Consumo responsável provoca equilíbrio entre satisfação pessoal e sustentabilidade

Todo consumo causa impacto, positivo ou negativo, nas relações sociais, na natureza, na economia e na sua vida. É questão de hábito ter consciência e buscar nova atitude

por Lilian Monteiro 24/01/2016 09:30

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LENA: loja na Holanda que valoriza o slow fashion. Dona aluga roupas (foto: Reprodução /Internet)


Coloque de lado ideias preconcebidas, desarme-se contra o assunto que pode considerar chato, exagerado porque, em algum momento, se irritou com discursos ativistas ou inflamados ou porque não se interessa. O pedido é para que dê uma chance à reflexão sobre a importância do consumo responsável. Conheça histórias de pessoas comuns, que não estão em palanque ou nenhuma frente que possam lhe soar como imposição ou ordem, e perceba o quanto faz bem agir de forma consciente, de maneira voluntária, cotidiana e solidária para garantir a sustentabilidade da vida no planeta.

É preciso dar o primeiro passo para se acostumar e tornar a mudança um hábito. São atitudes simples e indolores, como escolher o que comprar sem descartar o impacto que ela terá sobre o mundo. Não é preciso levantar bandeira, basta fazer a sua parte. Para Kelly Morato, de 20 anos, estudante de história na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o consumo responsável significa “o bem-estar coletivo”. E enfatiza que não precisa de “grandes ações, mas de pequenas atitudes no dia a dia, que fazem a diferença no todo”.

Kelly conta que começou a pensar a respeito em 2011, quando se tornou escoteira. “Adotei a prática do consumo consciente que nasceu do escotismo. Os acampamentos e a vivência ao ar livre me colocaram em situações com recursos escassos. Tive de lidar e me virar. E aprendemos a dar várias utilidades para um mesmo objeto e levo esse aprendizado para minha vida adulta. Desde não tomar água mineral descartável e ter sempre minha garrafinha térmica, seja na escola, no trabalho ou no lazer. Ou mesmo adotar a carona solidária, que alia praticidade com a questão ambiental. E costumo usar as bicicletas disponíveis do projeto Bike BH que estão espalhadas pela cidade. Simples assim.”

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A escoteira Kelly Morato diz que faz de tudo para promover o bem-estar coletivo: 'Não precisa de grandes ações, mas de pequenas atitudes no dia a dia, que fazem a diferença no todo' (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)


A estudante explica que, ao tomar essa decisão, pensou no bem-estar, que reflete em sua vida financeira e econômica, enfim, no seu bolso. “Consequentemente, tenho consciência pelo planeta, sei que estou fazendo algo pelo que eu usufruo.” Kelly lembra que, desde cedo, foi muito preocupada com as questões que a cercavam no dia a dia. “Sempre fui questionadora. Na escola, propunha atividades diferentes e me aproximei de um grupo de colegas, primos e amigos escoteiros. Percebi o engajamento e me identifiquei. Ainda sou membro juvenil, mas a partir dos 21 anos, no meio do ano, me torno chefe-escoteira. Agora, como voluntária, será o momento em que vou compartilhar com as crianças e jovens o que aprendi. É um movimento de troca, para perpetuar o desenvolvimento das pessoas por meio da prática do trabalho em equipe, da vida ao ar livre, do respeito, da responsabilidade de cada um.”

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a humanidade já consome 30% mais recursos naturais do que a capacidade de renovação da Terra. Se os padrões de consumo e produção se mantiverem no atual patamar, em menos de 50 anos serão necessários dois planetas para atender às nossas necessidades de água, energia e alimentos. Não é preciso dizer que essa situação, certamente, ameaçará a vida no planeta, inclusive da própria humanidade. Sem pressão, mas, se esse fato não é capaz de alarmá-lo ou fazê-lo mudar de atitude, talvez o faça refletir por alguns instantes para onde caminhamos.

MODISMO Em 15 de outubro de 2008, a Consumers International (Organização Mundial das Associações de Defesa dos Direitos do Consumidor), fez uma campanha sobre consumo sustentável chamada Consumer’s Action Day. Entidades brasileiras se envolveram e o governo lançou o “Dia do Consumidor Consciente”, em 15 de outubro de 2009, para divulgar um movimento que vem tomando conta dos quatro cantos do mundo. Entendendo como consumidor consciente aquele que leva em conta, ao escolher os produtos que compra, o meio ambiente, a saúde humana e animal, as relações justas de trabalho, além de questões como preço e marca. Ou seja, o consumidor consciente sabe que pode ser um agente transformador da sociedade por meio do seu ato de consumo.

