Pesquisa abre possibilidade para que Alzheimer seja detectado por exame

Cientistas dos EUA identificam odores na urina que indicam a existência da doença neurodegenerativa em ratos antes do surgimento dos primeiros sintomas

por Roberta Machado 03/03/2016 15:00

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Com a praticidade de uma simples visita ao laboratório, talvez seja possível identificar sinais precoces do Alzheimer. O conceito é fruto de estudo realizado por um conjunto de instituições norte-americanas e publicado recentemente na revista Scientific Reports. Os cientistas identificaram padrões de odores na urina de ratos que sofriam uma versão induzida da doença neurodegenerativa. Os resultados indicam a possibilidade de desenvolvimento de uma técnica de diagnóstico para a enfermidade antes mesmo de os primeiros sintomas aparecerem.

Para esse trabalho, foram usados três modelos de ratos com mutações no gene da proteína precursora amiloide (PPA), a molécula que dá origem às placas de proteína que se acumulam no cérebro de pessoas que têm Alzheimer. O primeiro teste a que as cobaias foram submetidas foi comportamental. Quando colocados com animais saudáveis, os bichos mudaram o comportamento. Aqueles que não sofriam da doença notaram a diferença no odor da urina dos companheiros modificados e ficaram agitados. “Os ratos respondem a alterações específicas na urina mesmo quando outros fatores causam variações no perfil volátil, como a dieta”, ressaltou o autor Bruce Kimball, cientista do Instituto de Pesquisas dos Sentidos Monell Center, nos Estados Unidos.

O estudo mostrou que as mudanças de odor não eram causadas pela presença de um biomarcador ligado à doença neurodegenerativa. As propriedades da urina teriam sido modificadas por variação na concentração de alguns componentes que já existiam no líquido dos animais saudáveis. Kimball ressalta que todos os processos inflamatórios resultam em alterações dos odores corporais, mas que essas mudanças nem sempre são compreendidas. “Infelizmente, não identificamos a ligação entre a expressão da PPA e os processos metabólicos que levam à mudança de odor”, ressalta o pesquisador.

Os resultados foram confirmados em exames de laboratório com precisão de 84%. A mudança na urina podia ser constatada independentemente da idade do animal, antes mesmo que as placas de proteína características do Alzheimer se acumulassem no cérebro dos roedores ou que eles demonstrassem qualquer sintoma da doença. Para os pesquisadores, esse é um sinal de que a assinatura olfativa é produzida pela presença do gene que leva à demência, e não pelas mudanças que ela causa no cérebro.

Na farmácia
Se o mesmo fenômeno for identificado em testes com humanos, há a possibilidade de desenvolvimento de um teste de urina para o Alzheimer que poderá ser feito em laboratório via análise cromatográfica ou até mesmo em uma versão de farmácia similar à usada para acusar gravidez. Essa seria, então, mais uma das doenças detectáveis por meio da urina, material usado para o diagnóstico de infecções, tuberculose e alguns tipos de câncer.

A estimativa é de que cerca de 45 milhões de pessoas do mundo vivam com Alzheimer ou alguma forma similar de demência, mas detectar essa condição ainda é complicado. Alguns procedimentos, como a ressonância magnética e o exame de fundo de olho (veja arte), podem ajudar o especialista a encontrar as mudanças neuronais que levam ao problema, mas o diagnóstico clínico é atualmente o padrão mais aceito. Um dos dificultadores, porém, é que o paciente só procura o médico quando os sintomas cognitivos da doença já fazem parte da rotina dele.

Mesmo que a solução não invasiva proposta pelos pesquisadores norte-americanos represente uma possível alternativa para o diagnóstico do Alzheimer, especialistas ressaltam que o modelo animal usado no estudo replica uma versão hereditária muito rara da doença, que aparece antes dos 60 anos. “A ideia é excelente, mas esse é um modelo muito específico de um tipo de Alzheimer. Para dizer se isso vai se aplicar ao tipo comum, de início tardio, são necessárias outras evidências de pesquisa”, observa Orestes Forlenza, vice-diretor do Laboratório de Neurociências do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

A diversidade de formas como o Alzheimer se manifesta é um complicador para a descoberta de um simples teste universal para o problema. “Esse estudo se baseia especificamente na hipótese da proteína beta-amiloide, que não é um marcador perfeito”, avalia Márcio Balthazar, neurologista e secretário do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Mesmo que o cérebro tenha uma grande concentração dessas placas, só se pode dizer que é doença de Alzheimer se for feito o diagnóstico clínico. Existem pessoas que têm essa alteração, mas não têm sintomas”, completa.

De acordo com os autores do trabalho, os resultados também podem ter implicações no estudo de outras doenças neurológicas. “No entanto, é importante apontar que há inúmeras diferenças entre o metabolismo humano e o de roedores. Portanto, esses resultados são destinados a ser uma prova de conceito, não podem ser imediatamente aplicados em estudos clínicos”, ressalta Daniel Wesson, também autor e neurocientista da Escola de Medicina da Universidade Case Western Reserve. “Eu acredito que, com estudos adicionais, essas descobertas iniciais serão importantes”, completa Wesson.

Os especialistas questionam ainda a necessidade de um diagnóstico precoce para o Alzheimer. “Seria aplicável no sentido de pesquisa, basicamente. Se ainda não há um tratamento eficaz, não há razão para fazer o teste”, acredita Einstein Francisco Camargos, diretor Cientifico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, seção Distrito Federal (SBGG-DF). O geriatra ressalta que há estudos que investigam a eficácia do uso de drogas para amenizar a demência nos primeiros estágios da doença, mas que ainda não é possível afirmar se essa estratégia pode retardar a evolução do problema. Nesse tipo de caso, uma ferramenta capaz de identificar as mudanças biológicas que precedem a doença poderia impulsionar esse tipo de pesquisa.

Taxa de gordura acusa versão rara
M
udanças químicas ocorridas no sangue também poderão ser usadas como indicativo precoce da doença da Alzheimer. É o que propõem cientistas da Universidade Edith Cowan, na Austrália, em artigo divulgado, neste mês, no Journal of Alzheimer’s disease. Segundo o grupo, o sinal de alerta vem de alterações em substâncias semelhantes à gordura e está relacionado principalmente a uma forma rara da doença, a hereditária, que representa em torno de 5% dos casos.

Os cientistas liderados por Ralph Martins chegaram ao biomarcador após analisar o perfil lipídico de 20 pessoas que tinham a mutação responsável por essa forma mais rara de Alzheimer. Eles descobriram que esses indivíduos também apresentam níveis alterados de lipídios no plasma sanguíneo.  Como o resultado é semelhante ao de estudos anteriores, a equipe concluiu que alterações no metabolismo de lípidos podem ser utilizadas como um teste preditivo para a doença neurodegenerativa.

Em pacientes com a doença de Alzheimer familiar, foram detectadas mutações dominantes, ou seja, ao apresentar o problema genético herdado do pai ou da mãe, o indivíduo desenvolverá o mal degenerativo. Geralmente, os sintomas começam a surgir entre 40 e 60 anos. A versão esporádica da doença pode afetar adultos de qualquer idade, mas, geralmente, se manifesta após os 65 anos. O gene ApoE14 é o único descoberto até o momento que pode causar um ligeiro aumento no risco de desenvolvimento do Alzheimer tardio. Ainda assim, pesquisas indicam que metade das pessoas que têm esse gene e vivem até aos 85 anos não desenvolve o problema.

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