Silenciosa e conhecida como 'a doença das mil faces', sífilis avança no Brasil

Entre 2008 e 2015, Minas Gerais registrou um aumento de 600% nos casos de sífilis congênita, uma das causas da microcefalia, e de 843% de sífilis em gestantes. Em janeiro deste ano, 60,7% dos estados brasileiros relataram desabastecimento de penicilina benzatina, usada nos estágios iniciais da sífilis, e 100% de penicilina cristalina, droga utilizada no tratamento de sífilis congênita e estágios avançados de doença

por Valéria Mendes Arte: Soraia Piva 17/03/2016 09:40

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Entre 2008 e 2015, Minas registrou aumento de 600% nos casos da doença congênita, uma das causas da microcefalia (foto: SXC.hu / Banco de Imagens )
Alguma coisa está fora da ordem. Em 2008, Minas Gerais registrava 189 casos de sífilis congênita e 256 de sífilis em gestantes. Sete anos depois, em 2015, os números subiram, respectivamente, para 1324 e 2414. No primeiro caso, um aumento de 600%. No segundo, de 843%. O cenário não é alarmante apenas no estado. Dados do Ministério da Saúde (MS) mostram o avanço da doença em todo o país. Em 2008, o Brasil registrava 7.920 casos de grávidas infectadas pela bactéria Treponema pallidum e, em 2013, 21.382. Já nos casos dos bebês nascidos com sífilis no mesmo período (2008-2013) o avanço foi de 5.728 (dois casos para cada 1.000 nascidos vivos) para 13.705 (4,7 para cada mil nascidos vivos). Relatório interno assinado pelo diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, aponta para 2016 um total de 28.226 diagnósticos prováveis da infecção em grávidas e 16.226 de sífilis congênita (5,6 a cada mil nascidos vivos).





As causas do problema são multifatoriais e incluem a falta de penicilina no país, a qualidade do pré-natal e questões culturais de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. “O Brasil é campeão mundial em sífilis congênita. A doença é negligenciada e equivocadamente associada à promiscuidade, mas é extremamente prevalente no Brasil em todas as classes sociais. Diariamente atendo entre três a quatro casos de sífilis no meu consultório. Qualquer pessoa que tem relação sexual desprotegida pode ter sífilis, mas a doença é relegada a um plano secundário. A verdade é que não temos a dimensão da sífilis no Brasil, só sabemos que é muito maior do que a gente imagina”, alerta o coordenador científico do Departamento de Infectologia da Associação Paulista de Medicina e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado.

Silenciosa, com sintomas que podem passar despercebidos pelo paciente e até por profissionais de saúde, a infecção por sífilis é conhecida como a doença das mil faces que pode levar à morte. Transmitida por relação sexual com alguém infectado, incluindo o sexo oral, e também por transfusão de sangue, o primeiro sintoma da doença é uma ferida (cancro duro) que não dói, não coça, não arde e que comumente aparece nos órgãos sexuais de homens e mulheres e desaparece depois de um tempo. Essa é a fase primária da infecção. “Ela é a doença das mil faces porque pode ser facilmente confundida. O primeiro sintoma, que é o cancro duro, pode aparecer na boca e ser confundida com afta, pode se manifestar intravaginal e a mulher nem notar, no ânus e ser vista como um machucado qualquer. Existem casos descritos na literatura científica de que a lesão se manifestou no dedo”, explica o especialista.

Na fase secundária, manchas vermelhas surgem pelo corpo. Nesse estágio, a doença pode ser confundida com algum tipo de alergia e, como os sintomas também somem geralmente em dez dias, a pessoa acredita que foi curada dessa suposta alergia sem nem cogitar a sífilis. “O médico também não está habituado a associar esse sintoma à DST. Quando a sífilis não é diagnosticada em suas fases iniciais, passa por uma latência sem nenhuma manifestação clínica que só é detectada em exames”, afirma Juvêncio Furtado.