É fundamental perceber que não é modismo, não é conversa fiada, não é menos importante, não é falácia. Pense nas alterações climáticas, na escassez de água, nas montanhas de lixo, nos excessos de embalagens plásticas, no desmatamento, no recorrente noticiário de trabalho escravo para produzir produtos com preços impraticáveis de tão baixo custo, no consumo de energia, nas sucatas eletrônicas, na questão da mobilidade, na emissão de poluente ambiental... Reflita um pouco a respeito da sua postura enquanto consumidor. Você realmente precisa de tudo o que consome?

 

Arquivo Pessoal
Patrícia Dutra, jornalista, vegana e defensora dos animais, diz que a cada dia está mais convencida de que precisa de muito pouco para viver bem (foto: Arquivo Pessoal)

 

"Deveria ser normal"

Cada ato de consumo responsável significa a busca do equilíbrio entre a satisfação pessoal e a sustentabilidade. Quem age assim prega respeito e perseverança para maior adesão


É difícil, para quem adota o consumo consciente, entender que ele é uma questão. É complicado aceitar que, em pleno século 21, ele precise estar em pauta, ser discutido e defendido. “Deveria ser sempre normal, corriqueiro, o padrão. Não existe outra forma de lidar com os recursos que temos”, é o que pensa Patrícia Dutra, de 46 anos, jornalista, vegana e protetora dos animais. Ela conta que sua consciência da racionalidade no uso e consumo das coisas veio da conduta dos pais. “Caía um grão de feijão no chão e pediam para catar. Não era discurso, mas a atitude e a postura. Na minha casa, nunca foi nada de muita comida, muita roupa, mas o necessário para viver. E tudo de maneira natural, não que eles tivessem consciência do coletivo. Mas foi a partir das ações que herdei dos meus pais que desenvolvi minha consciência crítica, já que a prática deles era particular. Tive exemplo e foi minha base.”

Desde então, Patrícia Dutra adquiriu um outro olhar para o mundo, que a faz questionar e não entender por que as pessoas jogam lixo na rua. “Como assim? Por que não usar a sacola reutilizável ou embalagens de papel como antigamente?” Para ela, o problema é que “as pessoas adquiriram o conforto como hábito de consumo, absorveram, inconscientemente, sem perguntar para onde vai, o que vai gerar. Um exemplo. Comprei uma calcinha, que veio num pequeno cabide de plástico. Para quê? O que fazer com ele? E como esse, há tantas outras embalagens desnecessárias. Ao almoçar num restaurante, o talher veio dentro de um saquinho plástico. Tem de ser assim? Se tivesse segurança de que ele seria reciclado... Confesso que me sinto um peixe fora d'água”. E tudo fica pior ao perceber que muitas pessoas não “têm consciência de que tais atitudes afetam todo mundo”.

Sem querer entrar em embates, Patrícia avisa que já encontrou o caminho para não sofrer ou perder a medida. “Não vale a pena brigar ou enlouquecer. É melhor estabelecer a estratégia da paciência para você ter compreensão do todo, pelo que é a condição humana. E vale para tudo. Entender que há pessoas que não querem ter consciência. Mesmo com informação clara, elas preferem ignorar ou há aquelas que decidem agredir porque a verdade é incômoda. Mas, não tem como fugir, você terá de separar o lixo, dar preferência a produtos que não sejam testados em animais, que não agridam a natureza. Mas a transformação, acredito, virá com exemplo, com conversa, para mostrar a incoerência, a indiferença e a responsabilidade de todos nós.”

 

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Pedro Baggio com Danielle Costa, gerente da loja de móveis BH Decor, que participa do projeto (foto: Arquivo Pessoal)
 

 

RESPEITO Patrícia já chegou à conclusão de que a tentativa mais correta é a abordagem pacífica, respeitosa, com raciocínio e conhecimentos embasados. “Vivemos numa sociedade democrática de direito, então, não quero ninguém me impondo nada, por isso é importante ampliar a análise para outros aspectos da vida. Na década de 1990, Belo Horizonte foi premiada na ONU pela coleta seletiva de lixo. Hoje, ela se perdeu. Em vez de evoluir, retrocedeu. Pelo nosso padrão de vida, se não temos como precindir da mineração, cabe a responsabilidade para lidar, porque há maneiras respeitosas para evitar desastres como o da Samarco.”

