Sociólogo cria software gratuito para facilitar a navegação de pessoas com deficiência visual na internet

O 'F123 Acess' favorece a autonomia no dia a dia: tanto nos afazeres pessoais, profissionais e educacionais

por Lilian Monteiro 04/03/2016 09:30

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Renato Stockler/Divulgação
Fernando Botelho perdeu a maior parte da visão aos 16 anos. Sem se acomodar, queria fazer a diferença no mundo e trabalhar com algo que impactasse a vida de outras pessoas (foto: Renato Stockler/Divulgação)
Quarenta e cinco anos, empreendedor social, sociólogo, com mestrado em relações internacionais, Fernando Botelho criou um software gratuito para facilitar a navegação de pessoas com deficiência visual na internet. O F123 Acess dá autonomia à pessoa no dia a dia, tanto nos afazeres pessoais, profissionais e educacionais. De Curitiba (PR), ele conta que sempre teve dificuldade em enxergar e, aos 16 anos, perdeu a maior parte da visão e ficou oficialmente cego. “Minha grande sorte foi ter pais que nunca me trataram como vítima, mas, sim, como alguém que tinha potencial e que eles na época tiveram recursos para comprar tudo o que havia de melhor em termos de tecnologia assistiva. O resultado disso é a pessoa que sou hoje, feliz, casado e cheio de trabalho.”

Por muitos anos, Fernando revela que teve duas obsessões: “Provar ao mundo do que era capaz e fazer algo de útil para a sociedade”. Ele se lembra de que durante muito tempo sua preocupação era mostrar que era competitivo. “Isso me afastou do mundo dos cegos e de atividades tipicamente relacionadas, como a música e o direito. Não queria ser visto como competitivo em atividades para cegos e, sim, competitivo em geral. Eventualmente, trabalhando nos EUA e na Europa, perdi a preocupação em provar para os outros do que era capaz; talvez porque já começava a acreditar em mim mesmo. Comecei a ter somente a velha obsessão de encontrar algo no qual eu poderia ter um impacto positivo no mundo. Foi então que encontrei o conceito do F123 e descobri que, aceitando trabalhar em algo relacionado à cegueira, poderia ter um impacto extraordinariamente maior do que em qualquer outro setor.”

Renato Stockler/Divulgação
Programa F123 Acess dá autonomia aos cegos ao reformatar as páginas da internet, fazendo com que o computador leia o conteúdo para o usuário (foto: Renato Stockler/Divulgação)

Software
A partir de 2006, no tempo livre, Fernando pesquisou os fatores que encareciam tanto a tecnologia para cegos e deficientes visuais parciais. “Comparei o custo de um computador de boa marca em 1997 e o mesmo tipo de máquina, com a mesma qualidade, em 2006. Fiz a mesma comparação entre os preços do software leitor de tela mais conhecido na época. O resultado foi extraordinário: enquanto o preço, corrigido pela inflação, de um computador básico caíra mais de 80%, o preço do software mais vendido – que em 1997 já era caro e inacessível para praticamente todos os cegos de países em desenvolvimento – subira mais de 20%! A decisão então foi fácil. O F123 seria uma iniciativa focada em software. A competição entre fabricantes de computadores já estava causando redução dramática no preço de hardware, faltava trazer a mesma dinâmica para o mundo do software”, lembra.

O desenvolvimento do F123 Access começou em 2014 e foi possível principalmente graças aos recursos doados pela Ponto Frio, por meio da Fundação Via Varejo. “O F123 Access facilita o uso da internet por parte de quem é cego, melhorando a acessibilidade de páginas feitas incorretamente. Essa reformatação de muitas páginas web permite que o computador leia o conteúdo das mesmas e o usuário possa clicar em links e fazer tudo aquilo que normalmente é possível fazer on-line”, explica. Interessados podem obter o software gratuitamente no site F123Access.com ou enviando e-mail ao endereço acesso@F123.org. Ele está disponível em português, espanhol, inglês e italiano. O invento de Fernando já beneficia usuários em 58 países e ele espera duplicar o número de beneficiários nos próximos dois meses.

