Em feito inédito, cientistas detectam mudanças que ocorrem no cérebro das pessoas antes do surgimento do Alzheimer

Com tomografias, estudo mostra como as proteínas vão se acumulando nos neurônios e comprometendo a cognição dos pacientes

por Paloma Oliveto 14/03/2016 15:00

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Muito antes de os primeiros sinais cognitivos do Alzheimer começarem a se manifestar, um processo lento, progressivo e irreversível vem ocorrendo dentro do cérebro. Entre os neurônios, acumulam-se dois tipos de proteína, a tau e a beta-amiloide, que começam a danificar a estrutura e o funcionamento das células. O processo, fundamental para a compreensão de uma doença que deve afetar mais de 115 milhões de indivíduos em 2050, já foi observado em tecidos cerebrais de cadáveres. Agora, pela primeira vez, cientistas conseguiram visualizá-lo em pessoas vivas e sem sintomas do problema. A ferramenta que possibilitou detectar a progressão do mal neurodegenerativo foi um exame de imagem muito usado para rastrear tumores, o PET scan.

Cristiano Gomes / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Cristiano Gomes / CB / D.A Press )


Samuel Lockhart, pesquisador do Instituto de Neurociências Helen Wills da Universidade da Califórnia em Berkeley e coautor da pesquisa, publicada na revista Neuron, explica que, há até pouco tempo, a única ferramenta disponível para a detecção da doença eram os sintomas clínicos. “Não havia teste de laboratório. O médico entrevistava o paciente, a família e fazia alguns testes para afastar outros distúrbios possíveis. Em alguns casos, também poderia pedir para o paciente fazer exames cognitivos. Então, ele dizia: ‘Sim, parece que é Alzheimer’”, recorda. “Ao longo da década passada, contudo, foram desenvolvidos exames de imagem que podem mostrar mudanças específicas no cérebro que estão associadas à doença”, esclarece. Até agora, essas ferramentas diagnósticas, contudo, apenas indicam a presença anormal das proteínas no cérebro. Elas não haviam sido usadas para mostrar o padrão de acúmulo e a distribuição dessas substâncias ao longo do tempo.

Essa é uma informação importante quando se trata de Alzheimer porque a doença leva décadas para se manifestar clinicamente. O cérebro de uma pessoa sem qualquer sintoma já pode estar passando pelo processo de espalhamento dos depósitos de amiloide e dos emaranhados da proteína tau. Saber como as proteínas se comportam em jovens saudáveis, adultos e idosos sem comprometimento cognitivo e pacientes com suspeita da doença é fundamental para buscar meios de evitá-la ou tratá-la.

Há uma década, a equipe de William Jagust, professor de neurociência e saúde pública da instituição californiana, estuda como os métodos de diagnóstico por imagem podem ajudar no combate ao Alzheimer. Um dos focos de interesse do cientista são as proteínas tau. “De fato, a associação entre essa substância e o Alzheimer é ainda mais forte”, observa. Enquanto é possível ter quantidades significativas de placas beta-amiloides no cérebro e não exibir sinais da doença, quando há um excesso de produção de tau (principalmente quando espalhada pelo cérebro), é quase certo que o paciente já exibe sinais da demência.

Perfis distintos

Até agora, o único meio de observar essa substância que, quando abundante no cérebro, vai emaranhando os neurônios como em um novelo de lã embaraçado, é em exames post mortem. Porém, a equipe de Jagust conseguiu desenvolver um método que utiliza o PET scan para rastrear a proteína tau. Como o mesmo exame também localiza as placas amiloides, finalmente, os cientistas puderam realizar um estudo para ver como as duas substâncias se comportam em públicos diferenciados e também a forma em que elas se relacionam na patologia.

No experimento descrito na Neuron, os pesquisadores recrutaram cinco jovens sem sinais de demência, 33 adultos e idosos saudáveis e 15 pacientes entre 53 e 77 anos que já apresentavam sintomas de Alzheimer. O PET scan mostrou como a beta-amiloide e a tau se manifestam em pessoas desses três perfis. No caso dessa última substância, os cientistas usaram uma escala que varia de 1 a 6 para descrever o diferente grau de tau no cérebro. Ela foi elaborada por investigadores alemães com base em necrópsias de indivíduos que tinham a doença ao morrer.