Como voluntária da causa animal, ela é dona das cadelas Batuta e Pequeña, suas paixões, abandonadas em Caeté e adotadas por ela aos 2 meses (hoje elas estão com 7 anos). Patrícia explica que “ninguém precisa gostar, mas tem o dever de respeitar os animais. Assim como o gordo, o negro, o índio, enfim, todos, a começar por si próprio. O respeito começa pela gente e terá como consequência o respeito para com o outro. Isso é autoconhecimento. É saber que é preciso intervir na natureza porque precisamos comer, viver, mas como vou fazer? De que maneira?”.

A jornalista conta que só compra o que precisa. “Não tenho prazer em comprar. Minha vida é diferente da da maioria das mulheres. Aliás, isso me incomoda. Tenho uma sandália, estragou, aí compro outra. Cada vez mais tenho parado de comprar. Descobri que gosto de ganhar, então, minha irmã tem me passado muitas roupas. Sou mulher de uma bolsa só, ou melhor, uma para casamento, outra para a noite e outra para o dia a dia. E uso até acabar. A cada dia estou mais convencida de que preciso de muito pouco para viver bem. É a minha natureza.”

EM BUSCA DA HARMONIA

As escolhas de consumo afetam todos, para o bem e para o mal. Tem sido um desafio para o mundo tentar equilibrar consumo com qualidade de vida. Consumir faz parte do cardápio diário da sociedade moderna. “Mais desafiador ainda é pensar sustentabilidade numa sociedade que estimula o consumo em prol da felicidade.

Exemplos de falas do cotidiano soam com naturalidade: 'Nossa, que lindo! Onde você comprou?' Os apelos dos comerciais para adquirir tal produto nos fazem sentir valorizados e autoconfiantes: 'Você pode tudo se usar ou ter tal produto de uma determinada marca'. Antes de comprar algo, por que não nos perguntamos: 'Será mesmo que preciso disso? Simples assim de dizer e difícil de colocar em prática”. A análise é de Pedro Baggio, cidadão e professor universitário da Newton Paiva e da Fead.

Para Pedro, consumo consciente é uma tomada de decisão em favor de um mundo melhor. “É a soma de milhares de gestos e atitudes que você, talvez, já faça no seu dia a dia. Repense como você pode favorecer as outras pessoas com aquilo que não lhe faz falta.

LIVROS Um exemplo simples, mas de impacto socioambiental, é o projeto Passe a Letra, idealizado por Pedro. Trata-se de uma iniciativa na qual as pessoas, ao entrar em determinados estabelecimentos comerciais, poderão deparar-se com uma estrutura contendo livros de variadas categorias, organizados em caixotes de madeira.

Cada local recebe uma estrutura feita de caixotes para acomodar entre 50 e 70 livros, que ficam disponíveis para quem quiser levar um livro para ler e depois devolvê-lo em um dos pontos e/ou até mesmo, se desejar, doar. A estrutura de caixotes ajuda a reforçar o conceito de consumo consciente e de responsabilidade socioambiental. “O material simples e acessível traduz a ideia de que o livro pode estar ao alcance de todos e em qualquer lugar. Os caixotes foram doados pela Associação dos Produtores de Hortifrutigranjeiros das Ceasas do Estado de Minas Gerais (APHCEMG)”.

Inicialmente, 10 pontos comerciais de pequeno e médio portes na Região do Bairro Caiçara já receberam o projeto. Vale destacar que o Passe a Letra foi desenvolvido pelos alunos e estagiários das agências experimentais da Escola de Comunicação Newton e há leitura para todos os gostos. (LM)

A SOCIEDADE DAS APARÊNCIAS

Antropóloga analisa modelo do sistema capitalista na raiz do consumo. A responsabilidade leva em conta impactos de compra, uso, descarte e origem de produtos ou serviços



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Na Holanda, a Lena tem foco no aluguel de roupas simples para o dia a dia (foto: Reprodução /Internet)

O consumo responsável é decisão individual, particular e solitária, em função do compromisso de cada um com o desenvolvimento socio-ambiental. É de quem tem ou adquire a consciência de que ações positivas minimizam as negativas. Comportamento e atitude que estão ligados à questão do “não desperdício, do desprendimento e da posse de objetos por status. Visão ainda pequena na nossa sociedade, mas que tende a aumentar nas camadas mais jovens, preocupadas com a preservação dos recursos naturais renováveis. Em outros países, as práticas são mais arraigadas. No Brasil, não. Acumulamos muito lixo pelo consumo que tem a ver com o descarte, a sobra, o desperdício, o refugo, que causam sérios problemas. É a garrafa PET, a sacola plástica, as sucatas de equipamentos eletrônicos, o celular, o computador...”, explica Andréa Zhouri, antropóloga e coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Andréa Zhouri alerta que a solução está na mudança do “pensar do berço ao túmulo. É prática de preocupação política no sentido mais amplo. É concepção de consciência política. O modo de vida de acumulação, de posse de coisas, de acumular e desperdiçar. É preciso mudar. Surgem na sociedade brasileira atitudes, tentativas ainda incipientes, marginais e pontuais, mas em determinados grupos. No entanto, a grande tendência é ter!”.

