Manter o corpo em forma e com saúde tem levado pessoas a cometer exageros como a retirada de órgãos

Healthism, como é chamado, pode impactar as relações sociais

17/01/2016 09:30

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Linhaça e água de berinjela para emagrecer. Ioga para relaxar. Malhação para tonificar os músculos. Pilates para alongar. Suplementos para dar energia e complementar a alimentação. Por fim, checapes regulares para ter certeza de que está tudo no lugar. A lista longa de cuidados garante beleza e longevidade, pregam celebridades do mundo fitness. Mas especialistas alertam que a precaução com a saúde e o excesso de cuidados têm limite. Se ultrapassado, chega a uma condição que tem sido chamada por eles de healthism.

Em linhas gerais, o healthism funciona como um criador de regras que identifica e impõe o modo de viver “correto”. A preocupação excessiva com a condição física pode levar a exageros. Em artigo publicado recentemente no Journal of Social Policy Studies, Evgenia Golman, professora da Faculdade de Ciências Sociais do Departamento de Sociologia Geral, na Rússia, usa como exemplo para explicar o fenômeno a realização de cirurgias em pacientes saudáveis pela simples possibilidade de uma doença sugerida em um exame.

Atitudes drásticas como essa também são chamadas pelos especialistas de síndrome de Angelina Jolie, uma referência à atriz hollywoodiana que retirou as mamas e o ovário ao descobrir que tinha risco aumentado de ter câncer. Após o anúncio da mastectomia preventiva feita por ela, em maio de 2013, a procura pelo teste que analisa as mutações detectadas em Jolie mais que dobrou no Reino Unido, segundo pesquisa divulgada em setembro de 2014 pelo Breast Cancer Research, e que levou em consideração dados de 21 centros de saúde. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) estimou, também em 2014, que o interesse pela cirurgia para prevenir a doença havia aumentado 50%.

O caso da hollywoodiana, porém, é uma manifestação extrema desse “novo olhar sobre a saúde”. Evgenia ressalta que o healthism inclui principalmente comportamentos que impactam no dia a dia, como o boom das dietas, das cirurgias plásticas e do consumo de alimentos orgânicos, bem como a popularidade de aplicativos móveis para a vigilância da saúde. No mesmo artigo, a especialista ressalta que, apesar de a medicina preventiva ajudar a salvar muitas vidas e poupar recursos governamentais, a prevenção excessiva na busca de um ideal saudável pode levar a uma neurose na população e afetar todas as relações sociais.

"O indivíduo tem que estar em conformidade com os padrões contemporâneos de um estilo de vida saudável e de aparência. Caso não esteja, corre o risco de ser avaliado negativamente em termos de suas qualidades pessoais e profissionais", explica. Com medo de serem mal avaliadas pela sociedade, as pessoas ficam obsessivas por um ideal e começam a detectar sinais de doenças imaginárias, complementa a pesquisadora.

Impulso tecnológico A grande produção e o barateamento de novas tecnologias médicas também contribuem para o healthism. Facilidades para diagnosticar possíveis descompassos no corpo levam ao aparecimento de “pacientes sem sintomas”, que, segundo Evgenia Golman, acabam vivendo em um regime de vigilância da saúde pelo resto da vida. Como consequência, a prevenção ganha um tratamento exagerado, refletida no aumento do consumo de produtos de monitoramento, como pulseiras e aplicativos que controlam o nível de atividade física e da qualidade do sono.

Greice Cerqueira Nunes, psicóloga clínica e professora do curso de psicologia do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), observa que, com a prevenção em um padrão extremamente alto e tecnológico, há um aumento nos níveis da ansiedade relacionada aos padrões imperativos proporcionados pela “falsa saúde”.  "Falsa porque alimenta e enriquece a indústria farmacêutica com marketing muitas vezes tendencioso. Porque nutre a necessidade de status de bem-estar. Porque gera uma obsessão retroalimentada por si mesma para gerar e manter a máquina que faz você acreditar que precisa de um sabonete antibacteriano ou que precisa tomar suplementos lácteos com lactobacilos vivos", critica.

O modelo tradicional de família faz com que as mulheres sejam ainda mais impactadas por essas pressões, observa Tatiana Lionço, psicóloga conselheira do Conselho de Regional de Psicologia do Distrito Federal. Isso porque, além do próprio corpo, elas precisam assumir os cuidados com o bem-estar da família. “Existe uma maior oferta de exames biomédicos em relação às mulheres também por um histórico de objetificação do corpo da mulher. É evidente que a pressão, do ponto de vista estético, é maior sobre elas”, complementa.

Palavra de especialista - Pressão da indústria

"A indústria médica e de alimentos acaba ‘criando’ doenças para, depois, lançar produtos. Acontece, por exemplo, de um laboratório estar fazendo um remédio para hipertensão e descobrir que a substância é melhor para a queda de cabelo. Aí, eles lançam o remédio como a solução milagrosa da calvície. Assim, surge o produto e, depois, se pensa em um mercado para ele. Desse modo, o remédio não surge da necessidade do paciente, mas da necessidade da indústria de vender. E essa indústria encontra eco na sociedade baseada em consumo. Assim, a saúde é também um bem de consumo. Em muitos casos, esses produtos não conseguem alcançar de forma satisfatória seus objetivos, as pessoas se frustram e essa decepção leva a busca eterna por soluções, pois nunca o indivíduo fica satisfeito com o resultado.”

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