Síndrome de Guillain-Barré associada ao zika traz novo alerta ao Brasil

Doença autoimune atinge a estrutura que recobre os neurônios, a bainha de mielina, podendo deixar paciente paralisado

por Carolina Cotta 19/03/2016 10:39

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A epidemia de zika trouxe, além do surto de microcefalia que vem amedrontando o Nordeste brasileiro, principalmente, um temor em relação à síndrome de Guillain-Barré. A doença autoimune não é uma novidade para a medicina, mas sua possível relação com o vírus zika, sim. Desde que aumentaram os casos suspeitos da infecção no Brasil, foi percebido também um crescimento no número de pessoas afetadas pela Guillain-Barré. Nas últimas semanas, uma publicação na inglesa The Lancet, uma das principais revistas científicas do mundo, veio reforçar a relação. Os pesquisadores fizeram um estudo de caso do surto de zika na Polinésia Francesa, entre outubro de 2013 e abril de 2014, mesmo período em que foi observado o aumento dos casos da síndrome.

Segundo Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Serviço de Neurologia do Hospital das Clínicas da UFMG, tal evidência reforça a importância da adoção de cuidados também em Minas, apesar de não termos casos confirmados de Guillain-Barré atrelado ao zika, ao contrário do que já ocorreu no Rio de Janeiro. Mas Caramelli alerta que foi percebido um quadro diferenciado nos pacientes com a síndrome e que todos estão sendo submetidos a exames para confirmar ou não a presença de anticorpos do zika no organismo. Especialistas do HC/UFMG estão, inclusive, com médicos de outros serviços de neurologia e infectologia no estado, preparando um protocolo que vai aliar a prática clínica à pesquisa.

“É tudo muito novo. Não sabíamos exatamente com o que estamos lidando. Até o fim de fevereiro, quando foi publicado o artigo do caso da Polinésia Francesa, não tínhamos sequer evidências contundentes para essa relação. Só suspeitas. Por enquanto, não percebemos aumento de casos em Minas, mas estamos vendo situações atípicas e talvez seja uma relação. Precisamos investigar”, diz. Segundo o professor, os exames desses pacientes não estão prontos, mas se há indícios de aumento de casos em outros estados é preciso aumentar a vigilância. “Um olhar mais cuidadoso para a síndrome de Guillain-Barré deve ser o próximo passo das entidades de saúde”, prevê.

O especialista reconhece uma preocupação em âmbito estadual e municipal, que há poucos dias promoveu um evento com recomendações. “Estamos nos preparando. Os médicos residentes passaram por atualização sobre as possíveis complicações da síndrome antes mesmo da publicação do artigo que reforça a relação com o zika.

Segundo a infectologista Tânia Marcial, coordenadora do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), apesar de não existir qualquer notificação para Guillain-Barré associada a zika no estado, o fato de vivenciarmos uma importante epidemia de arboviroses pode ser uma tendência a um aumento no número de casos. O fato de não se saber porque algumas pessoas têm mais tendência a desenvolver a síndrome exige cuidados.

“Normalmente, ela desenvolve o problema duas ou três semanas após uma infecção (por dengue, zika, chikungunya, dengue ou HIV), ou após vacinação. Mas em 40% dos casos não se identifica nem a causa. A síndrome não chega a ser comum, nem em reação a vacinas, nem a doenças infecciosas, mas temos relatos na literatura de em que país em epidemia de zika e chikungunya (transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti) os casos de Guillain-Barré aumentaram”, explica. O que há de novo é que na síndrome desencadeada pela infecção por zika a evolução da doença é aparentemente mais rápida, sugerindo uma maior gravidade, além dos anticorpos se voltarem contra o sistema nervoso periférico. “O prognóstico não é ruim, desde que se reconheça e interne o paciente para monitoramento precoce, para evitar possíveis complicações como a insuficiência respiratória.

COMPLICAÇÕES
A síndrome de Guillan-Barré é uma doença autoimune em que o sistema imunológico passa a atacar o sistema nervoso por meio da destruição da bainha de mielina, estrutura que recobre e protege os nervos periféricos para garantir a velocidade das transmissões nervosas. As causas principais são reações a infecções causadas por vírus e bactérias, assim como a cirurgias, vacinação, traumas, gravidez, linfomas, gastroenterite aguda e infecção das vias respiratórias altas.

Segundo Gustavo Daher, coordenador do serviço de Neurologia do Hospital Mater Dei e professor na Faculdade de Ciência Médicas de Minas Gerais, os principais sintomas são parestesias (alterações da sensibilidade, sensação de coceira, queimação, dormência e formigamento nos braços e pernas), fraqueza muscular progressiva e ascendente e perda dos reflexos.

O diagnóstico é feito por meio de avaliação clínica e neurológica, além de análise laboratorial do líquido cefalorraquiano. E para tratar pode-se recorrer à plasmaférese – técnica de filtragem do plasma do sangue – e à administração intravenosa de imunoglobulina, medicamento disponível da rede pública de saúde. Cerca de 80% dos pacientes têm uma evolução benigna do quadro, mas os demais podem desenvolver paralisias, inclusive da musculatura respiratória, o que pode levar à morte.

O médico conta que já atendeu três casos da síndrome este ano, nenhum deles atrelado à zika. “Mas desde que surgiu essa relação, o exame para identificação do vírus zika também precisa ser feito nesses pacientes”, explica.

FORTE EVIDÊNCIA
O estudo publicado pela The Lancet observou 42 pacientes diagnosticados com Guillain-Barré. Desses, 41 tinham anticorpos anti-zika vírus, o que confirma que foram expostos ao patógeno. Esses pacientes foram comparados com pessoas que tiveram infecção pelo zika, sem manifestações neurológicas do Guillain-Barré e também a um grupo de pessoas com a doença não infecciosa. As conclusões mostram que todos expostos ao zika tinham o anticorpo, mas eles foram mais comuns em que teve Guillan-Barré, principalmente um anticorpo do tipo Igm, que demonstra uma infecção aguda. É essa evidência que sugere, fortemente, a relação entre a infecção por zika, a criação de uma imunidade contra o vírus e daí o aparecimento dos sintomas de Guillain-Barré.

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