Ácaro produz enzima que altera pele e provoca dermatite atópica

A descoberta reforça a tese de que a doença tem fortes componentes ambientais

por Paloma Oliveto 23/02/2016 15:00

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(foto: Freepik.com )
Sem que ninguém saiba explicar o motivo, nos últimos anos, triplicou o número de crianças com dermatite atópica, também conhecida como eczema. Doença extremamente incômoda e que pode abrir na pele o caminho para agentes infecciosos adentrarem a corrente sanguínea, ela afeta de 20% a 30% da população mundial. Os sintomas são tratados, mas não há cura, pois falta descobrir o que causa o problema. Embora existam componentes genéticos, o fato de a prevalência ter aumentado reforça a ideia de questões ambientais estão por trás do eczema. Um estudo publicado na edição desta semana da revista Science Translational Medicine confirma a hipótese, mostrando que, além de mutações no DNA, a doença pode ser desencadeada por alérgenos.

Na pesquisa, cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, constataram que o ácaro, animal encontrado na poeira doméstica, produz uma enzima que provoca alterações na pele humana e estimula a fabricação de antígenos do fosfolipídio, um importante componente da derme. Ao perceber a presença da substância, as células T são ativadas para lutar contra ela. Embora o objetivo seja nobre, de expulsar do corpo um antígeno que visa destruir a pele, elas acabam passando pela barreira natural da derme e desencadeando o processo inflamatório que caracteriza o eczema.

Rachael Jarrett, pesquisadora da Unidade de Imunologia Humana da Universidade de Oxford e principal autora do estudo, explica que pacientes de dermatite são mais propensos a carregar mutações que deixam a barreira da pele mais suscetível a infiltrações. Nessas pessoas, há um defeito no gene que produz a filagrina, proteína que forma a camada protetora da epiderme. “A filagrina é responsável por fixar a queratina na pele e tem muitas funções importantes para a proteger a derme, regular o pH cutâneo, garantir a hidratação e impedir a entrada de micróbios”, ensina. “A insuficiência da substância faz com que, diante de um agente externo, componentes do sistema imunológico adentrem a pele e ativem as respostas imunes”, diz. Vermelhidão, coceira, bolhas e outros sinais do eczema são a consequência do trabalho das células T lutando contra estímulos alérgenos.

Segundo Jarrett, porém, estudos mostram que nem todas as pessoas que têm mutações no gene que codifica a filagrina desenvolvem dermatite atópica. “Isso sugere que há outros fatores genéticos e ambientais que atuam sobre essa proteína”, diz. A médica revela que cerca de 80% dos pacientes de eczema apresentam o anticorpo IgE elevado, sendo que esse é um marcador para alérgenos ambientais, como ácaro doméstico e pelo de animais. “Juntos, esses dados confirmam a ideia de que a dermatite atópica é uma doença com complexos fatores de suscetibilidade internos e ambientais.”

Até a poluição
De acordo com a médica, o estudo poderá ajudar a criar tratamentos para os pacientes que desenvolvem o eczema associado ao ácaro doméstico. Para essas pessoas, uma substância que bloqueie a ação do antígeno produzido por esse organismo microscópico tem potencial de evitar a inflamação associada aos sintomas da dermatite atópica.

A infectologista Joanne Dempster, do Hospital Presbiteriano de Nova York, explica que, além do ácaro doméstico, estudos epidemiológicos têm identificado numerosos desencadeadores da dermatite atópica, como tipo de clima, suor, estresse, ambiente em que se vive (rural ou urbano), poluição e ingestão de alimentos. Fatores ambientais não só podem estimular a doença, como proteger contra ela também, diz. “Entre os fatores que parecem proteger, segundo diversos estudos recentes, estão frequentar a creche no primeiro ano de vida, viver na área rural, consumir leite fresco e conviver com cachorros já no início da vida”, enumera Dempster, que não participou da pequisa.

Por outro lado, a médica cita o uso de antibióticos, que alteram a microbiota natural, como mais um fator ambiental. “Infelizmente, por enquanto, as pesquisas mostram que evitar os fatores alérgenos nem sempre tem o resultado esperado”, alerta. De acordo com ela, estudos que investigaram se a diminuição da poeira doméstica conseguiria controlar a intensidade do eczema em pacientes que já têm o problema apresentaram resultados conflitantes.

“Por enquanto, o que temos são tratamentos que atacam os sintomas, permitindo que os pacientes tenham qualidade de vida. Atualmente, há estudos clínicos (com humanos) para o desenvolvimento de novas classes de medicamentos que, embora não ataquem as causas diretas da doença — posto que elas não foram completamente esclarecidas —, prometem um controle muito mais efetivo do eczema”, conta

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