Técnicas para retirada de tumores no cérebro estão cada vez mais precisas e com risco menor de danos

Microscópio, doppler escâner e aspirador ultrassônico são aliados de peso

por Ivan Drummond 05/12/2015 10:00

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Cirurgias de cabeça são delicadas, principalmente quando se trata de retirada de câncer ou tumor benigno. Nas duas últimas décadas, a neurocirurgia evoluiu no que se refere à tecnologia envolvida nos procedimentos. Até alguns anos atrás, o cirurgião entrava numa operação para retirar um tumor cerebral sem a certeza da extensão da lesão, devido à sua infiltração no tecido cerebral, sendo difícil o conhecimento do seu tamanho. Hoje, com a ajuda da tecnologia, que passou a fazer parte da rotina dos neurocirurgiões, a realidade é outra. Retirar o tumor, diminuindo danos ao tecido do cérebro, evita sequelas e morbidades, além de melhorar as condições do pós-operatório e a qualidade de vida dos pacientes, um avanço e tanto da neurocirurgia moderna.

Os procedimentos mais atuais nessa área da medicina envolvem um grupo específico de equipamentos – um microscópio alemão, um doppler escâner, um aspirador ultrassônico, um neuronavegador e um computador. Até 2012, era inimaginável realizar uma cirurgia como essa em grandes centros brasileiros. No país, ela só ocorriam em São Paulo, ou, como na maioria dos casos, o paciente tinha de viajar ao exterior para realizá-la. Atualmente, essas cirurgias já são possíveis e muitas pessoas são salvas aqui mesmo. Em Belo Horizonte, apenas três instituições de saúde estão equipadas com o rol de equipamentos, avaliado em R$ 600 mil: Socor, Madre Teresa e a Fundação Hemominas.

No caso do Hemominas, no entanto, não são realizados os procedimentos para avaliação de tumores, mas apenas os testes para pacientes diagnosticados com a doença falciforme para avaliação de risco do AVC, disponibilizados pelo sistema público de saúde. Assim, o acesso à cirurgia está restrito à rede privada. 


Um dos médicos que se tornou especialista na cirurgia craniana é o neurocirurgião Sérgio Gonçalves de Oliveira, de 45 anos, diretor clínico do Hospital Socor, além de presidir o centro de estudos e coordenar a Comissão de Residência Médica do Serviço de Neurocirurgia na mesma instituição. “Até 2012, quase ninguém usava esse procedimento. Para aprender a utilizar o equipamento e fazer as cirurgias, fiz cursos em São Paulo. Além do médico, é preciso que um técnico em radiologia participe do procedimento. No meu caso, estou sempre acompanhado por Liliane Resende, de 43”, afirma. Na capital mineira, o Socor começou a usar o doppler transcraniano em 2000, sendo a primeira instituição a instalar uma Unidade de Acidente Vascular Encefálico em Minas Gerais.




Em grande parte dos casos de pessoas que desenvolvem um tumor cerebral, o paciente nem sequer suspeita que tenha o problema. “Tivemos um paciente aqui, que chegou praticamente em coma. E com as informações dos parentes que o acompanhavam, logo suspeitamos de algo no cérebro, por eles terem relatado forte dor de cabeça e vômito. Ele foi submetido a exames de tomografia e ressonância magnética, que confirmaram as suspeitas. Fomos direto para a sala de cirurgia”, relata.

PASSO A PASSO
Para dar início ao procedimento, primeiro é usado o microscópio, que permite à equipe médica localizar a área exata do tumor. Depois vem o neuronavegador. “Esse aparelho é ligado ao computador e, por meio dele, a gente pode fazer uma verificação completa do interior do crânio. Antes, não tinha isso. Agora, conseguimos ter a dimensão exata do tamanho desse tumor”, explica o médico. Um terceiro equipamento é fundamental para o sucesso do procedimento: o aspirador ultrassônico. Segundo Oliveira, o equipamento faz o que antes não se podia fazer. “A gente encosta o sugador no tumor e ele começa a sugar a massa tumoral. Quando o aspirador chega ao cérebro e identifica um tecido diferente, ele para de funcionar sozinho. Imagine que, antigamente, o médico ia cortando, sem saber onde terminava o tumor e começava o cérebro. Era passível de erros, o que causaria outros tipos de problemas. Esse equipamento nos permite também detectar os pontos perigosos, para que não deixemos sequelas no paciente.”

O doppler, por sua vez, é o responsável por detectar o fluxo sanguíneo dentro das artérias do cérebro. “Ele apontará se o fluxo está normal ou se há algum problema a tempo de ser corrigido. Se há indicação de alguma alteração, podemos avaliar a possibilidade de uma transfusão, evitando, assim, um AVC isquêmico, que na maioria dos casos é fatal”, acrescenta o neurocirurgião.



Segundo o médico, não se faz um corte grande na cabeça do paciente. Os aparelhos permitem determinar no tamanho da lesão e a incisão é feita apenas do tamanho necessário. “Tira-se menos tecidos. Atualmente, são quatro os tipos de incisões feitas no crânio (veja arte). Os recursos de hoje permitem isso. Assim, a cirurgia é muito mais segura. A probabilidade de erro é muito pequena, quase inexistente”, diz o médico.

ALERTA
Os sintomas de que algo não vai bem no cérebro, e não necessariamente seja um tumor, são dor de cabeça forte, seguida de vômito. A dor geralmente ocorre em função do aumento da pressão intracraniana. Muitos pacientes que sentem qualquer um desses sintomas procuram um hospital. “Eles entram nas redes sociais em busca de informações sobre os sintomas que estão sentindo e por causa disso acabam vindo consultar”, indica o especialista, que opera, em média, quatro pacientes por mês com esse quadro.



'Estou morto. Não me recordo de nada'
Acordo. Percebo que estou no CTI de um hospital. Chamo a enfermeira e pergunto o que aconteceu. Ela não quer explicar. Vem o enfermeiro chefe. Pergunto se tive um ataque cardíaco. Ele diz que não: meu problema era na cabeça. E fala pra passar a mão do lado direito, que estava raspado. Pergunto o que aconteceu. Ele não responde. Chega o médico e explica que a cirurgia foi necessária para a retirada de um tumor na cabeça. Pensei: “Estou morto”. Aos poucos vêm as recordações. A dor de cabeça tinha se tornado uma constante. Achava que era enxaqueca. Tomava remédio e ela desaparecia. Mas numa festa de aniversário, me recordo de ter vomitado muito, inclusive nas pessoas. A partir dessa cena, nenhuma memória mais. Não me recordo de nada.

Contam que meu filho, chamado para me socorrer, me levou a um hospital, onde o diagnóstico foi problema cardíaco. A pressão estaria alta. Volto pra casa com atestado de três dias. No dia seguinte, meu filho me leva no cardiologista, que me conhece bem. “Não é nada no coração, mas você está confuso. Vamos fazer uma ressonância na cabeça na segunda-feira”, diz o doutor. Isso foi numa quinta-feira e não me lembro de nada. Nem do médico. Nem da resssonância, que seria em alguns dias. Passo a sexta-feira em casa, deitado. No sábado, acordo e chamo meu filho para irmos à pelada, como sempre. Chego ao local do futebol, junto mesas e durmo sobre elas. Todos ficam apavorados com a cena, e meu filho corre comigo para o hospital novamente. Confirmam o diagnóstico anterior: pressão alta e indicam um cardiologista. Meu filho não acredita e me leva até o Hospital Socor. Por sorte, caio nas mãos do neurocirurgião Sérgio Oliveira e sua equipe. Estava desmaiado. Meu filho relata como eu vinha passando, os problemas e que não estava me lembrando de nada. O vômito, a dor de cabeça, tudo combinava. A ressonância e a tomografia confirmam as suspeitas. Resultado: cirurgia longa, 18 dias de CTI e aqui estou, dois anos e meio depois, sem qualquer sequela, trabalhando como se nada tivesse ocorrido.

Repórter da editoria Esportes do Estado de Minas

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