O sociólogo explica que uma vantagem ao criar o F123 é que por ele ser deficiente visual há mais de duas décadas, entende bem as necessidades dos usuários. “Prestamos também muita atenção às necessidades de quem é principiante. Essa visão, que encara tanto os desafios técnicos quanto os humanos, tem dado resultados positivos. Já temos usuários cegos em quase 60 países e tivemos uma série de reconhecimentos, como Seleção pela Iniciativa Incluir – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Fundação Dom Cabral; Prêmio 2015 Tecnologia é Ponte do Changemakers da Ashoka e o Instituto Embratel Claro; Prêmio 2014 da Pauchon Research Foundation (EUA), Prática Inovadora 2013 – Zero Project, da Áustria; e Empreendedor Social Mais Saúde 2012 – Boehringer Ingelheim, da Alemanha, entre outros.” Ajudar tantas pessoas, tantos anônimos, Fernando conta que “são uma honra e um privilégio”.

Sobre mudar o mundo
“Ideias são fáceis e muito baratas, enquanto ações e resultados concretos realmente mudam o mundo. Outra diferença absolutamente crucial entre ideia e ação é que muita gente pode não entender uma ideia e pouca gente pode aceitar apoiar a mesma. No entanto, um protótipo que funciona é algo concreto, físico e real que pode ser demonstrado com facilidade a potenciais financiadores. Então, o maior problema do F123, seu maior obstáculo, foi nascer.” Ele lembra que o primeiro protótipo dependeu de horas de experimentação, junto com sua parceira Flávia, antes de funcionar. “Foi um processo árduo porque não sou tecnicamente um desenvolvedor de software. Sou apenas alguém muito teimoso, ou persistente, como prefiro dizer. E também tenho sorte de viver em uma época onde a informação é barata e fácil e poder ver empreendedores sociais fazendo trabalhos incríveis em todo o mundo.”


Arquivo Pessoal/Divulgação
Roberta Fonseca Santos, de 19 anos, cursa o 3º período da Faculdade de Ciências da Computação na Fumec (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)


Fácil e acessível

“Sou deficiente visual de nascença, enxergo muito pouco. Não é o suficiente para ler, nem com letras ampliadas. Nasci com o nervo óptico atrofiado. Em 2010, descobri o glaucoma e a catarata em ambos os olhos. O glaucoma é controlado com o uso de colírios constantemente, e a catarata já foi removida por meio da cirurgia. Conheci o F123 Access por meio dos grupos de que participo no Facebook, que tratam de tecnologias acessíveis a deficientes visuais. Sou uma pessoa bastante curiosa em relação a novidades, principalmente no mundo da tecnologia. Resolvi testar o software, tanto para uso pessoal como, futuramente, para escrever um artigo em meu blog, que também trata de tecnologias acessíveis, ensinando a instalar e usar o software. Comecei a usá-lo em 7 de dezembro de 2015, pouco depois do lançamento oficial, que ocorreu no dia 3, em homenagem ao Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. O software me deixou bastante satisfeita. Notei que era um produto potencialmente diferente e útil no mercado para os cegos. E, melhor ainda, gratuito. Tanto que escrevi um artigo sobre ele. Você pode conferir o texto no link: http://computacaoacessivel.blogspot.com/2015/12/usando-whatsapp-web-com-autonomia.html. O F123 Access faz o que nenhum software atualmente faz: ele reformata as páginas da web, para que elas se tornem acessíveis a deficientes visuais. O maior impacto é sobre a página do WhatsApp Web, que, sem ele, é completamente inacessível e desorganizada para os cegos. Ele também atua na página do YouTube e do Facebook, com reformatações exclusivas. Atualmente, ele está disponível apenas para o navegador Mozilla Firefox, mas, em breve, estará no Google Chrome.”

Roberta Fonseca Santos, de 19 anos, cursa o 3º período da Faculdade de Ciências da Computação na Fumec

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