Pessoas gentis são menos estressadas

Pesquisa feita nos Estados Unidos mostra que os impactos positivos no estado emocional e na saúde mental de quem é gentil

por Vilhena Soares 05/02/2016 14:00

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Abrir a porta para um desconhecido, buscar um café para o colega de trabalho ou oferecer carona. Quem diria que ações tão simples, facilmente realizáveis no cotidiano, seriam uma poderosa ferramenta contra o estresse? Pois foi essa a conclusão de um estudo feito por pesquisadores dos Estados Unidos que decidiram medir o efeito causado por pequenos gestos de gentileza na vida de quem os pratica. Ajudar os outros, sugerem os dados, promove o bem-estar, com impactos positivos no estado emocional e na saúde mental.

Segundo os autores do trabalho, recentemente publicado na revista especializada Psychological Clinic Science, análises recentes apontaram a importância do suporte social no enfrentamento do estresse. No entanto, os dados sobre o tema ainda são escassos, o que motivou uma investigação mais aprofundada. “A partir de uma pesquisa anterior, soubemos que os comportamentos pró-sociais podiam reduzir os efeitos do estresse sobre a fisiologia e a aflição, mas não ficou muito claro se esses efeitos se generalizavam para o mundo real”, conta ao Correio Emily Ansell, pesquisadora da Escola de Medicina da Universidade de Yale e principal autora do estudo.

CB / D.A Press
Gentileza gera tranquilidade (foto: CB / D.A Press)


Ansell e colegas, então, selecionaram 77 adultos, com idades entre 18 e 44 anos, que participaram do estudo durante 14 dias. Os voluntários receberam smartphones, pelos quais deviam informar como se sentiam e contar experiências que tinham tido ao longo do dia, sempre que recebiam um lembrete eletrônico, geralmente enviado para eles à noite. Os participantes eram motivados a lembrar de qualquer evento estressante pelo qual tinham passado e relatar gestos gentis que tinham realizado. Além disso, eles deveriam avaliar como se sentiam em uma escala que ia de zero (mal) a 100 (excelente).

A comparação dos dados colhidos mostrou uma correlação entre a disposição em ser gentil com os outros e um maior nível de bem-estar. O comportamento de auxílio foi associado a níveis mais altos de emoção positiva e de melhor saúde mental. “Foi surpreendente como os efeitos foram consistentes em experiências diárias. Por exemplo, se você participa de mais comportamentos pró-sociais em dias estressantes, essencialmente não há impacto do estresse sobre o seu afeto positivo, como felicidade ou calma, nem sobre suas avaliações de saúde mental”, destaca a autora do estudo.

Hipóteses
Os investigadores ainda não sabem explicar por que o comportamento gentil ajudou os participantes a diminuir o estresse cotidiano, mas têm algumas suspeitas. “Talvez, ajudar outras pessoas nos distraia dos nossos próprios problemas e reduza os efeitos negativos do estresse. Pode ser também que funcione como uma porta aberta, que convida os outros a serem gentis em resposta, como sorrir ou dizer ‘obrigado’, e essas respostas podem nos fazer nos sentirmos melhores”, avalia Ansell. “Sabemos também, por meio de estudo em laboratório, que manter uma relação harmoniosa com os demais influencia respostas biológicas que podem ajudar a regular o estresse. Então, há uma série de maneiras como esses comportamentos de ajuda podem nos levar a nos sentirmos melhores”, completa.

Para Ana Rita Coutinho Xavier Naves, professora de psicologia do Centro Universitário IESB de Brasília, o experimento americano trata de um tema muito explorado atualmente. “O estudo é muito interessante, pois faz uma relação entre dois fatos que merecem cada vez mais discussão em nossa sociedade: a diminuição nos comportamentos sociais positivos, como as gentilezas, e o aumento do estresse. A pesquisa provoca uma reflexão: a falta de contatos sociais genuínos e prazerosos entre as pessoas pode ser uma variável que tem contribuído para o aumento no estresse na população?”, considera a especialista, que não participou do estudo.

Segundo Naves, os resultados observados no experimento podem mostrar a importância das relações sociais para o ser humano. “Infelizmente, temos observado cada vez menos interações reais e o aumento nas interações virtuais. As trocas apresentadas no estudo se voltam para o contato com o outro de forma que o indivíduo, após realizar um ato de gentileza, tem um retorno imediato de gratidão, fato não presente nos contatos sociais virtuais”, destaca a especialista. “Quando seguro um elevador para outra pessoa, tenho como agradecimento um ‘muito obrigado’, ou pelo menos um sorriso. E acabo sorrindo de volta, o que é incompatível com respostas de estresse”, acrescenta.

Auxílio
A professora brasileira também acredita que as informações obtidas no experimento americano podem ser úteis à medicina. “Os dados têm muito a contribuir para a área médica. Altos níveis de estresse estão correlacionados tanto com a presença de doenças físicas, como cardiopatias, quanto com alterações psicológicas, como transtornos de ansiedade. O estudo apresenta uma forma simples de diminuir um pouco esse estresse e, consequentemente, minimizar os efeitos dele sobre o indivíduo”, opina.

Apesar de não terem focado os efeitos na saúde dos participantes, os pesquisadores americanos acreditam que os dados observados no experimento podem ajudar a evitar problemas de ordem psicológica. “Isso (o efeito benéfico de ser gentil) pode atenuar as consequências negativas do estresse sobre o nosso humor e nossa saúde mental em geral”, destaca Ansell. A intenção dela e de sua equipe é continuar as investigações, com uma análise sobre fatores externos que podem estimular o comportamento generoso das pessoas.

“Nosso próximo passo será examinar se uma intervenção em smartphones pode incentivar com sucesso os participantes a se envolverem em comportamentos pró-sociais, a fim de prevenir os efeitos nocivos do estresse. Isso ajudaria a avaliar se o estímulo a comportamentos pró-sociais pode ser usado como uma intervenção potencial, tanto para ajudar a pessoa a lidar com o estresse típico, quanto para torná-la mais disposta a ajudar indivíduos que estão passando por humor deprimido ou elevado estresse”, destaca a autora.

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