Adesão maior ao aleitamento salvaria 800 mil crianças por ano

A estimativa global vem de estudo liderado por um pesquisador brasileiro. A inédita análise sobre o tema também indica que, em países de média e baixa rendas, o estímulo à amamentação exclusiva evitaria um terço das infecções respiratórias na infância

por Isabela de Oliveira 11/02/2016 09:30

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Raul Arboleda/AFP - 31/7/15
Se a taxa de amamentação subisse 90% no Brasil, seriam economizados US$ 6 milhões em tratamentos de doenças comuns na infância (foto: Raul Arboleda/AFP - 31/7/15)
As infecções respiratórias são as principais responsáveis pela morte de crianças e adolescentes no mundo, segundo um estudo inédito divulgado pela revista Jama Pediatrics, da Associação Médica Americana. Pela primeira vez, pesquisadores fizeram um recorte infantojuvenil do relatório Carga global de doenças, publicação que sintetiza os óbitos mundiais ano a ano. O levantamento indicou que, em 2013 (de quando são os dados mais recentes), 7,7 milhões de meninos e meninas de até 19 anos morreram. A maior concentração de óbitos está na primeira infância: 6,28 milhões de mortes ocorreram na faixa etária de 0 a 5 anos. O ranking é liderado pelo Japão, com o menor número de mortes infantojuvenis, proporcionalmente. O Brasil aparece em 19º, atrás de países como Irã, México e Venezuela.

Os autores do estudo, da Universidade de Washington, destacaram a necessidade de se investigar as causas de morte de crianças em uma faixa mais ampla da que costuma aparecer em levantamentos epidemiológicos. “A literatura atual foca nas taxas de mortalidade e nas tendências ano a ano entre crianças com menos de 5 anos, havendo pouca informação de comparação sobre doenças entre crianças mais velhas e adolescentes. Crianças e adolescentes constituem cerca de um terço da população mundial e seu status de saúde é importante para cada país e sociedade”, escreveram no artigo. De acordo com eles, os dados apresentados agora devem fornecer ferramentas para políticas públicas em países onde a mortalidade infantojuvenil ainda é alta.

Das 188 nações investigadas, 50 concentram mais de 70% da população de até 19 anos; por isso, o relatório foi feito apenas com os dados desses países. Os números refletem a desigualdade entre o mundo desenvolvido e em desenvolvimento, com diferenças ainda mais acentuadas em relação à África e à Ásia. Enquanto no Japão, onde há a menor incidência de óbitos infantojuvenis, houve 25,9 mortes em cadas 100 mil crianças e adolescentes em 2013, na Nigéria, nação com o pior cenário, foram 856,7 ocorrências. O país africano, aliás, também é recordista nos óbitos por doenças infecciosas do trato respiratório (concentra 12% do total mundial) e malária (38%). Com Índia, República Democrática do Congo, Paquistão e Etiópia, a Nigéria registrou metade de todas as mortes por enfermidades associadas à diarreia.

Nos países desenvolvidos, anomalias congênitas — alterações ocorridas durante o desenvolvimento fetal, quase sempre por questões genéticas — lideram as causas de mortalidade, seguidas por complicações decorrentes de parto prematuro; acidentes de trânsito; distúrbios neonatais, como as doenças metabólicas; encefalopatia neonatal (síndrome caracterizada por alterações no desenvolvimento neurológico); infecções respiratórias; sepse (infecção geral) neonatal; diarreia e desnutrição. Já nas nações em desenvolvimento, incluindo o Brasil, doenças no trato respiratório estão no topo das causas, e os acidentes de trânsito na base. Enquanto os países ricos não tiveram registro estatístico de morte por malária, no restante do mundo, a enfermidade infecciosa matou 652.820 crianças e adolescentes, com taxa de mortalidade de 29,3 em cada 100 mil.

“Em alguns sentidos, países desenvolvidos e em desenvolvimento têm semelhanças nas principais causas de morte. Em ambos, complicações de partos prematuros e anomalias congênitas são causas comuns de óbito entre crianças com menos de 5 anos, enquanto que, entre adolescentes, as lesões lideram”, observa o epidemiologista Theo Vos, professor de saúde pública da Universidade de Washington e autor correspondente do levantamento. “Quanto às principais diferenças, doenças infecciosas, sepse, malária, diarreia, HIV/Aids, meningite e tuberculose continuam sendo os grandes desafios para nações em desenvolvimento”, diz. No ranking das 25 causas de óbito, meningite ocupa a 13ª posição; HIV/Aids, a 14ª; e tuberculose aparece na 21ª. As demais citadas por Vos fazem parte da lista das 10 principais causas (veja quadro).

Prevenção
O epidemiologista destaca que não se trata apenas de falta de acesso a ações preventivas. “Em muitos países, há vacinas disponíveis para prevenir doenças como sarampo e coqueluche, que, nesses lugares, aparecem como principais causas de morte. Isso indica a necessidade de se fortalecerem programas de imunização nesses países. O médico ressalta que, de forma geral, a maioria dos óbitos registrados entre crianças e adolescentes no mundo todo poderiam ser prevenidos. “Doenças como infecções do trato respiratório e diarreia são altamente evitáveis por meio da identificação e controle dos fatores de risco, como água imprópria para consumo e higiene das mãos. A poluição do ar doméstico e ambiental também é fator de risco para infecções do trato respiratório inferior, com desnutrição sendo um risco adicional tanto para as infecções respiratórias quanto para diarreias.” De acordo com Vos, existem intervenções comprovadamente bem-sucedidas para combater esses problemas, e a alta mortalidade associada a eles é indicativo de que as medidas não têm sido colocadas em prática.

Em comparação com 1990, houve declínio da mortalidade infantojuvenil global, mas ainda com diferenças expressivas entre países; alguns deles, inclusive, registrando altas. O número de mortes de crianças com menos de 5 anos em cada grupo de mil nascidos em 23 anos, por exemplo, variou de -6,8% em Omã para +0,1% no Zimbábue. O levantamento da Universidade de Washington alerta que “apenas 27 dos 138 países em desenvolvimento devem alcançar a meta 4 dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, uma redução de dois terços da mortalidade em 2015, tendo 1990 como base”. O relatório de monitoramento dos ODMs, uma série de compromissos assumidos pelos integrantes da Organização das Nações Unidas (ONU), referente ao ano passado ainda não foi divulgado. No Brasil, a meta 4 foi atingida em 2011, quando a taxa de mortalidade de 0 a 5 anos caiu para 17,7 (em 1990 era 53,7).

Entre os adolescentes (de 10 a 19 anos), as principais causas de morte em 2013 foram acidentes de trânsito, HIV/Aids, suicídio, afogamento e doenças intestinais. “O alto índice de mortalidade resultante de acidentes e ferimentos entre adolescentes significam que eles estão, particularmente, afetados pelo pouco investimento global em prevenção de ameaças à saúde não associadas apenas a enfermidades”, observa Russell Viner, especialista em adolescência pelo Instituto da Saúde Infantil de Londres, que integra o projeto Carga Global de Doenças. “Investir apenas em descoberta de novos remédios e ampliação da oferta de serviços são respostas incompletas às ameaças à saúde dos jovens, em vista do papel profundo das condições socioeconômicas e das oportunidades que surgem para eles. Se os governos não focarem as determinantes sociais na saúde, isso os colocará em desvantagem e poderá se traduzir, inclusive, em morte prematura”, aponta.

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