Conheça as armadilhas do "beber socialmente" e histórias de quem parou de ingerir bebida alcoólica

À primeira vista radical, a decisão é perfeitamente sensata para muitas pessoas. Elas identificaram a predisposição ao vício e os perigos envolvidos - reais ou potenciais. Veja relatos da dura experiência de quem ultrapassou o limite

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Segundo a OMS, a média mundial de consumo de álcool entre indivíduos acima de 15 anos foi de 6,2 litros de álcool puro (dados aferidos em 2010) em 2014. A média brasileira é de 8,7 litros por pessoa (foto: CB / D.A Press)
“Uma cerveja antes do almoço é muito bom para ficar pensando melhor”, cantava Chico Science em um de seus sucessos, A praieira. O uísque, na definição do poeta Vinicius de Moraes, seria um “cachorro engarrafado”, uma bebida amiga. A frase “preciso de um drinque” está em uma infinidade de filmes, novelas e seriados. Aliás, na tevê, a qualquer hora do dia, somos bombardeados com a publicidade de etílicos, sempre associados a festa e descontração. O consumo de álcool é mais do que legalizado: de alguma forma, beber faz parte da sociedade. Em mais de 50 países, por exemplo, a primeira sexta-feira de agosto é o Dia Internacional da Cerveja. O problema acontece quando a medida do copo transborda. A linha entre ser um “bebedor social” e um alcoolista é sutil. E o álcool, traiçoeiro.  

A sociedade bebe — e muito. De acordo com o Relatório Global sobre Álcool e Saúde, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2014, a média mundial de consumo de álcool entre indivíduos acima de 15 anos foi de 6,2 litros de álcool puro (dados aferidos em 2010). A média brasileira é de 8,7 litros por pessoa. Os homens bebem mais: cerca de 13,6 litros/ano, contra 4,2 litros consumidos por mulheres. Não parece muito, mas vale lembrar que estamos falando da substância pura, 100% presente. Para se ter uma ideia, uma garrafa de cerveja tipo pilsen costuma ter 4,5% de teor alcoólico.

O álcool é polêmico e, não raramente, contraditório. Ao mesmo tempo em que é sabido que a substância causa doenças, algumas pesquisas apontam que pequenas quantidades de vinho, por exemplo, podem diminuir a incidência de problemas coronarianos. “Mas sabemos que existem várias outras doenças cardíacas, como arritmias, que podem ser geradas mesmo com baixo consumo”, pondera Patrícia Rueda, cardiologista do Hospital do Coração. A diminuição do diâmetro dos vasos sanguíneos causada pelo álcool não deixa o sangue circular direito, favorecendo episódios de acidente vascular cerebral (AVC). Se o coração já está doente, o álcool acelera o processo de degeneração.

A causa para tanta confusão nas pesquisas, segundo a médica, são os fatores externos. Hábitos alimentares, tabagismo e sedentarismo podem confundir os resultados das pesquisas. Mesmo assim, Patrícia Rueda frisa que a maioria dos estudos indica que até uma dose por dia pode ter efeito protetor no organismo, especialmente em doenças causadoras do infarto do miocárdio. “Em altas doses, perdemos esse efeito benéfico e temos o aumento do infarto.”  

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Os efeitos do álcool no corpo e na mente ainda estão sendo desvendados pela ciência (foto: CB / D.A Press)
Os efeitos do álcool no corpo e na mente ainda estão sendo desvendados pela ciência. Todos os dias, inúmeros estudos científicos com o tema são divulgados — e novos começam a ser feitos. De acordo com Bianca Della Guardia, gastroenterologista do Hospital Albert Einstein, uma intoxicação aguda de álcool pode levar à perda da consciência, dor de cabeça, enjoos, olheiras e mal-estar. “Em uma fase avançada, na qual o consumo passa a ser crônico, vários órgãos podem ser afetados, como fígado, pâncreas e coração”, enumera.

Beber demais faz com que as secreções gástricas e intestinais sejam excessivamente estimuladas, o que pode causar esofagite, gastrite, diarreia e desnutrição. O que acontece, segundo a médica, é que o álcool é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal. No caminho, irrita as mucosas do esôfago, estômago e intestino. “Além de atingir o sintoma gastrointestinal, o álcool pode levar à “cirrotização” do fígado, com formação de ascite (a famosa barriga d’água), sangramentos digestivos e até câncer”, completa. “Nesses casos, cresce o risco de hipoxia (falta de oxigênio) no fígado, o que pode levar à necrose das células hepáticas, com evolução para acúmulo de gordura, hepatite, cirrose e câncer no fígado”, diz a médica.