O caminho é longo e é preciso persistência. “A transição do ter para o ser implica processo. E tem a ver com a elaboração do sujeito, da sua reflexão sobre a existência no mundo, porque a sociedade capitalista é uma sociedade de produção de mercadorias e de bens não só materiais, mas de bens significativos. Ou seja, ao mesmo tempo que tem valor de uso, prático, de troca e comercial, também tem valor de bem distintivo, de status, simbólico. Ambos estão interligados. O exemplo mais claro é o automóvel. Não se compra só o veículo de transporte para levá-lo de um lugar A para o B. Não é 'um' automóvel, mas 'o' automóvel, o modelo, o tipo e a marca que vão atribuir ao consumidor um lugar na sociedade, que é cumulativa de bens e emite mensagens”, analisa a antropóloga.

PODER Andréa Zhouri enfatiza que as pessoas compram a mensagem e não o objeto. “E aí vamos entrar em outra área, que é a luta pelo poder. Ao transmitir o que se tem, a pessoa emite uma mensagem. Por isso é muito difícil o consumo consciente, responsável, porque a questão não está no nível do cognitivo. O desafio não é a informação, mas porque o consumo mexe com o lato efetivamente significativo da existência. A necessidade de se distinguir, ser diferente e projetar determinada imagem.”

A antropóloga alerta que “a sociedade vende a ilusão de que você, consumindo, vai conseguir a distinção que a sociedade moderna valoriza. A pessoa vai comprar a ideia de que é especial. Assim, é difícil o consumo responsável na contramão de um mundo da propaganda e do marketing”.

E como Andréa Zhouri já declarou diante de outra situação, no caso, a catástrofe da Samarco, mas que também envolve consumo, “precisamos repensar o que é de fato o bem-viver, a riqueza e uma boa economia. Há alternativas que exigem participação política de todos, ainda que a sociedade civil cobre, esteja engajada, em determinadas situações ela não encontra ouvidos do outro lado, do lado da governança”.

BIBLIOTECA FASHION

O termo slow fashion nasceu em 2008, com a consultora, professora, ativista de design sustentável e amante do mundo natural Kate Fletcher, ao propor uma nova abordagem para o vestuário e para a moda em oposição à febre e ao massacre que é o ciclo do fast fashion (com muitas marcas usando trabalho escravo). E o slow fashion não engloba só moda sustentável, mas defende uma nova forma de vestir e montar o guarda-roupa, ao propor pisar no freio do consumismo. Pensando nisso, nos EUA e na Europa nasceram as fashion library (biblioteca da moda), com lojas físicas e on-line, onde as pessoas podem alugar roupas e acessórios de grandes designers ou mesmo vender suas roupas para essas empresas rechearem suas araras com mais opções e peças-desejo acessíveis.


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Para a antropóloga Andréa Zhouri, da UFMG, é preciso mudar o modo de vida de acumulação (foto: Arquivo Pessoal)


Na Europa, a onda é outra. O foco não está no aluguel de peças de grandes designers, mas no de roupas simples, para o dia a dia. Em Amsterdã, na Holanda, tem a Lena ( www.lena-library.com), que criou o conceito de biblioteca fashion, onde você pode alugar roupas e depois devolvê-las, assim como você faz com livros nas bibliotecas comuns. Suzanne Smulders, uma das fundadoras, conta que a empresa veio de um pensamento idealista: “Acreditamos que vivemos em uma sociedade mais consumista. Especialmente quando se trata de roupas. Na Holanda, jogamos fora 240 milhões de quilos de produtos têxteis por ano, enquanto há circunstâncias muito ruins em toda a cadeia produtiva. É hora de pensarmos numa mudança”. Ele destaca que “há tantas coisas bonitas e valiosas que podemos usar de forma mais eficiente, e é isso que tentamos fazer com a Lena. Queremos, com nosso conceito, estimular as pessoas a consumirem moda de uma maneira muito mais consciente”.

