Pesquisa sugere que bebês nascidos de cesariana entrem em contato com fluidos vaginais para reforçar sistema imunológico

Cientistas retiraram fluidos vaginais de mães antes do procedimento cirúrgico e passaram o material no corpo dos bebês assim que eles nasceram

por Roberta Machado 15/02/2016 09:30

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Chen Yi Cheng / AFP
Técnica foi testada em quatro crianças que tiveram a microbiota comparada com a de sete bebês que nasceram por parto natural e com sete que passaram pela cesariana (foto: Chen Yi Cheng / AFP )
O primeiro ensinamento que a mulher transmite ao filho se dá durante o parto, quando o bebê fica exposto aos fluidos vaginais da mãe, incorporando a microbiota presente no corpo dela ao seu organismo ainda imaturo. Esse processo “educa” o sistema imunológico da criança, acostumando a pele, o intestino e outros órgãos com os micro-organismos benéficos à saúde e estimulando a formação de colônias que vão protegê-la até a vida adulta. No entanto, o índice crescente de cesarianas priva um número cada vez maior de recém-nascidos dessa importante bênção materna.

Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos está tentando contornar esse problema por meio de um método que reproduz a transferência microbial do parto natural nos nascimentos via cesariana. O trabalho pioneiro desenvolvido na Universidade de Nova York mostra que a aplicação de uma amostra do fluido vaginal materno sobre a criança depois do nascimento por cesárea pode transferir parte da microbiota protetora da mãe para o bebê.

Os autores do estudo explicam como o método funciona em um artigo publicado nesta semana na revista Nature Medicine. O procedimento tem início uma hora antes do parto, quando uma gaze esterilizada é inserida na vagina da mãe. A intenção é absorver os fluidos vaginais produzidos até a hora do nascimento. Depois que o bebê vem ao mundo, os médicos esfregam o material na pele e na boca dele, simulando a exposição que receberia se tivesse passado pela vagina da mãe. O método é chamado de seeding (semeadura, em inglês).

A técnica foi testada em quatro crianças, que tiveram a microbiota comparada com a de sete bebês que nasceram por parto natural e com sete que passaram pela cesariana. Durante um mês, os pesquisadores realizaram uma série de testes de sequenciamento genético de amostras retiradas da pele, da boca e do ânus dos bebês e viram quais micro-organismos se desenvolveram em cada um dos recém-nascidos.

A equipe analisou mais de 1,5 mil amostras, e técnicas estatísticas foram usadas para classificar mais de 6,5 milhões de fragmentos de DNA. A comparação sistemática do material mostrou que a microbiota dos bebês que passaram pelo procedimento de transferência microbial é mais semelhante à das crianças nascidas por parto natural do que àquelas nascidas pela cesárea tradicional. Entre os micro-organismos que foram passados da microbiota vaginal para o filho, estão os lactobacilos e os bacteroides, espécies que têm um importante papel na preparação do sistema imune e na formação de imunidade contra bactérias.

Os pesquisadores notaram também que os bebês que não foram expostos aos fluidos vaginais apresentavam uma microbiota mais parecida com a da pele das mães, enquanto as outras crianças tinham micro-organismos encontrados na vagina materna. “Isso é algo que já foi relatado antes. A novidade desse estudo é que mostramos que, ao tratar os bebês nascidos por cesárea, podemos modificar essa microbiota dermatológica que eles geralmente têm e fazê-la se parecer com a microbiota do nascimento vaginal”, explica José Clemente, pesquisador do Departamento de Genética e Ciências Genômicas da Escola de Medicina Icahn do Hospital Mont Sinai de Nova York e participante do estudo.

Taxas elevadas
A cesariana é um procedimento necessário em até 15 % dos partos, mas muitos países têm taxas de nascimento por meio do procedimento muito mais altas do que o recomendado. O Brasil, por exemplo, está entre os com maiores índices do mundo, com 56% dos partos realizados por meio da cirurgia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a cultura da cesariana aumenta também as complicações do parto e tem efeitos sobre a taxa de mortalidade de mães e bebês.

Se consideradas as consequências do procedimento cirúrgico sobre o sistema imune das crianças, medir o prejuízo causado pela cesariana se torna uma tarefa impossível: estudos anteriores mostram que a proteção recebida pelo parto natural diminui as chances de o bebê desenvolver problemas como doenças intestinais, asma, alergias, autismo e obesidade. “A microbiota vaginal tem grande valor de adaptação para mamíferos recém-nascidos, e os humanos são os únicos mamíferos que interrompem a exposição à microbiota vaginal materna ao fazer o parto de bebês pela cesariana”, observa a microbióloga Maria Dominguez-Bello, pesquisadora da Escola de Medicina da Universidade de Nova York e principal autora do estudo divulgado nesta semana.

Cristiano Gomes / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Cristiano Gomes / CB / D.A Press)


Poeira perigosa

Em outra pesquisa, o mesmo grupo de pesquisadores demonstrou que a poeira encontrada nas salas de operação dos hospitais também têm um importante papel na formação do sistema imune dos bebês nascidos por cesariana. A análise de material recolhido em 11 ambientes médicos revelou que células da pele de frequentadores diversos do local ficam acumuladas em luminárias, paredes e até mesmo no ar-condicionado, formando um coquetel de bactérias que são absorvidas pelos recém-nascidos e podem influenciar a microbiota deles.

Dúvidas sobre o efeito a longo prazo
Em um texto também publicado na Nature Medicine, o especialista Alexander Khoruts afirma acreditar que a linha de pesquisa possa levar ao desenvolvimento de uma técnica padronizada de inoculação microbiana para bebês nascidos por cesariana. “Esse desenvolvimento provavelmente vai exigir a maior compreensão dos papéis que a microbiota inicial tem no desenvolvimento do hospedeiro, incluindo as principais espécies envolvidas e os seus mecanismos metabólicos relevantes”, ressalta o professor de medicina na Universidade de Minnesota.

Especialistas ressaltam, no entanto, que a eficácia do procedimento ainda não foi comprovada e que não é possível recomendar o seeding para mães que fazem a cesariana. “Será que isso tem efeito em relação à imunidade e a doenças relacionadas com essa falta de imunização inicial? Isso precisa ser avaliado”, observa Frederico Corrêa, diretor do Centro de Reprodução Humana FertilCare. “Se esse estudo for ampliado e for comprovado que a semeadura de bactérias tem um efeito importante na vida dessas crianças, isso seria um avanço muito bom”, ressalta.

Também não está claro quais efeitos o procedimento pode ter sobre a saúde do bebê ao longo da infância e da vida adulta. “Precisamos de mais estudos para determinar se a transferência de micróbios para o recém-nascido pode refletir em menor risco de doenças associadas com a cesariana”, ressalta José Clemente, pesquisador do Departamento de Genética e Ciências Genômicas da Escola de Medicina Icahn do Hospital Mont Sinai de Nova York.

Clemente e o restante da equipe continuam acompanhando os bebês analisados no estudo há um ano e expandiram o escopo do trabalho para 84 mães. O trabalho rendeu mais de 13 mil amostras, que serão analisadas e usadas para a elaboração de um estudo que demonstre com mais detalhes os efeitos da transferência da microbiota materna.

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