"Muitas vezes, as pessoas causam desconforto em casa para ter desculpa para ir beber. É preciso entender os gatilhos”

Mônica Melo, psiquiatra

Novas pesquisas
  • Um estudo feito pela Escola de Medicina da Universidade de Missouri (EUA) revelou que o uso crônico de álcool, quando combinado com o chamado binge drinking (episódios em que se bebe grandes quantidades de uma só vez), faz com que o fígado acumule gordura — o que, em pouco tempo, leva o órgão ao colapso. O estudo, feito com ratos, mostrou que as cobaias expostas ao álcool tinham, aproximadamente, 13 vezes mais gordura no fígado que as demais;
  • O mau funcionamento de uma enzima pode estar relacionado ao alcoolismo. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Stanford, a enzima ALDH1a1, quando bloqueada em ratos, elevava substancialmente o consumo e a preferência por álcool. As razões, contudo, ainda não estão claras;
  • Pesquisadores da Universidade da Califórnia descobriram que o álcool permite que bactérias do intestino migrem para o fígado, o que pode ser o motivo da doença hepática induzida por álcool. Feito com camundongos, o estudo foi publicado este mês na revista especializada Cell Host & Microbe.
  • De acordo com o Centro de Pesquisa Biomédica em Rede-Fisiopatología da Obesidade e a Nutrição (Ciberobn), na Espanha, o álcool do vinho tinto, em quantidades moderadas, pode fazer bem ao coração. Publicado ano passado, o trabalho diz que o etanol e os polifenóis da bebida têm efeitos positivos nas moléculas inflamatórias que causam aterosclerose. A combinação também é benéfica para pacientes com alto risco cardiovascular.


O álcool no mundo

  • As bebidas destiladas são as mais consumidas no mundo (50%). A cerveja está em segundo lugar, sendo preferida por 35% dos bebedores. O vinho estão em terceiro, com 8% da preferência;
  • A cerveja é a bebida preferida nas Américas: 55% dos que bebem preferem a “breja”, seguida dos destilados (32,6%) e do vinho (11,7%);
  • A população abstêmia mundial também é grande: 48% nunca beberam. No Brasil, esta média é de 42%;
  • 30,8% das brasileiras nunca ingeriram álcool. Entre os homens, esse número cai para 12,4%;
  • Quase 6% das mortes em todo o mundo são atribuídas total ou parcialmente ao álcool. A embriaguez está relacionada a 3,3 milhões de mortes a cada ano;
  • Bebidas caseiras ou adulteradas são quase um quarto do álcool puro consumido no mundo. Não raro, o líquido é contaminado com substâncias tóxicas, como metanol e desinfetantes.


Fonte: Relatório Global sobre Álcool e Saúde — Organização Mundial da Saúde (OMS)


Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Kátia Osório percebeu que poderia cruzar a linha que separa o prazer social do vício. Por isso, decidiu parar (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)


Antes que seja tarde
O álcool faz parte de quase todos os eventos sociais. Festas, despedidas, comemorações, dores de um coração partido — a bebida é a companheira de todas as horas. Por isso, parar de beber exige mais que força de vontade: é preciso mudar o estilo de vida. Durante a adolescência, Kátia Osório, 42 anos, era uma jovem como tantas outras: gostava de se divertir e tomou alguns porres em festinhas com amigos. Há cerca de cinco anos, contudo, a designer começou a perceber que as ressacas ficavam cada vez mais intensas e os efeitos do álcool em seu corpo eram qualquer coisa, menos agradáveis. “Teve um tempo em que eu não estava muito bem e percebi que a bebida me deixava pior, mais sensibilizada”, detalha. “No dia seguinte, eu sempre ficava de ressaca, cansada, com menos energia. Até que percebi que vivia melhor sem álcool.”

Até hoje, Kátia diz que o fato de ser praticamente abstêmia causa estranhamento em quem não a conhece. “Por que você não bebe?”, “Como você consegue viver sem beber?” e outros questionamentos semelhantes já viraram parte da rotina da designer. “Quem não me conhece sempre fica curioso. Na nossa sociedade, é uma coisa que as pessoas estranham”, completa. O inquérito não a incomoda, garante.

