Estudos vão além da origem genética do autismo e relacionam o transtorno com a prematuridade

Nas linhas de investigação, falhas no desenvolvimento cerebral ganham destaque

por Paloma Oliveto 26/02/2016 15:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.

Não faz nem duas décadas que o transtorno do espectro autista (TEA) era uma condição misteriosa, sobre a qual muitos só ouviram falar graças ao filme Rain Main, estrelado por Dustin Hoffman. No fim da década de 1980, quando a obra foi lançada, estimava-se que uma em cada cinco mil crianças encaixava-se no diagnóstico. Hoje, sabe-se que o autismo não é um mundo intransponível, tampouco uma doença, mas, sim, um conjunto de síndromes com características comuns, com prevalência de um em cada 50, segundo estimativas norte-americanas — no Brasil, não há estatísticas a respeito.

Embora o conhecimento esteja mais avançado, ainda não se sabem as causas do TEA. Novas pesquisas, porém, estão ajudando a desvendar as origens do autismo, que tem um forte componente genético, mas também é influenciado por fatores não relacionados ao DNA. Os próprios estudos sobre os genes implicados com as síndromes estão afunilando, com trabalhos que apontam um número menor de proteínas cujo mau funcionamento pode levar ao desenvolvimento irregular de áreas cerebrais relacionadas à linguagem e às habilidades sociais.

Recentemente, cientistas do Laboratório de Cold Spring Harbor, nos Estados Unidos, publicaram na revista Pnas um trabalho que desafia a teoria mais aceita sobre a genética do autismo, segundo a qual o transtorno é resultado de combinações aleatórias de mutações comuns que não causam danos de outra forma. De acordo com Ivan Iossifov, biólogo da instituição e um dos autores do estudo, o que está por trás de metade dos casos de TEA são mutações raríssimas que ocorrem espontaneamente de uma geração para a outra. Essas mutações são chamadas de LGD (sigla, em inglês, para interrupção provável de genes) e poderiam ajudar os cientistas a priorizar as investigações sobre os genes associados ao autismo.

Somente nessa primeira pesquisa, os especialistas de Cold Spring Harbor já conseguiram baixar de 500 para 200 os genes que podem estar diretamente implicados com o distúrbio. Iossifov destaca que, entre as descobertas publicadas na Pnas, uma delas reforça a teoria de que o autismo tem forte relação com problemas no desenvolvimento do cérebro. “Uma proporção surpreendente das mutações LGD ocorre em genes expressos no cérebro, ainda na fase embrionária. Isso confirma que ao menos algumas das mutações genéticas que podem resultar no transtorno de espectro autista ocorrem em genes indispensáveis ao desenvolvimento normal do cérebro”, diz o cientista.

Por outro lado, aumentaram os estudos que buscam em fatores não genéticos ao menos parte das causas do TEA, que seria um transtorno multifatorial, de acordo com pesquisadores. Em comum com as pesquisas de DNA, esses trabalhos destacam o desenvolvimento do cérebro como momento crítico para a ocorrência de problemas que poderão desencadear nas síndromes. Em janeiro, pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, publicaram no jornal Cerebral Cortex um artigo indicando que bebês extremamente prematuros têm risco muito maior de desenvolver os sintomas do autismo quando mais velhos ou ainda no período neonatal, comparado a crianças que nasceram na época certa. Isso estaria ligado à maior probabilidade de danos cerebrais.

Estresse pós-parto
Graças aos avanços da medicina intensiva, bebês extremamente prematuros — que nascem com menos 32 semanas de gestação — conseguem sobreviver mais do que no passado. Contudo, aqueles que vêm ao mundo 13 semanas antes do esperado têm riscos aumentados de distúrbios cerebrais, autismo, hiperatividade e deficit de atenção, além de dificuldades de aprendizado. Isso porque estão expostos a numerosos fatores estressantes durante um período crítico para o desenvolvimento do cérebro. No estudo sueco, os cientistas examinaram mais de 100 bebês que nasceram antes da 27ª semana, o começo do terceiro trimestre da gestação. Com a permissão dos pais, eles avaliaram o crescimento do cérebro das crianças usando ressonância magnética funcional durante o período neonatal. Fizeram, então, testes para buscar sinais de autismo nos pequenos, aos 6 anos de idade.

