Depressão na velhice não é normal e pode agravar outras enfermidades

Para evitar o problema, é importante se manter ativo socialmente, produtivo e cuidar da saúde em geral. Falta de tratamento aumenta o risco de demência, Doença de Alzheimer, problemas cardiovasculares e diabetes

por Gustavo Perucci 07/12/2015 14:00

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Ricardo Moraes / Reuters / 18/10/11
Idosa se exercita em aparelhos públicos em Copacabana, no Rio de Janeiro (foto: Ricardo Moraes / Reuters / 18/10/11)
O saudoso compositor, cantor e instrumentista de samba carioca Jair Araújo da Costa, o Jair do Cavaquinho, traduziu, como somente os poetas conseguem, em sua música Cabelos brancos, um sentimento comum das pessoas ao envelhecer: “Quando os cabelos brancos em silêncio dizem mais/O corpo já não tem aquela mesma agilidade/O rosto já marcado se revela no espelho/Você está mais velho/As mulheres já não têm aquele mesmo interesse/Em teus sonhos só saudades/Alguns velhos endereços/Outros tantos esquecidos/É a vida que anoitece/Você está mais velho”.

Encarar o processo de envelhecimento pode não ser fácil. Se levarmos em conta aspectos culturais do país e preconceitos arraigados na compreensão da população, pode ser ainda mais difícil. Sinais de problemas de saúde física ou mental que, na população mais jovem, ligariam um sinal de alerta e buscariam por tratamento não têm a devida atenção quando surgem nos mais velhos.

Nesse cenário, a depressão, doença psiquiátrica que atinge 10,4% da população brasileira, de acordo com dados de 2013 da Organização Mundial da Saúde (OMS), aparece, perigosamente, como algo 'natural' quando aflige a parcela mais velha da sociedade. “Depressão no idoso é muito comum, mas não é diferente do que na população de outras faixas etárias. Não é decorrente do processo de envelhecimento e esse é um grande problema quando abordamos o tema. Todos costumam ter essa percepção de que, se a pessoa chega a uma idade mais avançada, ela ficar deprimida é normal. Isso não é verdade”, observa Breno Satler, professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do Laboratório de Investigações em Neurociência Clínica (Linc).

CARACTERÍSTICAS Tristeza profunda, falta de interesse, incapacidade de sentir prazer, sentimento de culpa e baixa autoestima, distúrbios de sono ou apetite, cansaço e concentração baixa são, segundo a OMS, as principais características dessa doença psiquiátrica. De longa duração ou recorrente, a depressão traz prejuízo ao indivíduo, atrapalhando o trabalho, estudos ou o andamento da vida da pessoa. Semelhantes à expectativa cultural que existe sobre o comportamento dos idosos, vários sintomas do problema são ignorados. Além da evolução do quadro depressivo, aumentam as chances de outras doenças graves. E isso afeta, e muito, a população mais velha.

“A sociedade tem essa visão de que, ao envelhecer, é preciso se deslocar de sua função de provedor, de pessoa útil e produtiva, assim como o idoso, muitas vezes, se coloca nessa posição. Isso faz com que as pessoas não busquem ajuda, mesmo com quadros depressivos graves. As consequências são extremamente nefastas e deletérias à saúde do idoso. Aumenta o risco de demência, da doença de Alzheimer, de problemas cardiovasculares, de controle do diabetes.”

O médico esclarece que os sinais da doença são os mesmos em todas as idades. As mulheres são mais propensas à depressão que os homens, e isso também não se altera na parcela mais velha da população. “O idoso, por uma característica própria do seu quadro, fala menos para as pessoas que está triste, para baixo. Mas ele vai se queixar mais que está desanimado, indisposto, está cansado, fatigado. Começa a fazer alguma coisa, logo já não se sente tão bem e, então, interrompe. Vai estar mais afastado dos relacionamentos interpessoais, dos afetivos, da família.”

Com a característica de se queixar menos da tristeza, é muito importante prestar atenção a outros sinais apresentados pelos idosos, como começar a se queixar mais da rotina, a se afastar de atividades que antes eram prazerosas, reclamar de dores inespecíficas, problemas de sono e de memória. Até o movimento mais lento pode ser um alerta da depressão.

BUSCAR AJUDA Satler indica que o importante ao identificar um quadro depressivo é procurar um médico. “Um psiquiatra, um geriatra. Porque pode estar relacionado a várias doenças clínicas, como o hipotireoidismo, insuficiência cardíaca, quadros demenciais incipientes. É preciso uma avaliação completa, muito bem feita, por um bom profissional. E, mesmo que o paciente esteja deprimido, ele pode ter outros problemas, que também são importantes, mas que acabam não sendo valorizados, porque, supostamente, se identificou um quadro depressivo”, completa.

Muitas vezes, o tratamento farmacológico nem é necessário. E o fundamental continua ser buscar uma psicoterapia. As duas estratégias, combinadas, podem ser eficazes em casos mais graves. Mas o melhor remédio continua a ser a prevenção e os cuidados com a saúde em geral.

“Depressão é uma doença que afeta a nossa alma, o nosso corpo. O mais importante é se manter ativo socialmente, na família. Continuar produtivo, trabalhando. É essencial acompanhar a saúde cardiovascular. No sentido de se tomar cuidado com a saúde, não tem nada de diferente entre o jovem e o idoso”, conclui Satler.

BEM-ESTAR Projetos de extensão de várias faculdades de Belo Horizonte oferecem cursos para idosos, com o objetivo de promover o bem-estar mental, físico e social dessa parcela da população. Um dos exemplos é a Escola da Maturidade, do Centro Universitário UNI-BH. Aulas como espiritualidade, gastronomia, canto, dança e pilates são oferecidas todos os semestres. Para a Coordenadora de Extensão Universitária e da Escola da Maturidade do UNI-BH, Luciana Freitas Aguiar, essa oportunidade é muito importante para os idosos, que contam com um trabalho de socialização e profissionais capacitados.

“Conhecimento não tem idade. Não se pode parar de exercitar o cérebro. Quanto mais ativo, menos chance de se ter algum problema degenerativo. E sempre é hora de começar”, aponta Aguiar. Além do UNI-BH, a Fumec e o Centro Universitário Estácio têm programas para idosos. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também conta com um projeto de educação física para idosos.



PARA NÃO FICAR PARADO

» UNI-BH
ESCOLA DA MATURIDADE
Informações:
(31) 3319-9500
unibh.br/extensao/escola-da-maturidade

» FUMEC
ESCOLA DA TERCEIRA IDADE
Informações:
(31) 3228-3103
http://www.fumec.br/servicos/sociedade/escola-da-terceira-idade/

» CENTRO UNIVERSITÁRIO ESTÁCIO

PROGRAMA DA MATURIDADE
NA FACULDADE
Informações:
(31) 3298-5257/3298-5260

» UFMG
EDUCAÇÃO FÍSICA PARA A TERCEIRA IDADE
Informações:
(31) 3409-7440/3409-2314

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