Deficiência de Vitamina D pode estar relacionada a tumores de mama e próstata

A preservação de ossos e dentes é a faceta mais conhecida da vitamina D

por Paloma Oliveto 23/03/2016 15:00

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Pesquisas têm sugerido não apenas que a deficiência da substância está associada ao risco aumentado de tumores na mama, mas à gravidade e a piores prognósticos (foto: SXC.hu)
Durante muito tempo, as pesquisas sobre deficiência de vitamina D concentraram-se no papel que a substância desempenha na proteção de ossos e dentes. Contudo, nas últimas décadas, o interesse dos cientistas voltou-se para a associação entre baixa dosagem desse hormônio no organismo e o aumento no risco de diversas enfermidades que nada têm a ver com o esqueleto. Como ela está envolvida na regulação do crescimento celular, no controle de inflamações e no sistema imunológico, os investigadores concluíram que a carência dessa vitamina — que não é um nutriente — poderia estar ligada ao desenvolvimento de doenças decorrentes de disfunções nesses processos, incluindo o câncer.

Dois estudos divulgados este mês indicam uma forte relação entre a baixa dosagem de vitamina D e tumores de próstata agressivo e de mama. No primeiro caso, o nível deficiente do hormônio poderá servir de biomarcador da doença, ajudando os médicos a identificar a necessidade de proceder a cirurgia de retirada do órgão. Já em relação ao câncer de mama, os pesquisadores descobriram, em ratos, que o tumor cresce mais rápido e tende a criar metástase quando a quantidade da substância no organismo está abaixo do nível ideal.

Brian Feldman, professor de pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Santford e autor do estudo sobre a vitamina D e o câncer de mama, explica que o papel do hormônio em tumores oncológicos ainda precisa ser mais investigado, mas afirma que essas associações, se confirmadas, fornecerão uma ferramenta adicional para combater e prevenir a doença. “A pesquisa que desenvolvemos no nosso laboratório e estudos anteriores sobre o mesmo tema sugerem que pessoas com risco de câncer de mama devem monitorar seus níveis de vitamina D e, com seus médicos, traçar estratégias para corrigir qualquer deficiência detectada”, diz.

Danilson Carvalho / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Danilson Carvalho / CB / D.A Press)
O médico assinala que muitos trabalhos têm sugerido não apenas que a deficiência da substância está associada ao risco aumentado de câncer de mama, mas à gravidade dos tumores e a piores prognósticos. No estudo atual, a equipe chefiada por Feldman implantou células de tumor mamário em ratos, que foram divididos em dois grupos. O primeiro, composto por 10 animais, foi alimentado com uma dieta carente de alimentos que contêm a vitamina ao longo de duas semanas e meia. O segundo recebeu uma dosagem normal da substância. Aqueles que ingeriram o cardápio deficiente desenvolveram tumores palpáveis em média sete dias antes que os demais. Após seis semanas, em relação ao crescimento, esses cânceres eram significativamente maiores.

Feldman conta que a equipe encontrou uma ligação entre a circulação da vitamina D na corrente sanguínea dos ratos e o funcionamento de um gene chamado ID1, já associado por outros estudos ao crescimento tumoral e à metástase de mama. O hormônio, segundo o médico, aparentemente reprime a superexpressão desse gene, uma hipótese testada em humanos. Os pesquisadores da Universidade de Stanford examinaram níveis de vitamina D e da proteína fabricada pelo gene nos tumores de 34 mulheres e confirmaram que, quanto maior a circulação do hormônio no organismo das pacientes, menor a quantidade da proteína no tumor. Depois, fizeram mais um teste em laboratório; dessa vez, usando uma linhagem de células retiradas do câncer de mama humano. Sob o microscópio, observaram que a vitamina D controla diretamente a expressão do gene.

O pesquisador esclarece que também foi possível relacionar a carência da vitamina D ao espalhamento do câncer. Ratos que receberam células geneticamente modificadas para produzir poucas doses do hormônio apresentaram metástase no fígado ao longo de quatro semanas de pesquisa. Já os animais de controle não desenvolveram o problema. “Pelo menos no modelo animal, ficou bastante claro para nós (a avinculação). Precisamos fazer muitos outros estudos, mas já nos parece uma associação bastante interessante”, observa Feldman.

Fator de risco

No laboratório do urologista Adam Murphy, da Universidade de Northwestern, os cientistas encontraram recentemente uma forte relação entre baixas doses do hormônio e câncer agressivo de próstata. Essa condição se caracteriza pela migração do câncer para fora da glândula e pelo escore de Gleason, um exame que avalia o aspecto microscópico das células tumorais. Uma baixa contagem significa que o tecido do câncer é similar ao tecido normal das células e pouco propenso a se espalhar. Já a pontuação alta indica que as células estão muito diferentes das originais, podendo invadir órgãos próximos.

Como parte de uma grande investigação que vai, no fim, apresentar dados sobre a vinculação do hormônio com o câncer de próstata em 1.760 pessoas, a pesquisa publicada no Journal of Clinical Oncology incluiu 190 homens, com média de idade de 64 anos, que passaram por prostatectomia radical para remover a glândula entre 2009 e 2014. Desse grupo, 87 pessoas tiveram câncer de próstata agressivo e apresentaram um nível médio de 22,7 nanogramas por mililitro da vitamina, uma taxa abaixo da considerada normal (30 nanogramas por mililitro).

Segundo Murphy, estudos anteriores já haviam sugerido uma associação entre deficiência da substância e câncer de próstata agressivo, mas essa é a primeira vez que se comprova a relação em exames de sangue feitos pouco tempo antes de o tumor começar a se diferenciar do tecido normal, o que é visualizado durante a cirurgia de remoção da próstata.

O pesquisador Brian Feldman, da Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford, esclarece, porém, que pessoas com dosagem normal de vitamina D não devem tomar suplementos para aumentar os níveis. “Corrigir deficiência é uma coisa completamente diferente, feita com a supervisão profissional”, alerta. “Níveis excessivos da substância podem fazer muito mal. Há diversos estudos apontando que o excesso de vitamina D provoca danos renais e cardiovasculares, entre outros”, destaca. Superdosagens do hormônio são usadas em terapias experimentais, contudo, sempre com supervisão de médicos e cientistas, lembra Feldman.


Evidências sob análise
“Os benefícios da vitamina D para além do já consagrado papel na melhora da saúde dos ossos ainda são controversos, apesar de muitas novas evidências darem suporte à ideia de que ela pode prevenir o câncer ou prever se ele será mais ou menos agressivo. Nós precisamos fazer mais estudos para continuar a compreender a relação entre a substância e o câncer — até muito recentemente, não havia pesquisas sobre o impacto da vitamina D no prognóstico ou no curso da doença. Agora, estamos começando a examinar como ela pode impactar alguns aspectos do câncer, como estágio e extensão do espalhamento do tumor, o prognóstico, a recorrência e o relapso e mesmo os subtipos do tumor”.

Thomas Churila, pesquisador do Commonwealth Medical College que fez um estudo de revisão sobre os trabalhos que associam câncer e vitamina D

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