Planta africana trata dependência química

Em pesquisa da Unifesp com 75 voluntários que usavam drogas estimulantes, como a cocaína, a ibogaína teve índice de eficácia superior a 60%, contra a média de 30% dos métodos tradicionais. A substância não tem registro na Anvisa e só pode ser ministrada em testes clínicos

por Ana Clara Brant 29/02/2016 11:05

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EM / D.A Press
A ibogaína interage nos circuitos cerebrais ligados à recompensa, alterando sensações provocadas pela droga (foto: EM / D.A Press)
João*, 37 anos, tinha 13 quando ocorreu seu primeiro contato com as drogas. Começou inalando tíner e cola. Com o tempo, ficou dependente também de maconha, álcool, crack e cocaína. Depois de quase duas décadas imerso nessa realidade, o professor decidiu largar as drogas, já que havia perdido praticamente tudo o que tinha. “Sem contar que eu estava muito infeliz com aquela situação, vendo a minha família passar por tudo aquilo e ainda estar doente por minha causa. Foi então que decidi procurar ajuda. Fui atrás de todo tipo de tratamentos por diversas vezes, mas nenhum surtiu efeito. Saía da clínica e, imediatamente, ia para a rua comprar crack, fumava e voltava a sentir e a ter aquela sensação de prazer de que eu gostava”, recorda.

Até que um dia João descobriu, conversando com um parente, a substância que mudou a sua vida: a ibogaína, derivada da raiz da planta iboga, nativa do Gabão e de Camarões, na África. “O tratamento é maravilhoso, recomendo a todos que querem se livrar do vício. A ibogaína conseguiu fazer com que eu parasse para refletir, lembrando de experiências que sempre me fizeram mal e do quanto fiz minha mãe e minha família sofrerem. O tratamento, além de apresentar efeitos positivos em relação ao abandono das drogas, tem um poder de reflexão interior, algo que eu não tinha. Era egoísta e pouco ligava para os outros. Hoje, consigo parar e pensar muito antes de agir. Posso garantir que esse efeito é de longo prazo”, assegura o mineiro.

A experiência vivida pelo professor repete-se em clínicas e instituições do Brasil e foi alvo de um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A equipe, liderada pelo psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, testou a ibogaína em 75 pacientes, homens e mulheres que, além de receberem a substância, participaram de sessões de psicoterapia. Ao fim de um ano, 51% dos homens e 100% das mulheres tiveram um resultado positivo com a ibogaína. “As taxas de sucesso, maiores que 60%, chamam a atenção. Os tratamentos tradicionais apresentam índices de 30% apenas”,compara Silveira. O estudo brasileiro foi o primeiro a detectar os efeitos da planta africana em relação ao vício em estimulantes, como a cocaína. Estudos anteriores trataram derivados do ópio, que diminuem a atividade do cérebro.

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Nativa do Gabão e de Camarões, a iboga contém a substância que começou a ser testada no Brasil há 10 anos: combinação com apoio psicológico (foto: EM / D.A Press)
Segundo o psiquiatra, porém, as razões do efeito benéfico da ibogaína precisam ser mais bem investigadas. “Ainda não se sabe exatamente como ela age. Detectamos que a ibogaína interage com os circuitos cerebrais de recompensa envolvidos nos comportamentos prazerosos. De alguma forma, supõe-se que ela possa alterar esses sentimentos de prazer associados ao abuso de álcool e de outras drogas”, esclarece.

Rogério Souza, mestre em medicina chinesa e naturopata, explica que o uso de drogas altera o funcionamento das conexões entre os neurônios, as sinapses, desequilibrando as proporções entre os neurotransmissores.O ibogaína, por sua vez, coloca o cérebro em um estado muito semelhante de equilíbrio e funcionamento de quando o paciente nasceu, ou seja, o dependente químico volta a ter o mesmo padrão que tinha antes de se viciar. “Ela produz uma grande quantidade do hormônio GDNF, que estimula a criação de conexões neuronais, auxiliando o paciente a perder a vontade de usar drogas. Também atua nos níveis de serotonina e dopamina, neurotransmissores responsáveis pelas sensações de prazer. No momento em que o paciente tem contato com a droga ilícita, ela perde a sua eficiência”, detalha.

