Agressividade e preguiça dos pets podem estar relacionadas a variações hormonais

Comportamento desregulado pode ser resultante de problemas na tireoide ou em outras glândulas

por Revista do CB 06/12/2015 12:00

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Arquivo Pessoal
A poodle Lisa foi diagnosticada com a doença por volta dos 10 anos e um dos sinais foi o ganho de peso acompanhado de anemia (foto: Arquivo Pessoal )
Em humanos, a tireoide é uma velha conhecida de quem tenta emagrecer e não consegue. Nos pets, porém, a principal alteração pode ser no temperamento. Localizada no pescoço, a glândula é responsável por produzir e sintetizar hormônios que regulam o organismo, como a tiroxina (T4) e a tri-iodotironina (T3). O funcionamento deficiente dela caracteriza o hipotireoidismo — o nome serve ainda para designar anomalias em outras duas glândulas relacionadas, a hipófise e o hipotálamo.

Algumas raças apresentam predisposição genética para o mal, como golden retriever, dobermann, setter, schnauzer, daschund, cocker spaniel, labrador e beagle. Como não há uma prevenção clara, o melhor caminho é a observação atenta da saúde do animal, além da análise da árvore genealógica. O diagnóstico geralmente ocorre em bichos de meia-idade, de 4 a 10 anos.

O hipotireoidismo canino é dividido em três tipos. No primário, a glândula trabalha abaixo do ritmo ideal ou até mesmo cessa suas atividades. Enquanto alguns casos ocorrem por atrofia do tecido, de origem desconhecida, outras são causadas pelo sistema imunológico do animal. “A tireoidite linfocítica é uma doença de caráter autoimune, em que o próprio organismo do animal combate o hormônio que ela produz”, explica o médico veterinário Rafael Silva.

O tipo secundário consiste na destruição da hipófise por um tumor. Desse modo, a glândula para de produzir o TSH, hormônio estimulante da tireoide. Já o hipotireoidismo terciário é aquele comprometedor do hipotálamo, interrompendo a produção do TRH (hormônio liberador de tireotrofina).

“Existem algumas medicações que têm como efeito colateral reduzir a atividade da tireoide. Se o cão tem uma doença crônica como, por exemplo, epilepsia, o fenobarbital pode interferir”, alerta Rafael Silva. Nesse caso específico, uma saída seria combinar outros remédios para epilepsia, diminuindo a dose do fenobarbital e, consequentemente, os efeitos colaterais. Já a patologista clínica Denise Salgado chama a atenção para o uso de anestésicos, capazes de alterar a produção de tiroxina (T4).

Como a tireoide influencia na saúde de vários órgãos, não existe um sintoma específico que indique a doença. Porém, quando vários deles aparecem em conjunto, a suspeita é levantada. Os sintomas clínicos comportamentais são os primeiros a aparecer, formando um padrão depressivo. Segundo Rafael Silva, o cão passa a apresenta uma expressão facial triste, com pouco interesse por brincadeiras e interação social. “Ele fica apático e dorme muito”, aponta.

Foi o que aconteceu com a cadelinha da bancária Carol Rocha, 33 anos. A poodle Lisa foi diagnosticada com a doença por volta dos 10 anos e um dos sinais foi o ganho de peso acompanhado de anemia. “Ela sempre foi gordinha, parecia um ursinho”, diverte-se Carol. Porém, Lisa sofreu um deslocamento da patela e só poderia realizar a cirurgia após perder peso. A partir daí, a mascote começou a fazer fisioterapia e se alimentar de uma ração especial. Mesmo com as atividades, ela emagreceu apenas 300g. A suspeita foi levantada e, logo em seguida, o veterinário detectou o hipotireoidismo em um hemograma. Lisa começou a medicação e atingiu o peso ideal. “Hoje ela está muito bem”, comemora a bancária.

Um dos efeitos da doença, porém, pode não ser facilmente relacionado à letargia e ao comportamento passivo do pet: a agressividade. A hipófise produz o ACDH, responsável por estimular o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse. No hipotireoidismo terciário, com o prejuízo dessa glândula, o cortisol entra em produção descontrolada e o cachorro torna-se mais propenso a reagir desproporcionalmente a irritações externas. Por isso, encaminhar o bicho para terapias comportamentais, como o adestramento, não surtirá efeito.

Além disso, o sistema reprodutor de machos e fêmeas fica prejudicado com a queda dos hormônios luteinizante (LH) e folículo-estimulante (FSH). Há diminuição da libido e risco de gravidez psicológica, abortos espontâneos, irregularidade no ciclo menstrual, atrofia nos testículos e até infertilidade.

A aparência do animal também é afetada pela doença. O sinal característico é o ganho inexplicável de peso aliado ao aumento do colesterol, pois além do metabolismo trabalhar em ritmo mais lento, o pet não tem vontade de se mover. A pele torna-se mais seca e grossa; os pelos ficam opacos e caem, principalmente no tórax, no abdômen, na cauda e no pescoço. Surgem inflamações semelhantes a espinhas, descamação, manchas e dificuldade de cicatrização. Outros sinais menos comuns são arritmia cardíaca, conjuntivite, paralisia facial e intolerância ao frio.

A demora no diagnóstico traz sofrimento ao melhor amigo. O primeiro passo é o médico veterinário solicitar uma análise do histórico familiar do animal, bem como um hemograma e um panorama dos hormônios. “Estudos revelam que cães com hipotiroidismo frequentemente apresentam concentração de T3 normal, dificultando o diagnóstico de hipotiroidismo com sua mensuração isolada”, aponta Denise Salgado. Ajudam a fechar o quadro radiografias, ultrassonografias e a biópsia das glândulas.

O tratamento geralmente é feito com reposição hormonal, por um composto sintético chamado levotiroxina. A medicação precisará ser ministrada pelo resto da vida do animal. Em pouco tempo, os sintomas são atenuados. É importante que cada caso seja avaliado individualmente, pois a dosagem varia de acordo com o peso e com a gravidade da deficiência hormonal. E, sim, os pets gordinhos precisarão de uma dieta com restrição calórica.

Gatos: suscetíveis a hipertireoidismo
O hipertireoidismo em cães é raro e causado pela formação de tumores tireoidianos por: ingestão excessiva de iodo, exposição à radiação ou mutações genéticas. Em gatos, porém, a atividade excessiva da glândula é comum e até mesmo os exames são diferentes. “Nós fazemos apalpação com a ponta dos dedos na glândula. Em caso de irregularidade, aumento de volume, é pedida uma tomografia da região cervical ou ultrassonografia cervical. Se for detectado algo, é feita uma punção aspirativa, com agulha, para definir se é câncer ou um cisto”, explica o veterinário Rafael Silva. Segundo a patologista clínica Denise Salgado, a dosagem hormonal também é feita de modo diferenciado. “Testes de supressão de T3 são importantes para o diagnóstico do hipertireoidismo felino”, afirma.

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