Exposição com mulheres ciclistas de BH é censurada na Cidade Administrativa

O ensaio 'Sobre Quadros' constava na programação do Dia Internacional da Mulher da Cidade Administrativa de Minas Gerais. A autora do trabalho, Luisa Ranieri, foi surpreendida com o cancelamento da exposição que estreou nesta terça-feira. Argumento é de que as fotos eram "machistas" e "objetificavam a mulher", justamente os conceitos que a fotógrafa queria problematizar

por Valéria Mendes 08/03/2016 15:13

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Luisa Ranieri
Clarice Lacerda (foto: Luisa Ranieri)
A fotógrafa Luisa Raniere, 27 anos, se preparava para a estreia da exposição ‘Sobre Quadros’ nesta terça-feira (08/03), na Cidade Administrativa de Minas Gerais, quando foi supreendida pelo cancelamento da mostra que integrava a programação do Dia Internacional da Mulher na sede do governo. A justificativa que ela recebeu da Secretaria de Direitos Humanos Participação Social e Cidadania (Sedpac) e Subsecretaria de Política das Mulheres (SPM), que a convidaram para esse trabalho, foi a de que funcionários e funcionárias reagiram negativamente ao ensaio sensual que retrata sete ciclistas de Belo Horizonte. “Ainda estou aguardando a nota de esclarecimento. Por telefone, me disseram que a SPM recebeu uma série de e-mails reclamando que o ensaio era machista, desrespeitoso e que objetificava a mulher e, por isso, optaram por cancelar a exposição”, afirma a autora do trabalho.

O curioso da história é que as acusações ao trabalho de Ranieri são justamente os conceitos que ela pretendia problematizar com a série de fotos. “O objetivo é retratar um pouco da luta feminina por igualdade de direitos e oportunidades através do empoderamento de seus corpos”, explica a autora.


Na cultura machista que hiperssexualiza o corpo feminino é realmente difícil entender como um ensaio que evidencia esse corpo pode ser um instrumento de luta. Quem não se lembra da história da atriz e cantora Paola Alves Lopes que posou grávida de lingerie pelas ruas da capital mineira  e foi agredida verbalmente por moradores depois que as imagens foram divulgadas em todo o Brasil? O autor das fotos, que é marido de Paola e pai do filho que ela esperava, Alexandre Périgo disse à época que o ensaio era “para chocar e fazer uma crítica à tradicional família mineira”. Recentemente ele contou em sua página no Facebook que ele foi um dos vencedores do 5º Concurso Internacional de Fotografia da SOS Ação Mulher e Família, instituição que, segundo ele, lula pelos direitos das mulheres há mais de 35 anos. O tema da premiação foi ‘Mulher: quebrando paradigmas’.

O risco da objetificação existe quando a pessoa não entende que aquele corpo é dela. Se existe esse entendimento, o corpo não é objeto e sim, sujeito. “Eu sinto que tem sempre gente falando o que a mulher pode ou não fazer. E uma dessas coisas é não tirar a roupa, mas ninguém tem que mandar no meu corpo. E fim de papo”, defende Luisa Raniere.

Apesar da censura, a fotógrafa considera a discussão que tem sido travada não só na Cidade Administrativa, mas também no ambiente virtual, um aspecto positivo. “A ideia é essa mesmo. O que acontece se a mulher tirar a roupa do jeito que ela quer?”, questiona.

A ideia do ensaio, segundo Luisa Raniere, era fotografar as mulheres da forma que elas se sentissem confortáveis. Outra crítica recebida pela autora se refere à falta de diversidade na representação das ciclistas de BH. “Desde que recebi o convite até o momento da impressão, eu tive dez dias para realizar o trabalho. Eu fiz o chamado em um grupo de Facebook com 132 ciclistas. As meninas retratadas foram as que toparam. Agora, eu pretendo ampliar o projeto incluindo a diversidade como conceito”, conta. A fotógrafa diz ainda que a exposição vai acontecer em outro lugar em Belo Horizonte, na Rua Sergipe, 629. 

 

Confira nota da Subsecretaria de Políticas para as Mulheres sobre o episódio:
A Subsecretaria de Políticas para as Mulheres esclarece que o ensaio fotográfico “Sobre Quadros”, da fotógrafa Luisa Ranieri, foi selecionado para exposição em atividades alusivas ao Dia Internacional da Mulher por retratar mulheres ciclistas representando uma parte da luta feminista por igualdade de direitos. Por meio das fotos e dos depoimentos que contextualizam as imagens, o trabalho traz reflexões sobre a liberdade que o ciclismo oferece, possibilitando outras visões da realidade urbana. No entendimento da Subsecretaria, a exposição não tem caráter erótico nem desafiador, mas expressa este momento liberto de mulheres que, ao se deslocarem pela cidade, sentem os assédios na rua e os repudiam. Na manhã de hoje (8/3), o material foi retirado de exposição da Cidade Administrativa de Minas Gerais porque muitas pessoas protestaram e esta reação levanta uma questão importante a ser debatida. A Subsecretaria de Políticas para as Mulheres lamenta que a exposição possa ter ofendido a quem quer que seja. Diante do interesse instalado, a Subsecretaria promoverá discussões sobre o tema, para as quais serão convidadas a fotógrafa, servidoras e servidores.

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