessoas consome álcool e não fica dependente. O risco é baixo.

2) Qual é o principal entrave para as pesquisas sobre o uso medicinal da maconha no Brasil?
Trabalho com essa pesquisa há 15 anos, quando fiz o primeiro estudo com maconha medicinal. O principal entrave é o preconceito – dos profissionais e das pessoas, que não reconhecem o potencial terapêutico – e a burocracia. No exterior, a indústria já tem maconha em forma de remédio e o que se usa no Brasil é importado, principalmente da Inglaterra. Fizemos mobilização ano passado em torno de crianças que tinham epilepsia e só respondiam à maconha medicinal. A partir dessa campanha que deflagramos que a Anvisa autorizou a importação do canabidiol. Mesmo assim, outros produtos com propriedade medicinal continuam proibidos. O que é absurdo, pois podemos importar, mas não podemos fabricar, o que sairia bem mais barato. É um trabalho difícil, que enfrenta preconceito em todos os níveis.

3) Em que ponto o Brasil se encontra na pesquisa sobre o uso medicinal da maconha?
O primeiro trabalho de uso de maconha para tratar dependentes químicos no mundo foi meu. Seríamos mais produtivos se houvesse cooperação. Só em abril começaremos a dar maconha medicinal a dependentes químicos.

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