Longevidade sem segredos: para viver mais e melhor é preciso começar a cuidar desde cedo

Aumento da população idosa brasileira reforça a necessidade de hábitos saudáveis desde a primeira infância para usufruir da saúde em todas as fases

por Carolina Cotta 02/12/2015 14:30

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Leandro Couri/EM/D.A Press
A cardiologista Christiane Guilherme Bretas, da Unimed-BH: É preciso, o tempo todo, mostrar aos pacientes o quanto o cuidado é importante (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Cinquenta e sete por cento dos brasileiros com mais de 18 anos estão acima do peso; 6,2% têm diabetes e 21,4%, hipertensão. Os que têm colesterol alto já somam 12,5% da população adulta; 1,8% têm câncer e 7,6% receberam diagnóstico de depressão por profissional de saúde especializado em doenças psiquiátricas. Para agravar as estatísticas, 24% ingerem álcool, 46% são insuficientemente ativos e 15% fumam. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Ministério da Saúde. Esse é o retrato mais recente da saúde dos brasileiros, mas, por trabalhar com a percepção das pessoas sobre sua condição, eles sugerem que o cenário seja ainda pior.

Os números de nossas doenças crônicas e do nosso descuido com a saúde só sobem. Paradoxalmente, nossa expectativa de vida também. A cada ano, vivemos de três a quatro meses mais. A tecnologia e os avanços na medicina contam, assim como uma maior conscientização sobre a importância de promover cuidados e prevenir doenças. Mas falta muito para que tudo caminhe como realmente deve ser: doenças em queda, expectativa de vida em alta. Para ter saúde na velhice, na meia-idade, na adolescência e mesmo na infância, é preciso investir hoje para usufruir também no futuro. Mas não há receitas mágicas. Saúde exige investimento, mas também um pouco de sorte, ou pelo menos uma herança mais favorável.

Para o doutor em envelhecimento e saúde pública Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade no Brasil, da Aliança Global dos Centros Internacionais da Longevidade e ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS), envelhece bem quem acumula, durante toda a vida, quatro capitais: saúde, conhecimento, rede de relações e dinheiro. Quando se tem tudo isso é porque se juntou tudo o que era importante para participar integralmente da sociedade. “As pessoas estão chegando aos 70 anos com a percepção de que tudo isso é importante e estão começando a dizer para os mais novos que eles precisam se virar para também chegar bem aos 70”, acredita o especialista.

Muitos chegarão bem à maturidade, outros não. Alguns não conseguirão por ter uma carga genética determinante de uma doença crônica, ou porque foram pobres por toda a vida, ou porque tiveram uma personalidade que não promoveu as relações sociais. Mas para Kalache, os que chegam bem, necessariamente, são os que tiveram boas oportunidades desde o início e investiram no futuro. “Aquele que teve menos acesso durante toda a vida vai envelhecer pior, a não ser que tenha uma personalidade tão excepcional que lhe permita dar a volta por cima”, acredita o especialista, segundo o qual a revolução da longevidade está sendo protagonizada por uma geração de pessoas com mais de 60 anos que conseguiu, lá atrás, se preparar para a vida, e não para a velhice.

Citando Jane Fonda, Kalache compara a vida a uma peça de teatro de três atos. “Só no último os eventos do primeiro e do segundo ato começam a fazer sentido”, reflete. Como, então, garantir qualidade de vida e saúde hoje e depois? “Se quero chegar bem aos 70 anos, preciso caprichar agora para ter os quatro capitais e gozar de vida plena no futuro. Sem saúde, não só o envelhecimento, mas a vida como um todo, é muito difícil”, sugere. É fato que à medida que envelhecemos aumentam os riscos das doenças crônico-degenerativas. Se com o passar dos anos se soma uma vida marcada por fumo, sobrepeso e consumo de álcool, os riscos aumentam. “Mas se você controlar seu estilo de vida, caprichar no peso, for mais ativo e comer melhor, é possível chegar lá.”

PREVENÇÃO Algumas doenças são evitáveis, outras não. Segundo a cardiologista Christiane Guilherme Bretas, gestora de Atenção à Saúde da Unimed-BH, enquanto a incidência de alguns tipos de câncer é provocada por tabagismo e hábitos alimentares, em outros tipos ela é promovida por questões genéticas. “Nesses, temos que trabalhar com a detecção precoce para maiores chances de cura.” A maioria das doenças cardiovasculares é evitável, exemplo do infarto e angina, com boa alimentação e exercícios físicos regulares, mas também existe um percentual de pacientes que as desenvolvem por uma questão genética. “Por mais que ele esteja com o peso recomendado, fazendo exercícios físicos e controlando o colesterol, ainda assim pode vir a ter complicações”, diz.

Mas não é fácil sensibilizar as pessoas sobre a importância de cuidar da saúde desde cedo, para ter benefícios no futuro. “Muitas vezes, valorizamos as coisas apenas quando as perdemos. Por isso, é preciso, o tempo todo, mostrar aos pacientes o quanto o cuidado é importante.” A receptividade e a adesão à proposta dependem da sensibilidade e até mesmo das experiências de cada um. Conviver com amigo ou parente que tem alguma doença, por exemplo, torna a pessoa mais suscetível a adotar hábitos mais saudáveis e que possam evitar doenças. “Temos, no ano, 8.760 horas e ficamos de uma a duas com o médico. Na consulta, temos que sensibilizar os pacientes de um modo que durante todo o ano ele se lembre das orientações”, pondera Christiane.