De acordo com Samuel Lockhart, com as imagens de indivíduos vivos, ficou ainda mais claro que a tau desempenha um papel bem mais importante que a amiloide no desenvolvimento da doença. Os cientistas observaram que, com a idade, a substância se acumula na região do lobo temporal medial, onde fica o hipocampo e o centro da memória do cérebro. Ao unir esses resultados a testes cognitivos realizados com os pacientes que já tinham diagnóstico da doença, os pesquisadores também notaram que, quanto maior o nível da proteína nessa área cerebral, maior o declínio cognitivo.

Uma constatação que particularmente interessou a equipe foi a de que o Alzheimer não só está associado à presença das duas substâncias, como elas parecem agir de forma conjunta. Uma quantidade alta de placas amiloides está ligada ao espalhamento da tau para fora do lobo temporal, tomando o restante do cérebro. Os pesquisadores esclarecem que ainda não é possível dizer o que causa o quê: se é a beta-amiloide que facilita o progresso da tau ou se ocorre o inverso. Contudo, eles estão confiantes de que experimentos futuros baseados nas imagens de PET scan vão solucionar esse problema e indicar os melhores caminhos para combater a doença.


Universidade da Califórnia / Divulgação
William Jagust, autor do estudo (foto: Universidade da Califórnia / Divulgação )


As pessoas devem fazer o exame de detecção, caso tenham medo de estar com a doença, mas não apresentem os sintomas?
Se alguém está sofrendo sérios sintomas de perda cognitiva ou demência, a avaliação por um médico é muito importante até para buscar outras possíveis causas para o problema, que poderiam ser tratadas. Mas, se não apresentam sintomas, não há razão para se submeter ao PET scan. Nós ainda não temos tratamentos efetivos para oferecer a elas, e o teste não pode dizer precisamente quem terá Alzheimer e quem não terá. De fato, a Associação de Alzheimer e a Sociedade de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (dos EUA) recomendam que pessoas sem sintomas não façam o teste. Isso porque, se você faz o teste em pessoas que estão com 70 e poucos anos, sem problemas cognitivos, em cerca de um terço delas, o exame vai acusar a presença de placas amiloides. O problema é: não podemos dizer com certeza qual desenvolverá os sintomas da doença. Há um corpo crescente de evidências sugerindo que, se você tem amiloides no cérebro, você tem um risco maior de desenvolver o Alzheimer nos próximos 15 a 20 anos. Mas não podemos dizer quem está em risco maior. Algumas pessoas com placas jamais terão Alzheimer. Uma razão melhor para não fazer o exame nesse momento é que ainda não temos nada para retardar a progressão do Alzheimer.

No caso de os sintomas já terem se manifestado, o teste é útil?
Para pessoas que têm sintomas de declínio cognitivo significativo, especialmente nos casos em que é difícil para os médicos chegar a um diagnóstico, os exames de imagem podem ajudar a chegar ao Alzheimer. Mas, mesmo quando o resultado é positivo, isso não diz definitivamente que é Alzheimer. Os resultados podem apenas sugerir. É claro que o PET scan que detecta a amiloide e a proteína tau é um avanço incrível e que será bastante útil. Mas quero deixar claro que diagnosticar o Alzheimer não é uma simples questão de detectar essas proteínas. As placas amiloides começam a aparecer em algumas pessoas aos 60 anos, e a probabilidade de encontrá-las aumenta com a idade. Aos 75, há cerca de 30% de chances de se encontrar as placas. Quanto à proteína tau, quando as pessoas estão na casa dos 50, começamos a ver os emaranhados se formando numa parte do cérebro chamada hipocampo, que é associada à memória. Quando as pessoas chegam a 80 e 90, quase todo mundo tem esses emaranhados. Você pode apresentar essa característica e não ter demência. É quando os emaranhados se espalham para outras partes do cérebro que os sinais aparecem. Nós achamos que o Alzheimer ocorre quando as placas amiloides estão presentes e os emaranhados da proteína tau se espalharam para fora do hipocampo. Achamos que é isso que define o Alzheimer. O desenvolvimento desse processo poderá levar de 15 a 20 anos, ou mais

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