Filhos de mães estressadas têm mais cáries, revela pesquisa feita nos EUA

Cientistas descobriram que as cáries são mais comuns em crianças cuja genitora tem dois ou mais marcadores biológicos de estresse crônico. Além do maior risco para problemas dentais, a condição materna reduz a probabilidade de amamentação

por Isabela de Oliveira 02/01/2016 10:40

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Thiago Fagundes / CB / D.A Press
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Não tem escapatória: uma vez mãe, a mulher será acometida pelo estresse. Os impactos do esgotamento físico e/ou mental em excesso, no entanto, não se limitam a ela. E são extensos. Chegam à saúde bucal dos filhos, segundo estudo publicado na revista American Journal of Public Health. Os cientistas descobriram que as cáries são mais comuns em crianças cuja genitora tem dois ou mais marcadores biológicos de estresse crônico. Além do maior risco para problemas dentais, a condição materna reduz a probabilidade de amamentação.

Erin Masterson, pesquisadora da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, e Wael Sabbah, da britânica King’s College London, notaram que 44,2% das crianças com cáries tinham mães com pelo menos dois marcadores de estresse crônico, sinais que refletem a forma como o organismo responde a eventos adversos frequentes. Basicamente, indicam o desgaste dos sistemas imunológico, cardiovascular, metabólico e nervoso. Caracterizado pelos níveis elevados de cortisol e adrenalina, o conjunto de marcadores é chamado carga alostática (CA) e gera alterações no colesterol e na glicose, por exemplo, além de desequilíbrios na circunferência abdominal, na pressão sanguínea, nos triglicerídios, na PCR e no fibrinogênio.

Pesquisas anteriores trouxeram evidências de que a preocupação constante altera os cuidados maternos, afetando também os filhos. A relação, na realidade, é indireta: constantemente preocupadas e ocupadas, elas — e as pessoas em geral — cuidam menos de si mesmas e da família, mantendo vícios e dietas negligentes. Apesar dos achados anteriores, é a primeira vez que a relação é examinada sob a ótica de marcadores biológicos.

As novas evidências resultam da análise de dados de 716 pares de mães e filhos, todos participantes da Terceira Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, feita entre 1988 e 1994 nos Estados Unidos. Os autores notaram que 62,9% das crianças com cáries não haviam sido amamentadas pela mãe, que apresentava CA relevante. A associação de doenças crônicas com os marcadores de estresse prejudica os cuidados maternos também por favorecer doenças que impedem as mulheres de cuidar dos filhos, como diabetes e câncer.

“A relação do estresse crônico com cáries infantis sugere que o efeito cumulativo dos eventos adversos ao longo da vida influencia a habilidade das mães em adotar hábitos que previnam doenças na boca das crianças”, completa o pesquisador. Para Sabbah, os resultados mostram que as políticas de cuidados dentários, particularmente as voltadas para a prevenção de cáries, deveriam incluir ações que melhorassem a qualidade de vida também das mães. O grupo que carece de mais atenção é justamente o mais pobre, em que se constatou menor frequência de aleitamento materno e de consultas ao dentista.
Erin Masterson, a primeira autora, destaca que, embora não seja novidade que baixa renda e pobreza estão entrelaçadas com a exposição crônica a condições de vida adversas, há pouca informação sobre os custos biológicos disso tanto no corpo quanto no comportamento de um indivíduo.“O estudo destaca a importância de considerar a influência da situação socioeconômica e do estresse materno na saúde bucal das crianças levando em conta as dificuldades delas em adotar padrões que são importantes preditores de cáries, como escovação regular dos dentes dos filhos, hábitos alimentares saudáveis e consultas periódicas ao dentista”, conclui a autora.

Efeito social
É chamada de cárie a infecção bacteriana provocada pela má dieta e pela incorreta higiene bucal. Apesar do declínio mundial de casos em todas as idades, em especial pela utilização do flúor, a prevalência do problema é estável no conjunto de 20 dentes que se forma entre a 12ª e a 18ª semanas da vida intrauterina. Chamada de dentição de leite, ela rompe entre o sétimo e o 30ª mês após o parto. A cárie nessa etapa da vida promove má formação da dentição permanente, problemas de fala e, por tabela, o comprometimento da autoestima.

Cirurgiã-dentista e pesquisadora da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Thayla Hellen Gouveia explica que a criança cariada com dor nem sempre consegue contar o problema. Então, surgem mudanças de comportamento, mal-estar generalizado, falta de apetite, febre, irritabilidade e problemas para dormir, sem falar nas dificuldades de socialização e na associação negativa da dor e medo com dentistas.
Gouveia diz que a primeira visita ao dentista deve ocorrer quando a criança tem 6 meses. Na consulta de caráter preventivo, os pais serão instruídos sobre higiene, erupção de dentes, uso de creme dental e hábitos não saudáveis. “É importante salientar o pré-natal odontológico, consulta preventiva que, desde a gestação, antes mesmo de a criança nascer, orienta a mãe e a família sobre hábitos de higiene oral e alimentar”, explica.

Mamadeira
Poucos pais sabem, por exemplo, o que é cárie de mamadeira. Conhecida também como cárie da primeira infância, está associada ao uso da mamadeira noturna rica em açúcares e sem higienização bucal posterior. A consequência é a cárie generalizada nos dentes de leite. “Antes do aparecimento dos primeiros dentinhos, a limpeza bucal deve ser estimulada para que o bebê comece a compreender que a intervenção é necessária. Quando eles nascerem, não haverá estranheza com a limpeza”, explica a especialista, acrescentando que as gengivas devem ser higienizadas com gaze e água filtrada.

A consulta também ajuda os pais a escolherem escovas e dentifrício apropriados. A pasta dental, que deve conter flúor com concentração de mil a 1,1 mil partes por milhão de fluoreto de sódio, precisa ser usada em quantidade semelhante a um grão de arroz, ou menos. “Muitos pais têm o receio de utilizar o dentífricos com flúor devido ao aparecimento de fluorose e intoxicação. Entretanto, é consolidado na literatura que a quantidade de flúor ingerida pela escovação, respeitando o recomendado, é muito pequena, sendo insignificante o risco desses problemas”, garante a especialista.

Sinais de complicação
A proteína C reativa, também conhecida como PCR, é produzida no fígado e sua concentração alta acusa processos inflamatórios, como infecções, neoplasias, doenças reumáticas ou traumatismos. O fibrinogênio é fator de risco para doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral e doença arterial periférica. Tabagismo, idade, obesidade, nível de colesterol, diabetes, consumo de álcool, menopausa e ingestão de fibras e contraceptivos orais são fatores relacionados à concentração dessa glicoproteína.

Arquivo Pessoal
Thayla Hellen Gouveia, cirurgiã-dentista e pesquisadora da Faculdade de Odontologia de Piracicaba, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (foto: Arquivo Pessoal )
Mais promoção de saúde
“A pesquisa traz uma implicação pública, de que é preciso atentar para a saúde materna, uma vez que as mães devem estar aptas a cuidar dos filhos. Medidas de promoção da saúde, por meio de atividades educativas, devem ser cada vez mais estimuladas. Assim, compreendo que, quanto mais instruídas forem as mães, quanto mais equilibradas emocionalmente estiverem, mais capazes serão de cuidar de suas crianças. Pois, como já consolidado na literatura, o estabelecimento da cárie pode ser decorrente da alimentação, da higiene, do tempo, da hereditariedade e do nível socioeconômico, entre outros fatores. E o conhecimento das mães sobre esses fatores contribui diretamente no estabelecimento ou não da doença em seus filhos.”

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