A mulé do Cláudio

por Zulmira Furbino 04/01/2016 14:41

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Uma leitora que assina Mariposa Apaixonada, clara referência à música A dois passos do paraíso, hit da banda Blitz na década de 80, escreve a esta coluna. E nos fala sobre o apagar das luzes de 2012, ano que teria sido o ano mais ferrado de sua vida.


Ela levara um clássico pé na bunda, de maneira que passar a virada no Rio de Janeiro seria uma maneira de sacudir e poeira, embalada pela energia boa derramada nos céus de Copacabana na forma de fogos de artifício.

 

Dias depois da noite mágica, a (ainda) chorosa Mariposa baixou num ensaio de carnaval no Palácio do Samba, como é conhecida a quadra da Estação Primeira de Mangueira.

 

O galpão enorme, a força e o chacoalhado da bateria, a multidão apinhada, a presença do ídolo Raí num dos camarotes, a animação das amigas, a cerveja quente vendida em copos de plástico, o calor escaldante, a sensação de liberdade, e, por último, mas não menos importante, o desejo de ir à forra, tudo isso deve ter mexido muito com nossa leitora.

 

Deu no que deu.

 

Mariposa Apaixonada recorda que estava atenta ao som do surdo, da caixa de guerra e do repique tocados pela bateria quando pintou na frente dela um cara alto, com jeito e corpo de modelo. Foi pá-pum.

 

O primeiro me pegou como quem vem do florista, mas sem o bicho de pelúcia e sem o broche de ametista, lembra em sua cartinha, evocando Teresinha, clássico de Chico Buarque.

 

O casal, porém, foi inexoravelmente separado pelo empurra-empurra da multidão suarenta. Com seu vestidinho frente-única estampado de azul, adquirido numa charmosa loja atrás do Arpoador, Mariposa Apaixonada, adepta da monogamia sucessiva, sentiu uma certa dor no coração pela repentina separação.


Não demorou muito para que surgisse um louro, tostado de praia, marra de surfista. Como quem chega do bar, o moço prometeu: vinha para ficar. Na primeira oportunidade, porém, fez uma curva à esquerda e deixou nossa leitora pra trás.

 

Sentindo-se culpada por beijar dois homens na mesma noite, coisa que jamais havia ocorrido em seus 40 anos de vida, Mariposa Apaixonada resolveu desanuviar arriscando alguns passinhos de samba. Daí, justo quando ela começava a se divertir pra valer, apareceu o Cláudio.


O homem número três se apresentou, perguntou o nome dela, ofereceu uma cerveja, bateu um papo maneiro e não demorou a apresentá-la para os amigos da comunidade, que, por sua vez, a apresentavam para outros amigos:

 

– Esta aqui é a Mariposa, mulé do Cláudio.


Sim. De uma hora pra outra, Mariposa viu sua identidade se esvair enquanto se transformava na “mulé do Cláudio”. Envaidecida pelo efeito que causava na comunidade, ela deu um perdido nas amigas. Até que, de repente, bateu aquela vontade de fazer xixi.

 

Mariposa avisou que ia ali e voltava já, esperando que Cláudio tomasse um chá se sumiço. Mas lá estava ele, esperando por ela na saída do banheiro. Recomeçavam a se beijar quando as amigas a encontraram e convocaram para ir embora, o que Cláudio tentou evitar a todo custo.

 

– Fica comigo, dorme aqui, te levo embora de táxi na hora que tu quiser...

 

Já imaginando como seria acordar no alto do morro, a sonhadora Mariposa deu trabalho até que as amigas conseguissem arrastá-la até Botafogo.

 

Antes que a moça embarcasse num velho Monza amarelo, enxugando uma lágrima fujona com a ponta do laço do vestido, Cláudio entregou-lhe um pedaço de papel com o número do seu celular.

 

Aquele ano-novo acordou com a imagem de um louco amor desaparecendo aos poucos, enquanto Mariposa, de dentro da carruagem, olhava para trás e dava um tchauzinho.


No dia seguinte, Cláudio era um pedaço de papel amassado, esquecido num banco de táxi – e também uma hipótese. “Podia ser o rei do tráfico ou um sambista respeitado na Estação Primeira”, calcula Mariposa.

 

A segunda hipótese a agradou. Com a primeira, se diverte até hoje.

 

Que em 2016 sejamos apaixonados, leves e livres como nossa leitora, uma Mariposa Apaixonada que toma algumas pancadas, dá as suas derrapadas, mas levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.



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