'Não imaginava passar isso por causa de um mosquito': a luta de pacientes com Guillain-Barré

A Síndrome é desencadeada pela resposta do organismo a uma infecção. Os anticorpos confundem o micróbio com as células do sistema nervoso e as atacam

por Agência Estado 23/02/2016 11:02

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Arquivo/Wikipedia
Aedes Aegypti transmite dengue, zika e chikungunya (foto: Arquivo/Wikipedia)
No início, era dormência nos dedos das mãos. Em dois dias, o microempresário Cícero Gomes da Silva Neto, de 47 anos, tinha perdido quase todos os movimentos. Ainda dirigiu 30 km entre Jardim de Piranhas, onde vive, e um hospital de Caicó, na região do Seridó, a 275 km de Natal. Foi a enfermeira plantonista que fez o diagnóstico. "É Guillain-Barré. Já vi um caso desses", disse para a mulher de Silva Neto, Idaliana.

Uma ambulância o levou ao Hospital Estadual Walfredo Gurgel, principal emergência da capital potiguar. O microempresário ainda falava com dificuldade ao chegar. O médico avisou a família que a situação pioraria: os pulmões foram afetados pela doença paralisante.

Há 20 dias, Silva Neto está na UTI do hospital. Consegue mover os ombros - ganho obtido com fisioterapia. Respira por aparelhos. Está completamente lúcido, mas sem nenhum domínio sobre o corpo. Faz movimentos desordenados para responder perguntas: sim, ainda sente muita dor nos tornozelos; não, o equipamento que o auxilia a respirar não causa desconforto. Balança a cabeça em diferentes direções até a fisioterapeuta intensivista perceber que quer as luzes apagadas sobre o leito, pois a paralisia afetou os nervos ópticos. Não fecha os olhos. Nem ao dormir.

A doença apareceu após os sintomas clássicos de zika - marcas vermelhas no corpo, dores de cabeça, febre. "Ele pensou que fosse dengue. A família chegou assustada e eu tive de avisar: vai piorar. Quando vocês voltarem amanhã, ele estará entubado. Vai entender o que vocês falarem, mas não vai responder. É assim: piora antes de passar", contou o coordenador da UTI, Alfredo Jardim.

O drama de Silva Neto se mistura ao das emergências públicas superlotadas. No leito quase em frente, uma mulher se agita e o lençol cai, deixando os seios à mostra. Os dois têm sorte de ocupar vaga de UTI. Todos os dias chegam 20 pedidos por um leito de terapia intensiva. O corredor do Walfredo Gurgel está abarrotado de pacientes em macas e cadeiras, esperando internação. O mau cheiro toma conta de todo o ambiente.

Na quarta-feira, um neurologista não pôde fazer a punção de líquor em uma paciente com suspeita de Guillain-Barré porque a mulher estava em uma cadeira. O exame, que consiste em retirar o líquido que percorre a medula espinhal, só poderia ser feito se ela estivesse deitada. O médico chamou o professor Mário Emílio Dourado, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), para avaliar a paciente. Não a encontraram mais; estava perdida em meio a dezenas de doentes espalhados pelos corredores. Só no dia seguinte Dourado soube que a moça ocupava o leito 251 da enfermaria.

Evolução
A Guillain-Barré é desencadeada pela resposta do organismo a uma infecção. Os anticorpos confundem o micróbio com as células do sistema nervoso e as atacam. Na forma clássica, a pessoa perde a sensibilidade de pernas e braços e tem paralisia facial. A insuficiência respiratória ataca 30% dos doentes. Mas há variantes da síndrome: pacientes com fraquezas só nas pernas; outros andam como se estivessem bêbados (desequilíbrio de marcha), com paralisia no nervo ótico e perda dos reflexos; poucos sofrem de sonolência excessiva. Alguns podem ter formas sobrepostas da síndrome. A maioria dos pacientes recupera as funções; 20% ficam com sequelas.

'Não imaginava passar isso por causa de um mosquito', diz paciente
O aumento do número de pessoas com Guillain-Barré terá impacto nos serviços de reabilitação. Os pacientes costumam precisar de longos tratamentos para se livrar das sequelas. É o caso da auxiliar de serviços gerais Maria das Graças da Silva, de 58 anos, que faz fisioterapia quatro vezes por semana e terapia ocupacional. Ainda anda com dificuldade e não tem todos os movimentos das mãos. Faz dez meses que adoeceu.

Os sintomas de Maria das Graças começaram nas mãos e na fala - rouquidão até perder completamente a voz. Voltou diariamente ao hospital, até perder totalmente os movimentos no quinto dia de sintomas. Só então foi atendida por um neurologista, que diagnosticou a síndrome. Foram 20 dias na UTI, com dores fortíssimas. "Tomei até morfina", conta.

Quando começou a melhorar, teve trombose na perna esquerda. "Nunca poderia imaginar que passaria tudo isso por causa de um mosquito."

Já quem vê o vigilante João Maria da Silva Fonseca, de 35 anos, chegar de motocicleta ao Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, não imagina que esteve completamente paralisado há poucos meses. Fonseca corria numa praça perto de casa, em João Câmara, cidade a 72 km da capital, quando sentiu uma fisgada no tornozelo. No dia seguinte, a dor passou para a panturrilha. No terceiro, andava se escorando nas paredes. Caiu durante o banho e não se levantou mais. Passou 20 dias na UTI. "Um dia, tentei levantar o braço para espreguiçar e ele caiu para trás. O rosto paralisou todo."

Entrou em depressão. Os amigos que iam visitá-lo tinham crises de choro. "Ninguém na minha cidade acreditava que eu voltaria a andar. Hoje eu corro na pracinha e as pessoas vêm falar comigo", relatou.

Silva e a mulher, a manicure Tatiane Chris Pereira Fonseca, de 23 anos, tiveram zika. Depois que o vigilante recebeu alta, descobriram que o foco de Aedes estava na casa vizinha: uma carcaça de geladeira abandonada. "Espero que o que aconteceu comigo sirva de exemplo para as pessoas tomarem cuidado. Agora, eu vivo me batendo quando tem mosquito perto."

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