Kátia não precisou se afastar dos antigos amigos, mas a rotina mudou. A vida sem álcool transformou-se em uma existência diurna: se antes os programas incluíam bares e festas, hoje Kátia prefere acordar cedo para ir a uma cachoeira, correr ou passear com suas duas cadelas pelas praças da cidade. Todo o estilo de vida foi reformulado para incluir alimentação saudável, exercícios físicos mais frequentes e hábitos mais sadios. “Conheci várias pessoas que também não bebem e elas têm uma vida normal, são felizes, saem com os amigos”, descreve.

Em ocasiões muito especiais, Kátia toma alguns goles de espumante, mas tem certeza de que o álcool não faz mais parte de sua vida. Depois que abriu mão dele, a energia voltou com força total, assim como a disposição para curtir a vida. “É algo muito raro e tem que valer muito a pena. É todo um estilo de vida que dá suporte para que a escolha de não beber não seja um esforço. No fim das contas, me sinto bem melhor.”

O mecanismo da dependência
Abandonar a bebida é uma tarefa árdua, mas possível. Mônica Melo, psiquiatra experiente no trato de pacientes alcoolistas, explica que a substância atua em centros específicos do cérebro, relacionados ao sistema de recompensa. Por isso, causa sensações como alívio da ansiedade, bem-estar e euforia. O problema é que o cérebro passa a esperar outra dose. “A longo prazo, o consumo causa danos neurológicos gravíssimos. A pessoa não consegue parar. É um novo equilíbrio para o organismo”, explica. É aí que começa o alcoolismo.

A compulsão cria tolerância, que gera a necessidade de mais bebida para se ter as mesmas sensações. Nesse ponto, o ciclo vicioso já está instalado. No primeiro momento, a pessoa bebe para ter prazer. Depois, para não sofrer com a abstinência. “A pessoa tem que querer parar de beber. Entender que é um problema”, frisa a psiquiatra. “Para quem está com dificuldades, a recomendação é não sair com dinheiro e não sair sozinho, e ter alguém para dar suporte psicológico”, ensina Mônica Melo.

Não “flertar com o inimigo” é importantíssimo. Evitar lugares que remetam à bebida, bem como amigos ou situações, é altamente recomendável. “Muitas vezes, as pessoas causam desconforto em casa para ter desculpa para ir beber. É preciso entender os gatilhos.” Quando o álcool começa a atrapalhar a vida social e/ou profissional, quando a família já não aguenta mais dar conselhos ou se o primeiro pensamento do dia é beber, é sinal de que é preciso ter cuidado. “O álcool passa a ser mais importante que comida, família e trabalho”, resume Mônica. A vigília, segundo a médica, precisa ser constante.

Para quem não consegue mesmo largar a bebida por conta própria e já vai caminhando na estrada do alcoolismo, os Alcoólicos Anônimos (AA) são de grande ajuda. A irmandade começou em 1935, nos Estados Unidos, com dois alcoólicos que buscavam apoio. Descobriram que se fortaleciam ao trocar experiências. Hoje, estão em mais de 180 países.

No AA, o alcoólico descobre que o segredo para a sobriedade está dentro dele mesmo.

Não há médicos ou psicólogos dentro do grupo, tampouco financiamentos do governo.

Não recrutam alcoólatras. Não estão ligados a nenhuma causa religiosa. Nada também de obrigações e regras. É preciso decidir parar de beber, e só. São 12 passos, 12 tradições, e se ganha um padrinho para ajudar no processo.

A cada três meses, recebe-se uma ficha (semelhante a uma moeda) que comemora a sobriedade. Daí em diante, as fichas se tornam anuais.

No fio da navalha, sempre
O servidor público Benjamin (nome fictício), 33 anos, está sóbrio há dois anos e três meses. Hoje, compartilha com os Alcoólicos Anônimos a sua experiência. Trocou a euforia e a felicidade proporcionadas por um copo cheio pela alegria de ver um alcoólatra em recuperação. Reconquistou a namorada — que hoje é noiva —, o respeito da família, o foco nos estudos, a atenção no trabalho. Em contrapartida, aceitou que nunca mais poderá dar um gole em uma bebida alcoólica. A doença não tem cura. É um compromisso firmado a cada dia. A cada 24 horas.