Também diretor do Instituto Brasileiro de Terapias Alternativas (IBTA), em Paulínia, no interior de São Paulo, Souza conta que a ibogaína sempre esteve presente em rituais africanos, até que, na década de 1960, começou a ser testada com êxito em dependentes químicos nos Estados Unidos. No Brasil, a substância chegou há 10 anos. No IBTA, ela é ministrada em cápsulas e o ciclo de tratamento dura cinco dias, sem a necessidade de internação.

“Não há milagre, mas são necessários apenas cinco dias para mudar totalmente a química do cérebro. A gente vai ensiná-lo a agir como sempre agiu. A ibogaína faz com que a pessoa passe a olhar a própria vida sob um outro ângulo, promovendo momentos de reflexão e introspecção”, diz Souza. Além das cápsulas, o paciente participa de terapias alternativas diárias e tem encontros regulares com médicos, que também se reúnem com os familiares.

Psicoterapia
O psiquiatra Dartiu Xavier ressalta que, no tratamento, o indivíduo toma a cápsula da ibogaína, cujos efeitos duram até oito horas, em um ambiente hospitalar. Em média, um terço dos pacientes precisam se submeter à sessão apenas uma vez. Depois disso, a indicação é ser acompanhado em psicoterapia por meses. “Eles relatam que, sob o efeito da ibogaína, revivem a vida e passam a compreender melhor as razões que os levaram a ficar dependentes, além de descreverem vivências muito intensas e transformadoras. Como são momentos de emoções muito fortes, recomenda-se a psicoterapia por um período mínimo de seis meses”, aconselha o pesquisador da Unifesp.

Apesar dos bons resultados, podem haver recaídas. Rogério Souza diz que, para aquele que segue a orientação correta do tratamento, a chance de dar certo é muito grande. “A gente só não interfere no direito de escolha. A pessoa tem que querer, se esforçar e estar disposta a se recuperar. Dessa maneira, tudo favorece”, atesta.

Foi o que ocorreu com João. O professor admite que, logo depois do tratamento com a ibogaína, chegou a ter uma recaída. No entanto, o efeito da droga no seu organismo foi tão ruim que resolveu nunca mais usá-la. “Consegui largar as drogas graças à ibogaína, à minha força de vontade e acredito que também com a ajuda de um poder superior. Estou limpo há nove meses e não sinto nenhuma vontade de usar qualquer substância química”, celebra.

*Nome fictício



Dartiu Xavier, psiquiatra e professor da Universidade Federal de São Paulo


A ibogaína pode ser utilizada para qualquer dependência química?
Os estudos internacionais investigaram a ação favorável da substância em dependentes de heroína, morfina e outros derivados do ópio. O nosso estudo foi o primeiro a evidenciar benefícios com o uso abusivo de estimulantes, como a cocaína.

E quais são as desvantagens ou contraindicações?
A desvantagem seria o fato de ela não ser suficientemente conhecida. Houve relatos de 19 mortes por uso de ibogaína. Por isso, é indicado seu uso em ambiente hospitalar, com o paciente hospitalizado e monitorado. Alguns problemas cardíacos podem surgir, daí a importância de ser ministrada em um hospital. Além disso, pacientes que tiveram surto psicótico não devem usá-la, assim como quem sofre de algum tipo de esquizofrenia, é cardíaco ou tem algum problema hepático grave.



Comércio proibido
A ibogaína não tem registro no Brasil, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Logo, não pode ser considerada medicamento. “Não existe proibição nem regulamentação com relação à ibogaína, assim como não existe com relação à acupuntura, à terapia ortomolecular, mas a clínica pode importá-la mediante o CPF do paciente, para uso exclusivo dele. Ou seja, ela não pode ser comercializada”, elucida Rogério Souza, diretor do Instituto Brasileiro de Terapias Alternativas.
O médico Dartiu Xavier acrescenta que, apesar de a Anvisa permitir a importação da ibogaína, ela ainda não é uma forma de tratamento aceita como válida, pois está em fase de testes. O uso para qualquer treinamento só pode ser feito em contexto de pesquisa clínica. “Devido aos riscos, contraindicamos a utilização em clínicas onde não haja uma estrutura médica para emergências que possam surgir”, frisa.

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