Casa desorganizada pode indicar depressão e ansiedade

O ambiente bagunçado também provoca doenças físicas. Diabetes, obesidade e males respiratórios estão entre elas

por Isabela de Oliveira 25/02/2016 15:00

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Uma vez que o homem é criador e criatura do ambiente em que vive, residências refletem o estado emocional, físico e mental de quem as habita. Ainda que observar as características domésticas possa ser um passatempo divertido, episódios crônicos de pilhas de louça suja e roupas espalhadas podem reverberar sofrimento mental e físico. A desordem que atrapalha afazeres mais simples do dia, como pagar contas antes do vencimento ou encontrar as chaves de casa, é um alerta, segundo especialistas, para um ciclo vicioso relacionado a transtornos mentais como depressão e ansiedade, além de problemas respiratórios, doenças cardiovasculares e obesidade.

Resultados de um estudo publicado recententemente na Environment and Behavior por pesquisadores da Universidade de New South Wales, na Austrália, mostram que ambientes desordenados provocam estresse e favorecem escapadas indulgentes da dieta. A equipe de Lenny Vartanian descobriu que, em uma cozinha bagunçada, mulheres comem duas vezes mais biscoitos do que participantes do mesmo sexo em um ambiente organizado.

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Em outra etapa da pesquisa, metade das 98 participantes foi instruída a relatar épocas de descontrole na vida, enquanto as restantes falaram sobre fases de controle. Os dois grupos foram orientados a entrar no cômodo bagunçado. O resultado foi inesperado: mulheres que relembram momentos de controle comeram cerca de 100 calorias menos do que as que recordaram os episódios inversos. Segundo Vartanian, o estudo tem conclusões relevantes para profissionais de saúde e quem deseja perder peso.  “Os resultados mostram que ambientes mais organizados levam as pessoas a comerem menos e que, mesmo que o indivíduo esteja em um local caótico, recordar momentos de autocontrole poderá ajudá-lo a resistir melhor à pressão”, conclui o autor.

Esse é apenas um dos prejuízos de um ambiente desordenado no organismo. Um exemplo da necessidade fisiológica de um lar em ordem vem do sistema digestivo, que, funcionando perfeitamente, processa e separa meticulosamente os nutrientes. “Como médico integrativo, percebo que pacientes que descrevem a vida como bagunçada, desorganizada ou ineficiente muitas vezes apresentam sintomas de inchaço, congestão, inflamação e má digestão. Se deixados sem tratamento, esses sintomas podem progredir para condições mais graves para a saúde”, diz Isaac Eliaz, pesquisador e médico na Clínica Amitabha, na Califórnia (EUA).

Cérebro confuso

Segundo Eliaz, ambientes desorganizados geram estresse por conterem uma grande quantidade de informações que confundem o cérebro. Além disso, atuam como um lembrete visual constante de que o trabalho está inacabado. O estresse perene, ainda que sutil, potencializa a hipertensão, aumenta a taxa de mau colesterol, favorece o tabagismo, o diabetes e o sedentarismo, fatores de risco para doenças cardíacas. “O estresse é uma mola mestra que interfere em todos esses fatores. Em episódios agudos, os picos hormonais de adrenalina, noradrenalina e corticoides, especialmente cortisol, se normalizam quando a situação passa. Mas, no estresse constante, esses níveis hormonais são mantidos e aumentam os riscos (à saúde)”, diz Lázaro Fernandes de Miranda, coordenador da Cardiologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.

Além da obesidade, dos problemas digestivos e das doenças cardiovasculares, o estresse está envolvido nos distúrbios do sono, em doenças autoimunes e cânceres. “Evitar as fontes de tensão prolonga a expectativa de vida. Deixa-se de sofrer com o impacto da conjunção de todos os fatores de risco para doenças”, aconselha Miranda. Eliaz completa que a desordem e a sujeira incentivam a proliferação de fungos, bactérias e toxinas no ambiente doméstico. “Esses patógenos podem causar inflamação, doenças respiratórias e acúmulo de toxinas, proporcionando doenças crônicas no futuro”, alerta.

Efeito na longevidade
A longo prazo, os cuidados com a casa impactam na longevidade de um indivíduo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2012, 38 milhões de pessoas morreram prematuramente (antes dos 70 anos) em decorrência de doenças crônicas, como diabetes, cardiopatias e acidentes cerebrovasculares. Estudos científicos têm mostrado que o estresse crônico pode provocar o envelhecimento precoce e as complicações geradas por ele. Em junho, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA), divulgaram que mulheres submetidas a essa condição têm, no corpo, níveis “significativamente” mais baixos do hormônio Klotho, que regula o envelhecimento e melhora o funcionamento do cérebro.

Risco quando vira hábito
Casos crônicos de desorganização em casa refletem estados de desorganização mental e podem sinalizar, ou até mesmo causar, a depressão, alerta a especialista em terapia familiar sistêmica Lisa Clerot. “Podemos encontrar nessas pessoas outros tipos de desordens emocionais, como ansiedade, estresse, baixa autoestima e fuga da realidade”, acrescenta a psicóloga. Segundo ela, o verdadeiro problema só surge quando a desordem deixa de incomodar. “Em momentos isolados, é normal considerarmos estar em um lugar bagunçado. Mas, quando a situação é incorporada à rotina e não mais é percebida, se torna patológica. O problema está sempre no excesso e na habitualidade”, explica Clerot.

Aurélio Melo, professor no Departamento de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, considera a falta ânimo um elo entre depressão e bagunça. “Nem todos desorganizados são deprimidos e nem todos deprimidos são desorganizados, mas é uma situação que pode ser provocada pela doença, pois o paciente abandona a si mesmo, o seu espaço e prefere ambientes escuros, visto que a escuridão reflete a dinâmica psíquica”, diz.

O psicólogo cita os acumuladores como evidência da relação entre transtornos mentais e ambientes desordenado. O distúrbio consiste na dificuldade dolorosa de se desfazer de objetos, independentemente do valor real deles. O comportamento tem efeitos deletérios emocionais, físicos, sociais, financeiros e até mesmo legais para o paciente e familiares. “São indivíduos que perdem a objetividade ao se desligarem do exterior para se ocupar com suas fantasias e obsessões. Nesse sentido, a opinião de pessoas próximas é importante: ignorar completamente o que pensam de você é sinal de rompimento com a vida social”, analisa Melo.

Silvio Yasui, psicólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), reforça que não é a desorganização em si, mas alterações comportamentais profundas relacionadas a ela que sinalizam uma patologia. “Explico: alguém desorganizado cotidianamente fica mais desorganizado a ponto de não mais conseguir encontrar a sua organização e se angustia por isso. Isso é uma mudança que pode apontar para algum sofrimento psíquico cuja expressão é a intensificação da bagunça”, diferencia. O mesmo vale, segundo o especialista, para indivíduos obsessivos com a ordem.

“Nomear este ou aquele aspecto da vida de uma pessoa com o estigma de uma doença mental é uma operação complicada e com sérias consequências. Hoje, temos uma certa epidemia de diagnósticos psiquiátricos que mais atrapalham do que ajudam”, opina. Para ele, é possível ser feliz sendo metódico e mais relaxado. “Boa parte dos gênios era bastante desorganizada e, talvez, seja mais comum os muito organizados sofrerem com esse mundo caótico em que vivemos. No fundo, é importante as pessoas serem felizes como são”, defende.

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