Segundo a médica, hoje o objetivo é mostrar às pessoas que o autocuidado é importante e que elas não podem depender dos outros. “Principalmente quando estão mais jovens, as pessoas se sentem invencíveis, acham que não terão qualquer tipo de doença. Assim, não se preocupam em adotar hábitos saudáveis. A preocupação vem mais tarde e, muitas vezes, tarde demais. Assim se corre o risco de desenvolver doenças que poderiam ser prevenidas com hábitos bem simples, adotados desde cedo”, alerta. Mas sempre é hora para começar. A interrupção do tabagismo, por exemplo, é uma das ações de maior impacto para ser mais saudável. Em pouquíssimo tempo o organismo começa a reagir positivamente.

Participação da família e da escola
A educação nutricional e o estímulo aos exercícios físicos e às atividades lúdicas em ambientes abertos, que podem ser definidores de mais ou menos saúde, devem começar cedo, na infância. Para a endocrinologista Flávia Pieroni, responsável pelo Setor de Obesidade Infantil do Instituto Mineiro de Endocrinologia, esse cuidado pode e deve ser exercido tanto pela família quanto pela escola.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
A endocrinologista Flávia Pieroni orienta a paciente Gabriela Dias, de 10 anos. Para ela, as crianças têm doenças de adultos porque estão tendo maus hábitos de adultos (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
“A inserção do tema da saúde no ambiente escolar, espaço de convivência social entre semelhantes, ajuda na educação para escolhas seguras e saudáveis. Deve-se também conscientizar as crianças e adolescentes a terem uma visão crítica sobre tudo com o que entram em contato, caso das propagandas, pois as crianças influenciam, e muito, as decisões de consumo das famílias. Mas, sem dúvida, o exemplo é a melhor estratégia de educação. E esse exemplo deve vir de todas as esferas de convivência da criança: pais, educadores e cuidadores”, defende.

Para a especialista, as crianças de hoje não são menos saudáveis, mas enfrentam problemas diferentes das crianças do passado, que sofriam com desnutrição e doenças infectocontagiosas e relacionadas às más condições de saneamento básico. Com a maior oferta de alimentos industrializados e congelados, ricos em gorduras e açúcares, aliada ao menor tempo disponível dos pais no preparo dos alimentos, o maior problema é a obesidade e suas comorbidades associadas.

Junta-se a isso o menor gasto energético dos pequenos, cada vez mais envolvidos com a informatização e mais enclausurados pela violência urbana. A diminuição dos espaços públicos, devido à urbanização, a maior utilização de veículos automotivos e as comodidades oferecidas pela modernidade também contribuem para o aumento do acúmulo de gordura corporal. E a obesidade traz consequências sérias e precoces às crianças e adolescentes.

“Elas estão tendo doenças de adultos porque estão tendo maus hábitos de adultos. Precocemente, já estão diabéticas, hipertensas, com problemas psicológicos e autoestima em baixa, alterações do sono e com níveis elevados de colesterol e triglicérides. O impacto disso são adultos-jovens com maior morbimortalidade e menor capacidade laborativa. Sem dúvida, a prevenção é o melhor caminho para a obesidade infantil. E cuidar desde cedo da alimentação e dos bons hábitos de vida permite à criança crescer saudável e feliz.
Herança para os filhos


Alice Helena Dias Neves de 36 anos, mãe de Gabriela, de 10 anos

A engenheira civil Alice Helena Dias Neves percebeu a importância de não protelar os cuidados com a saúde. A filha Gabriela, de 10 anos, apesar da atividade física, não estava conseguindo perder peso, motivo pela qual a professora da academia sugeriu que ela procurasse um médico para saber se era alguma disfunção hormonal. Na endocrinologista, foi constatada obesidade leve e um risco para o diabetes. Alice percebeu que precisava ajudar a mais velha dos seus três filhos. E os outros, consequentemente. “Gabriela sempre esteve dentro da curva de crescimento esperada pra sua idade, mas, a partir dos 9, começou a ganhar peso. A preocupação inicial era com a saúde. Queríamos entender se tinha algum problema associado provocando a obesidade, mas quando vimos que não havia qualquer disfunção percebemos que é um problema de estilo de vida ou comportamental. Decidimos cuidar disso para que ela consiga ter uma vida saudável”, conta. A rotina da família começa a mudar. “Se meu filho come mal a culpa é minha. Sempre me preocupei com a saúde dos meus filhos, mas não tinha orientação. Achava que estava fazendo certo, mas estava errando. Não sabemos o que será dos filhos da gente lá na frente. Então, o que podemos fazer é garantir que, hoje, eles tenham saúde, e promover cuidados para que tenham saúde no futuro também. Se essas mudanças na rotina vai deixá-los mais saudáveis, evitando possíveis doenças, então vai ser minha herança pra eles.”

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