Jovem para os padrões de um alcoólatra, Benjamin começou a beber cedo. Aos 14 anos, deu os primeiros goles. E já percebeu que bebia mais que os amigos. “O alcoolismo não começa de uma vez, não se manifesta de uma hora pra outra. Temos um ditado: nenhum alcoólatra começou bebendo uma garrafa. Eu bebia em festas, churrascos. Eu me considerava um bebedor social”, lembra. Aos poucos, o álcool deixou de ser um detalhe. O servidor só ia para um casamento se fossem servidas bebidas alcoólicas; participava de batizados não pela cerimônia religiosa, mas pela festa subsequente. Faltou à própria festa de aniversário por considerar que o lugar onde estava tinha mais fartura de bebida.

“O álcool passou a ser o meu senhor. Era mais importante do que as pessoas. Monopolizava toda a minha energia, todos os meus pensamentos. Eu me atrapalhava nos estudos, no trabalho e, principalmente, nos meus relacionamentos”, conta. Aos 25 anos, percebeu que tinha um problema com a bebida, mas, como dizem os companheiros do AA, o alcoolismo é uma doença de negação. Prometeu muitas vezes parar. Em vão.

Benjamin trocou de emprego e passou a ganhar mais, mas se considerava deprimido e achou que mudar de ares e de casa seria a solução. “Passei a beber mais, porque, na verdade, a doença está em mim. Não adianta terceirizar a responsabilidade”, afirma. Terminou com a namorada porque o álcool era mais importante que o relacionamento. Dez dias depois de uma cirurgia, ainda sob medicação, estava no bar. Tornou-se mais violento por conta da bebida. Chegou a esfaquear uma pessoa.

Coincidentemente, ao lado do bar frequentado habitualmente pelo servidor, havia uma drogaria. O dono da farmácia era um alcoólatra em recuperação. Os dois se tornaram muito amigos trocando ideias sobre literatura. O senhor abriu o anonimato ao perceber que Benjamin estava cada vez mais enredado no alcoolismo. Emprestou livros sobre o assunto, os ouvidos para os lamentos e as mãos para oferecer ajuda.

O servidor público leu tudo, mas resolveu que era apenas um bebedor forte. Percebeu os problemas e adotou, da porta para fora, uma postura mais responsável, um comportamento mais aceitável. Resolveu algumas questões, começou a pagar as dívidas, recuperou parte do respeito da família. Mas, dentro de casa, bebia até mais do que antes. Sem cerveja, agora exagerava no uísque e na vodca.

Foi aí que procurou os Alcoólicos Anônimos. “Tive a grata surpresa de encontrar um grupo no qual me senti abraçado, me senti em família. Ninguém me julgou, ninguém me chamou de cachaceiro, irresponsável, pudim de pinga. Eles me explicaram o que era a doença do alcoolismo, e eu aprendo mais a cada dia”, conta. Diferentemente do que fazia quando prometia parar de beber, Benjamin aprendeu no AA a levar um dia de cada vez. Sem pressão. Evita o primeiro gole quantas vezes for necessário.

Nos três primeiros meses, não foi fácil. Morando sozinho e se sentindo solitário, o servidor procurava companhia no bar. Foi algumas vezes, mas não bebeu. Sonhou algumas vezes que bebia muito, acordava mortificado. Outras vezes, que tinha “aprendido a beber”. Encontrou no processo do AA e no depoimento dos companheiros uma maneira mais suave de lidar com o problema. Aprendeu que é possível, sim, viver uma vida plena sem essa muleta. “Eu vou a festas. Descobri que tem muita gente que não bebe. E que as pessoas conseguem beber duas latas de cerveja e parar. Eu não tinha isso. Passei a colocar meu foco nas conversas, em ser uma pessoa mais agradável. Mudei o foco, algumas coisas não me atraem mais”, explica.

Uma lição aprendida é que o alcoolismo mata. “E mata de uma maneira muito triste, que é humilhando. Ele tira a única coisa que nasce com a gente, que é a dignidade. Tira sua família, seu trabalho, sua inteligência, sua sanidade mental. A bebida pra mim representa o fio da navalha.”

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Geraldo Taffner associava o ato de beber ao de fumar, o que dificulta ainda mais a adoção de hábitos saudáveis (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)


Combinação nociva
A imensa lista de prejuízos (tanto de saúde quanto sociais) foi motivo suficiente para convencer Geraldo Majella Taffner, 50 anos, a abandonar o álcool e o cigarro. Por muito tempo, os 40 cigarros diários eram os seus melhores amigos. No ápice do tabagismo, ele gerenciava um supermercado da família. No fim do expediente, o fumo vinha acompanhado de uma cervejinha. Geraldo fez várias tentativas de parar de fumar, todas frustradas. Após uma noitada, o advogado amargou uma ressaca memorável. Decidiu que não queria mais viver daquela forma. “Sempre idolatrei o cigarro, amava fumar. Mas toda vez que eu tentava parar, não conseguia porque a bebida me dava vontade”, detalha. A solução foi uma só: cortar os dois vícios ao mesmo tempo.

Antes de tomar a decisão de parar de beber e de fumar, há 20 anos, além dos tragos ocasionais no fim do expediente, Geraldo passou a beber bastante aos sábados. Aos poucos, o hábito dominou as sextas-feiras. Os domingos logo entraram na conta. “Quando começou a me dar vontade de beber às quintas, pensei: ‘Daqui a pouco, estarei bebendo todos os dias’”, relembra. Religioso, apegou-se a Nossa Senhora Aparecida e pediu ajuda para abandonar os vícios. “Toda vez que eu voltava a fumar, ficava deprimido. Pensei que, ou eu cortava os dois, ou morreria bebendo e fumando.”

Geraldo passou a frequentar a igreja todos os dias, além de fazer uso de medicamentos para controlar a compulsão por nicotina. Quatro anos depois, a rede de supermercados foi à falência. À época, ele estava com 30 anos, mas não havia concluído os estudos. Apenas com o ensino fundamental, Geraldo teve que retomar a vida de onde parou. “Perdi muito tempo bebendo e fumando. Parei de estudar. Sempre fui comerciante, então nunca dei muita atenção aos estudos.”

A vida nova começou com trabalho intenso, mas recompensador. Geraldo terminou os estudos, fez faculdade e abriu um serviço de consultoria. “Sentia falta (do cigarro e da bebida), mas não me deixei abater. Perdi meu patrimônio, mas não perdi a autoestima.” Para conseguir se concentrar e não cair em tentação, afastou-se dos amigos por cinco meses. “Quando me senti mais forte, voltei a ir a festas. Mas, quando você para de beber, vê que muitas amizades são feitas de bebida e não de ideias em comum.” Assim, os programas noturnos foram substituídos por atividades durante o dia.

Com o estilo de vida renovado, vieram novos amigos. Atualmente, Geraldo se considera “radical”: não bebe nem em ocasiões especiais e criou aversão ao cigarro. “Terminei com minha última namorada porque ela bebia cerveja. Meu terceiro noivado terminou porque ela bebia vinho. Você fica meio restrito, mas, ao mesmo tempo, seletivo.” Ainda assim, Geraldo garante que tem uma vida social movimentada — ele só não usa mais a bebida como um critério para suas escolhas. “Eu não nasci fumando e bebendo, por que teria que morrer assim?”, reflete.



“Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos, e sabedoria para distinguir umas das outras.” É com a oração da serenidade que começa cada reunião dos Alcoólicos Anônimos. São 94 grupos espalhados por Brasília e Entorno e, na noite de sexta-feira, fomos acompanhar a reunião em uma das sedes. A primeira coisa que reparamos foi em uma enorme placa com os dizeres “Evite o 1º gole” em letras garrafais, em cima de um armário. As paredes azuis evitam que o local se pareça muito com um hospital. É tudo muito simples, mas bem cuidado. São os próprios alcoólicos que bancam as despesas.

Uma dupla de membros é escolhida a cada reunião para coordenar a sessão e ler algumas reflexões e regras do grupo. Em seguida, começam os depoimentos. Cada membro tem dez minutos para falar, controlados por uma caixinha que simpaticamente vai alertando que o tempo está acabando. A fala começa com uma confissão. É preciso se reconhecer um alcoólatra em recuperação.  

Preparadas para ouvir discursos fortes de quem combate um problema todos os dias, encontramos exatamente isso. O que surpreendeu é que vieram de pessoas felizes. Felizes por terem conseguido parar, por viverem hoje uma vida mais consciente. Vivem inteiramente, lembrando de cada minuto, sem a entorpecimento do álcool. Mostram que, de fato, a vida não acaba quando longe de um copo. Não estão perdendo nada. A maioria lembra com carinho dos dias da “ativa”, mas reconhece que era um caminho camicase. Um dos membros recebeu a ficha dos seis meses de sobriedade e vimos nos olhos dele a tranquilidade de quem vive melhor.  

Há quem ainda sofra com a batalha contra a compulsão, claro. Descobrimos que cada um tem seu limite, não é preciso estar morando nas ruas. O fundo do poço pode ser dentro de uma casa elegante. O fundo do poço fica dentro de cada alcoólatra. E, no palanque dos discursos, aprendemos que não adianta mentir. Mentir ali é mentir para você mesmo, e você é a única pessoa que precisa da verdade. É quase uma terapia e, por isso, vimos muitas lágrimas derramadas. É preciso, em primeiro lugar, se perdoar. E é difícil.

A reunião do AA é muito emocionante e um aprendizado importante de empatia para quem não é alcoólatra. Jamais saberemos como é viver com a doença, mas saímos de lá conscientes da dificuldade que é parar. Um dos alcoólicos nos disse que, ao contrário de um câncer, no qual os familiares acolhem o enfermo, o alcoolismo não é visto como doença. É visto como um problema autoinfligido, e a reação da sociedade é excluir a pessoa. Para manter o alcoólico voltando, a frase proferida várias vezes é forte: “O segredo está na próxima reunião”.

Punição social
Mulheres alcoolistas são duplamente estigmatizadas. A reprimenda da sociedade (a mesma que incentiva o abuso de bebida!) costuma ser implacável. Frequentemente, são tachadas de vagabundas, preguiçosas, prostitutas. Se têm filhos, sofrem ainda mais. Laura (nome fictício), 42 anos, experimentou na pele a dor de ser mulher, mãe e alcoólatra. Começou a beber aos 13 anos.

Ponche, batidas, bebidas doces nas festas de família. Aos 15, já era dependente. “Vim de uma família nordestina muito tradicional, era uma menina muito retraída, muito tímida. Percebi que o álcool me dava uma alegria muito boa, me deixava mais leve, mais comunicativa. Fui tomando gosto”, lembra. Nessa época, chamava a bebida de “elixir da vida”. Alcoolizada, dançava mais, sorria mais, brincava mais, tinha coragem de falar o que queria. Sentia-se livre.

Tão livre que se achou inteligente demais para terminar os estudos. Livre para faltar ao trabalho quando bem entendia. Livre e, por isso, os relacionamentos não davam certo. O convívio familiar foi diminuindo. Foram 15 anos bebendo os problemas e deixando no fundo do copo tudo o que havia construído. Perdeu a própria identidade, a direção, o amor próprio, o direito de ir e vir, o amor da família, a confiança da mãe, a dignidade.

Laura deixava os filhos na casa dos vizinhos e sumia. Chegou a passar três dias longe. Bebia a qualquer momento. Enquanto lavava roupa ou limpava a casa. Bebeu na escola durante a adolescência. Na pior época, se humilhava no bar para conseguir um copo cheio. Aos 31 anos, chegou ao fundo do poço.

Na primeira reunião do AA, chegou levada pelo padrasto, bêbada. Lá não ouviu ordens, ouviu sugestões. Quem precisa decidir que é hora de mudar é o alcoólico. Ele precisa fazer suas decisões. “Os três primeiros meses foram um desafio pra mim. Sonhava que estava bebendo, tinha crises de abstinência. Vi os danos que eu tinha causado, a destruição emocional, a mágoa. Tive que reconquistar a confiança da minha família”, conta. Hoje, comemora 11 anos e cinco meses sem beber.

Laura conta que a sociedade que a marginalizava a vê agora como a mão que ajuda. Os conhecidos a procuram quando precisam de auxílio para largar o copo. É chamada pelo nome, é respeitada. Mesmo assim, a vida não se tornou mais simples, a vontade não desapareceu. Ela frequenta reuniões do AA diariamente. Usa um serviço de telefone como apoio. Fincou raízes e a confiança na igreja. Pediu perdão e se perdoou. “Não convivo mais com o remorso, com a vergonha. Descobri que não sou aquela pessoa que diziam que eu era, uma sem-vergonha, uma mau-caráter. Eu estava doente e não sabia. Parar de beber me trouxe alívio.”

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