“Quase 30% deles desenvolveram sintomas de autismo, o que nos surpreendeu muito. É um percentual bastante expressivo”, observa Ulrika Adén, pesquisadora do Departamento de Saúde Infantil do Instituto Karolinska. “Entre as crianças que nascem após todo o período esperado de gestação, esse percentual varia de 1% a 2%”, diz. De acordo com ela, dentro do grupo dos que nasceram extremamente prematuros, aqueles que apresentaram os sinais do TEA foram os que estiveram mais expostos a complicações logo após nascerem, como cirurgias. “Ainda no período neonatal, bem antes de as crianças manifestarem os sinais do autismo, pudemos observar diferenças entre os prematuros que mais tarde desenvolveriam o transtorno e os demais, com diminuição de crescimento nas partes do cérebro envolvidas com contato social, empatia e aquisição da linguagem, funções que ficam comprometidas em crianças com autismo”, revela a cientista.

“Embora é provável que existam genes associados, nosso estudo mostra que fatores ambientais também causam o autismo. O cérebro cresce melhor dentro do útero e, se o ambiente de desenvolvimento muda muito cedo, isso pode interromper a organização das redes cerebrais”, diz Adén. Segundo a cientista, o resultado do trabalho abre caminho para tratamento precoce. “Com novos regimes terapêuticos que estimulem o desenvolvimento desses bebês e evitem o estresse, talvez possamos reduzir o risco de eles terem o transtorno”.

Avanços no diagnóstico

A prevalência maior do autismo não foi associada, até agora, a nenhum fator específico. Para alguns especialistas, o entendimento maior dos sintomas e dos sinais do transtorno levou a um diagnóstico mais apurado. “Dez anos atrás, uma criança que hoje é diagnosticada com TEA poderia ser tachada de retardada mental”, afirma Paul Shattuck, professor da Universidade de Washington em St. Louis e pesquisador do tema, para quem a questão é, principalmente, semântica.


Melhora na interação
Cientistas do Centro Thompson para Autismo e Distúrbios do Neurodesenvolvimento, nos Estados Unidos, descobriram que um medicamento usado para tratar pressão alta e batimentos cardíacos irregulares tem potencial de melhorar algumas funções sociais em indivíduos com autismo. "Em 1987, uma pesquisa havia constatado que o propranolol (nome da substância) melhorou as habilidades linguísticas e sociais de indivíduos com o transtorno, mas não foi um teste randomizado e controlado", diz David Beversdorf, professor do Departamento de Radiologia, Neurologia e Ciências Psicológicas da instituição. "Agora, esse é o primeiro trabalho a mostrar que uma única dose do medicamento pode melhorar a reciprocidade durante uma conversa", completa principal autor do estudo.

A pesquisa foi feita com 20 pessoas, recrutadas no Centro Thompson, que receberam uma dose do propranolol ou uma pílula de placebo. Uma hora depois da administração, os pesquisadores mantiveram uma conversação estruturada com os participantes, avaliando, com notas, a performance em seis habilidades sociais necessárias para manter um diálogo: foco no tópico, compartilhamento de informação, reciprocidade, transições ou interrupções, comunicação não verbal e contato visual. Entre as pessoas que tomaram o propranol, a pontuação total foi significativamente maior, comparadas com as do grupo do placebo.

"Embora mais pesquisas sejam necessárias para estudar os efeitos do propranolol, os resultados preliminares indicam um benefício potencial do medicamento para melhorar habilidades conversacionais e não verbais em indivíduos com autismo", diz Beversdorf. "Agora, esperamos estudar a droga em um grande estudo clínico para estabelecer os efeitos das dosagens regulares e determinar quem estaria mais propenso a se beneficiar do medicamento. Estudos adicionais poderiam pavimentar o caminho de tratamentos mais eficazes para pessoas com o distúrbio."

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA