Técnica inédita que inclui tecnologia de impressão 3D separa irmãs siamesas

As americanas Knatalye Hope e Adeline Faith nasceram unidas do peito até a pélvis. Graças ao uso combinado de tomografia computadorizada e impressão 3D, médicos conseguiram preparar e realizar com sucesso a delicada cirurgia de separação

por Correio Braziliense 04/12/2015 10:16

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As gêmeas quando ainda estavam com os corpos unidos: o procedimento médico durou 26 horas e reuniu 12 cirurgiões (foto: Divulgação)
Foi graças a uma combinação inédita de tomografia computadorizada e tecnologia de impressão 3D que gêmeas siamesas nascidas no Texas puderam ser separadas com sucesso, mostrou um estudo apresentado ontem no encontro anual da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA, na sigla em inglês). Os responsáveis pelo procedimento acreditam que a técnica mista pode aumentar as chances de sobrevivência de irmãos que nascem com os corpos conectados.

Estima-se que gêmeos siameses representem um a cada 200 mil nascimentos. A separação é sempre um procedimento muito arriscado porque, frequentemente, as crianças compartilham órgãos e vasos sanguíneos. Ao se depararem com o caso das irmãs Knatalye Hope e Adeline Faith Mata, especialistas do Hospital Infantil do Texas, em Houston, desenvolveram a nova abordagem, que se mostrou bem-sucedida.

As duas meninas nasceram em 11 de abril do ano passado, na cidade de Lubbock, ligadas do peito até a pélvis. “Era um caso raro, devido à extensão da fusão”, afirmou, por meio de um comunicado de imprensa, Rajesh Krishnamurthy, líder do estudo e chefe de pesquisa em radiologia e imagens cardíacas do hospital. “Foi uma das mais complexas separações de gêmeos siameses já realizadas”, completou.

Ao se preparar para a operação, Krishnamurthy e colegas usaram um escâner de tomografia computadorizada para colher imagens volumétricas dos órgãos das garotinhas. Foram administrados contrastes intravenosos em cada uma delas para melhorar a visão das estruturas vitais e, assim, planejar o procedimento de uma forma que o risco de morte foi reduzido ao máximo. O time utilizou, ainda, uma técnica avançada que gera imagens fixas do movimento cardíaco para obter uma visão detalhada da anatomia cardiovascular, sem a necessidade de expor as pacientes a altas doses de radiação. “Os escâneres mostraram que os corações dos bebês estavam na mesma cavidade, mas não estavam fundidos”, revelou Krishnamurthy. “Também detectamos um plano de separação do fígado que os cirurgiões seriam capazes de usar.”

Ensaio
Todas as imagens colhidas foram, então, usadas para a fabricação de um modelo da estrutura esquelética das crianças, fabricado com resina plástica rígida a partir de uma impressora 3D. Os órgãos de Knatalye e Adeline também foram reproduzidos com um material semelhante à borracha. Os fígados, por sua vez, foram impressos separadamente em resina transparente e com a maioria dos vasos sanguíneos marcados em branco para melhor visibilidade. Os moldes foram produzidos de forma que eles poderiam ser usados juntos ou separadamente durante o planejamento. O time cirúrgico estudou as estruturas e ensaiou exaustivamente o que seria feito quando as meninas fossem para a mesa de cirurgia.

Em 17 de fevereiro deste ano, quando as gêmeas tinham pouco mais de 10 meses, elas foram submetidas à delicada operação, que exigiu a participação de 26 especialistas, sendo 12 cirurgiões, seis anestesiologistas e oito enfermeiras cirúrgicas. Todos os procedimentos consumiram 26 horas de trabalho ininterrupto.

Os modelos tridimensionais se provaram uma excelente fonte de informação, pois não havia grandes discrepâncias entre as peças e a real anatomia das gêmeas. “Os cirurgiões encontraram os pontos principais do fígado, do coração e dos órgãos pélvicos como nós tínhamos descritos”, disse Krishnamurthy. “A concordância foi quase perfeita.”

O especialista espera que a combinação de tomografia volumétrica e impressão 3D se torne uma parte padrão da preparação para cirurgias de separação de gêmeos siameses, embora ainda existam algumas barreiras que precisam ser vencidas. “A tecnologia de impressão tridimensional avançou consideravelmente, e os custos estão caindo. O que ainda é limitador é a falta de reembolso desses serviços, que, atualmente, não são reconhecidos pelas companhias de seguro de saúde. Então, agora, os hospitais estão bancando os gastos”, apontou.

Além de ajudar médicos a se prepararem para cirurgias, os modelos 3D cumpriram outra importante função: ajudar os pais das gêmeas, Elysse e John Eric Mata, a entenderem o processo ao qual as meninas seriam submetidas. “Quando mostrei à mãe o modelo e expliquei o precedimento, ela segurou minha mão e me agradeceu. Ela disse: ‘Pela primeira vez, entendemos o que vai acontecer com nossos bebês’”, relatou Krishnamurthy. Knatalye Hope recebeu alta e voltou para casa em maio, e a irmã dela, Adeline Faith, a seguiu um mês mais tarde. A família criou uma página no Facebook (Helping Faith & Hope Mata), onde é possível acompanhar o progresso das meninas e obter informações sobre como ajudá-las.

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