Na fase terciária, a doença pode ficar sem apresentar sintomas por meses ou anos, até o momento em que surgem complicações graves como cegueira, paralisia, doença cerebral, problemas cardíacos e morte. “Habitualmente a sífilis evolui para formas mais graves como a neurossífilis (que leva à loucura). Essa evolução pode durar anos e, em alguns casos, não evoluir”, explica o especialista.

Para a obstetra e membro da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Inessa Beraldo o que se vê no Brasil atualmente é um diagnóstico atrasado seja na população adulta em geral, seja na gestante. “O aumento no número de uma enfermidade tem causas diversas, mas uma delas é sempre o não reconhecimento da doença. A sífilis tem cura e ela pode ser tratada em qualquer um dos seus estágios”, diz.

Para além da dificuldade do diagnóstico, a sífilis adquirida só passou a ser de notificação obrigatória no Brasil em 2014. Antes disso, a notificação era compulsória para gestantes (desde 2005) e nos casos de sífilis congênita (desde 1986). Outro porém é que não é comum entre a população sexualmente ativa a realização do teste rápido para diagnosticar essa DST justamente pelo fato de a doença ser assintomática na grande maioria dos casos em que se manifesta em adultos. O que acontece na prática é a testagem nas pessoas que são doadoras de sangue e nas mulheres grávidas. “A sífilis não é uma doença para amadores. Toda a população merece atenção de diagnóstico”, ressalta Juvêncio Furtado.

Dessa forma, antes da notificação compulsória para sífilis adquirida, a transmissão da doença no país só era percebida durante o pré-natal. O teste em gestantes deve ser realizado na primeira consulta de pré-natal e repetido no terceiro trimestre da gestação e no momento do parto, independentemente de exames anteriores.

Falta medicamento
Outro problema que explica o avanço da doença no território nacional é a falta de penicilina, medicamento de escolha para tratar a sífilis já que não existe relato de resistência a esse antibiótico pela população. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), desde 2015 há indisponibilidade do medicamento no mercado mundial por problemas na produção devido à falta de matéria-prima. O MS confirma: “o problema do desabastecimento de todos os tipos de penicilina e seus derivados é global e deve-se à falta da matéria-prima, que é produzida apenas na China e na Índia. Desde os primeiros relatos de dificuldade de aquisição por parte dos estados e municípios brasileiros, em 2014, o Ministério da Saúde tem mantido contato com os produtores nacionais para avaliação do abastecimento no país”.

Reprodução Internet
Relatório do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, publicado em fevereiro deste ano, mostra a falta de penicilina no Brasil. Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais. (foto: Reprodução Internet )
Já se vão dois anos e o problema não foi solucionado. O levantamento mais atualizado do MS, que data de 28 de janeiro de 2016, revela que 60,6% dos estados brasileiros relataram desabastecimento de penicilina benzatina e 100% da penicilina cristalina. Nas fases primária e secundária da sífilis, quando o risco de contágio é maior, a penicilina benzatina é o tratamento de escolha. Já a penicilina cristalina é o remédio recomendado para combater a sífilis congênita e a doença em fases avançadas.

O MS afirma ter fechado neste mês a compra de 2,7 milhões de frascos de penicilina benzatina para abastecer emergencialmente os estados brasileiros. O investimento é de aproximadamente R$ 2,6 milhões. Os primeiros lotes chegam ao Brasil em março. A SES-MG confirma e afirma que há a expectativa de distribuição aos municípios mineiros ainda em março.

O infectologista Juvêncio Furtado ressalta que a penicilina é um medicamento barato e o exame de sífilis também tem custo baixo. “Estamos diante de uma doença com remédio efetivo e diagnóstico barato e ainda continuamos a ter casos de sífilis congênita no Brasil”, lamenta. Na opinião dele, a falta de penicilina se prolongou demais no país e o estoque ainda não foi restabelecido. “Existem tratamentos alternativos, com outros antibióticos, mas já existe resistência estabelecida a essas drogas e o tratamento fica comprometido”, reforça. No caso da sífilis na gestação, Inessa Beraldo reforça que não tem outra medicação de escolha além da penicilina.