Para a mudança ocorrer, Suzanne Smulders diz que a galera da Lena, empresa e consumidoras, acredita que “precisamos fazer uma mudança em todo o sistema. Mesmo que as marcas comecem a utilizar materiais ecológicos, a maioria do negócio ainda é sobre fazer o máximo de vendas possível. Nossa opinião é que o consumo excessivo é um dos maiores problemas na indústria. E não basta ter o foco na qualidade para que os itens produzidos tenham longa duração e todos possam compartilhar juntos. Compartilhar a roupa já é um passo, mas vamos tentar fazer as pessoas mais conscientes em um nível mais amplo, bem como pela forma como elas cuidam de suas roupas, por exemplo (70% da pegada ecológica é criada aqui!). Temos uma colaboração com a AEG (empresa multinacional de esporte e entretenimento) e utilizamos suas máquinas avançadas, que consomem menos energia e água e ainda têm uma função de vapor. E lavamos tudo com o seepje, detergente natural que estende a vida útil da roupa”.

Suzanne reforça que a Lena tem o objetivo de criar um impacto positivo, mas também se divertir com a moda. “Oferecemos peças únicas, com as quais você pode viver experiências novas. Você só pode usá-las uma ou duas vezes, mas tem a chance de experimentar um novo estilo ou ir até o topo apenas uma vez. É realmente divertido ver os clientes experimentando na biblioteca da moda.”

coleções Como a Lena funciona? O cliente paga uma taxa de adesão de 10 euros e começa com 19,95 euros por mês (há três tipos de filiação) para ter acesso às coleções dos melhores vintage, designers e marcas sustentáveis. A empresa monta a coleção com cuidado e você pode comprar, bem como emprestar tudo que desejar e, assim, sempre terá um guarda-roupa renovado e, de quebra, contribuiu para um mundo melhor. Você pode ter até três acidentes com a roupa (mancha, rasgo, buraco etc). Mas, do quarto em diante, a Lena cobra uma taxa de 25% sobre o preço de venda, para compensar.


Em Hamburgo, na Alemanha, em 2012, Pola Fendel e Thekla Wilkening abriram a Kleiderei com uma ideia simples: você assina um pacote mensal (ou individual), procura uma roupa bacana e pega emprestada por até cinco dias — depois devolve e pega outra. Assim, você desfruta do visual sem gastar dinheiro ou adquirir uma peça que ficará encostada no armário. “Começamos apenas porque sentimos que era tão bobo, você sempre tinha que comprar roupas, quando, na maior parte do tempo, quer apenas usá-las algumas vezes. E nós pensamos: ‘Por que sempre comprar coisas novas, quando já há muito lá que podemos usar?’. Então, a ideia de uma biblioteca para roupas nasceu. A proposta é que ela funcione como uma biblioteca de livro. Você se cadastra e, então, pode pegar roupas emprestadas, como ocorre normalmente com os livros. As roupas são todas vintage ou de jovens designers locais”, explica Pola.

Pola lembra que “existem bibliotecas de moda locais na Suécia e o modelo on-line é muito popular na América (Rent a runway), Inglaterra (Le tote) e França (Rentez vous). Mas elas têm produtos novos, a ideia sustentável não é a peça-chave”. Quanto ao slow fashion, Pola diz que é uma ótima decisão, porque “são décadas de superprodução e capitalismo monstruoso. Ela traz de volta o valor do material e do trabalho por trás das roupas que vestimos. Para nós, é uma mudança lógica e necessária na indústria da moda”.

Esse modelo de negócio e consumo consciente é econômico, prático e fácil. Nos EUA e principalmente na Europa, alugar roupa, não só para eventos, mas para o dia a dia, é uma realidade e faz parte do movimento slow fashion. Nos EUA, alimentado por um modelo transformador de negócio e tecnologia própria, a Rent the runway é uma das pioneiras no ramo de aluguel de roupas no mercado de luxo. Também com lojas físicas, ela tem no catálogo mais de 200 grifes, contabiliza 5 milhões de clientes e permite que elas tenham acesso ilimitado a roupas e acessórios, desde que paguem a mensalidade de US$ 99. No Brasil, a ideia ainda é embrionária. A maioria das pessoas aluga roupas para festas (casamentos, 15 anos, uma comemoração especial) e muitos se importam com a assinatura de grandes estilistas ou então se ligam mais no estilo e preço de peças encontradas em brechós e bazares. Há pouco tempo, surgiu a onda de trocar roupas entre amigas.

 

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Na Kleiderei, na Alemanha, você assina um pacote mensal e pega uma roupa bacana emprestada por até cinco dias (foto: Reprodução /Internet)
 

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