A SES-MG diz que o estoque remanescente da última aquisição tem sido usado prioritariamente no tratamento dos casos de sífilis em gestantes e recém-nascidos com sífilis congênita. Isso por que as conseqüências da doença na gravidez são muito sérias e podem levar ao aborto. A sífilis congênita, transmitida de mãe para filho, é uma infecção grave que pode causar malformação do feto, entre elas a microcefalia. Ao nascer, a criança pode ter pneumonia, feridas no corpo, cegueira, dentes deformados, problemas ósseos, surdez ou deficiência mental. Se o bebê nasce gravemente doente, a infecção pode levar à morte. “Os exames realizados em diferentes períodos da gravidez auxiliam os médicos a fornecerem um diagnóstico mais efetivo e, com isso, podem acompanhar o desenvolvimento da doença na mãe e na criança, além de, em alguns casos, conseguir combater a infecção sem que ela afete o feto”, afirma Inessa Beraldo.

Com diagnóstico, mas sem remédio

A estudante Adriane Oliveira Conceição, de 19 anos, está no nono mês de gestação e espera pela chegada de sua primeira filha, Sofia, a partir de 6 abril. Antes de receber o diagnóstico positivo de sífilis na gestação ela só sabia que a doença era uma DST e sequer imaginava as consequências para ela ou para o bebê. “Eu fiquei bem assustada quando recebi a notícia”, diz.

A jovem conta que estava separada do pai de sua filha quando engravidou. “Os primeiros exames que fiz, em 16 de novembro do ano passado, deram negativo. Pouco tempo depois que reatei meu casamento, meu marido apareceu com manchas vermelhas no corpo e fui refazer os testes. Em 18 de fevereiro, deu positivo”, relata. Agora, ela e o companheiro estão se tratando e usando preservativo nas relações sexuais. No entanto, Adriane afirma que não encontrou o medicamento em nenhum posto de saúde de Belo Horizonte. “Posto nenhum tem. Tive que comprar”, conta.

A mãe de Sofia está um pouco ansiosa para o parto principalmente porque o tratamento com penicilina vai até 22 de março. “A médica me disse que o ideal é que o uso da medicação terminasse 30 dias antes do parto, mas não vai dar. Só saberei se a Sofia tem sífilis congênita quando ela nascer e fizerem os exames nela”, diz um pouco ansiosa.

Qualidade do pré-natal
Para  Inessa Beraldo é a qualidade do pré-natal que vai barrar o avanço da sífilis congênita no país já que a doença em bebês está diretamente relacionada à falta de diagnóstico. “O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado em 2015, mas com dados de até 2014 mostram que quase 80% das gestantes com sífilis fizeram pré-natal. Será que essas mulheres tiveram os exames interpretados de maneira adequada? Será que elas foram tratadas de maneira adequada?”, questiona a médica.

Além de todo esse cenário alarmante, questões culturais ainda propiciam a transmissão da doença no Brasil. Não é raro, segundo o infectologista Juvêncio Furtado, a mulher ser reinfectada na gravidez pelo companheiro que se nega a usar preservativo ou fazer o tratamento. “O marido pode ser a fonte de reinfeção da mulher na gestação. Por isso, o casal precisa ser tratado”, reforça o especialista. A ginecologista Inessa Beraldo lembra que a sífilis na gestação não é indicação de cesariana e reforça que o bebê pode e deve ser amamentado.

Os testes rápidos para sífilis fazem parte das estratégias do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais (DDAHV) do Ministério da Saúde para ampliar a cobertura diagnóstica da doença. São dois tipos de teste, o treponêmico e o não treponêmico. No primeiro caso, qualquer pessoa que teve contato com a sífilis, tratada ou não, terá esse teste positivo para a vida toda. Já o não treponêmico (VDRL) mede a atividade da doença. “O resultado pode confundir o não especialista e é preciso interpreta-lo bem para não tratar demais e nem de menos”, reforça Juvêncio Furtado.

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