Para além do 'desliga isso aí': Academia Americana de Pediatria vai rever recomendação do tempo de TV para crianças

A atual é de que menores de 2 anos não tenham nenhum contato com a tecnologia

por Valéria Mendes 24/11/2015 09:50

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(Soraia Piva / EM / D.A Press)
Para o pediatra e homeopata Moises Chencinski "qualquer um que observa as crianças nos dias de hoje, a última coisa que elas e seus pais precisam é de permissão para usar a tecnologia mais do que estão usando" (Ilustração: Soraia Piva / EM / D.A Press) (foto: (Soraia Piva / EM / D.A Press) )
São esperadas para 2016 novas orientações da Academia Americana de Pediatra (AAP) sobre o tempo de tela (televisão, computador, games, celular e tablets) recomendado para crianças e adolescentes. Atualmente, a sugestão é que crianças menores de 2 anos não devam ter nenhum contato com tecnologia e, acima dessa idade até a adolescência, duas horas por dia no máximo. A expectativa é de que as novas orientações flexibilizem a quantidade de tempo e acrescentem critérios qualitativos que vão além da quantidade de horas em frente aos aparelhos eletrônicos.


Presidente do grupo que investiga o uso de mídias na infância da AAP, Ari Brown concedeu entrevista a uma emissora de televisão norte-americana em que afirmou que o anúncio oficial é esperado para o outono do ano que vem (primavera no Brasil), mas que, antes disso, a entidade gostaria que as famílias soubessem que “novas orientações estão vindo por aí”. A proposta é que esse tempo de tela seja aumentado em razão de o acesso às novas tecnologias estar cada vez mais inserido nos contextos familiares. A decisão da AAP vai impactar não apenas os Estados Unidos, mas outros países que seguem os protocolos da entidade americana, como é o caso do Brasil.

Para além da vilanização das telas – já que uma série de estudos tem relacionado o aumento da obesidade infantil, ansiedade, mal desempenho escolar e dificuldade para dormir com o tempo excessivo que as crianças e adolescentes gastam com tecnologia -, o pediatra da AAP que também é autor do livro Beyond ‘turn it off: How to advise families on media use (ou, em tradução livre Além do ‘desliga isso aí’: Como aconselhar as famílias sobre o uso de mídias), Ari Brown reforça a importância de meninos e meninas terem zonas livres de telas e cita a mesa de refeições e o quarto como exemplos.

O especialista norte-americano defende que nem todo uso de mídia é igual em termos de prejuízos ao desenvolvimento. Brown considera que é importante avaliar a qualidade do conteúdo, a adequação para a idade, o caráter educativo (ou não) e se esse consumo de conteúdos digitais é acompanhado de um adulto. Segundo ele, quando existe a interação entre pais, mães, crianças e adolescentes diante de telas a atividade cerebral é semelhante à de uma atividade fora delas por envolver, entre outros aspectos, a sociabilidade. Assim, as famílias devem fazer o “dever de casa” de conhecer e testar os conteúdos que vão oferecer às crianças. “Para ser educativo não basta se anunciar como tal”, alerta Brown.

Se as telas fazem parte da vida contemporânea, a supervisão qualificada e o olhar atento parecem ser a chave para encontrar o equilíbrio entre tecnologia e infância/adolescência. Diretor da Sociedade Mineira de Pediatria, Cassio da Cunha Ibiapina lembra que são várias as sociedades de pediatria no mundo que seguem a AAP. Dessa forma, a mudança na orientação do tempo de tela vai gerar debate por aqui. “Mesmo aumentando esse tempo nunca existirá um protocolo padrão que vá se adequar a toda criança ou adolescente. Se o caso é de um menino ou de uma menina que consegue cumprir suas tarefas escolares, que consegue se sociabilizar bem e conviver com as pessoas, que é ativo fisicamente, duas horas por dia de televisão, internet ou game em termos de lazer não é prejudicial. No entanto, em muitos casos só será possível liberar o contato com tecnologia aos finais de semana”, afirma.

Para ele, a individualidade importa mais do que protocolos e a palavra que deve guiar o tempo que cada criança pode ficar diante das telas é ‘prejuízo’. “O desafio é encontrar em cada criança o tempo que não vai prejudicá-la em nenhum aspecto da vida”, reforça. Segundo ele, não se pode desconsiderar nessa discussão os benefícios do contato com a tecnologia tanto na infância quanto na adolescência. “Muitos games, por exemplo, têm tutoriais em outras línguas. Quem sabe não teremos jovens adultos sem dificuldade para aprender um novo idioma. Independentemente da mudança que será proposta pela AAP, nada substitui a relação entre família, criança e pediatra para encontrar a orientação que atenderá à especificidade de cada um”, pondera.

A falta de controle parece realmente ser o ponto central da discussão. No caso específico de games, um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, concluiu que os adolescentes que jogam durante menos de uma hora por dia são mais bem ajustados socialmente. Aqueles que passam entre uma e três horas não colhem benefícios nem prejuízos com a experiência, mas já os que ficam por mais de três horas tendem a ter problemas de satisfação com a vida e com a externalização dos problemas. “Comparado a quem não joga, os que passam menos tempo em frente às telas têm mais atitudes altruístas, facilidade em problemas emocionais e menos problemas de conduta”, explicou Andrew Przybylski, chefe do estudo, publicado na revista Pediatrics.

Controvérsia
Pediatra, homeopata e membro do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo, Moises Chencinski não concorda com a revisão da AAP. “Supor que as diretrizes precisam ser alteradas porque elas não estão em sintonia com o uso atual da tecnologia é semelhante a aumentar o que é considerado uma boa quantidade de açúcar porque as crianças estão consumindo mais açúcar hoje do que em gerações anteriores. Os tempos mudam, o que é saudável para as crianças não”, afirma.

O pediatra diz que não existe dúvida de que a tecnologia pode desempenhar um papel positivo na vida das crianças, no entanto, para Chencinski, “qualquer um que observa as crianças nos dias de hoje, a última coisa que elas e seus pais precisam é de permissão para usar a tecnologia mais do que estão usando. Na maioria das vezes, as crianças passam horas e horas na frente das telas sem realizar nenhuma atividade educacional ou social”. Para ele, a AAP deveria “ficar calcada no princípio do que é melhor para as crianças, mesmo que o princípio não esteja em plena sintonia com a modernidade”.

Arquivo Pessoal
Raquel Franco conseguiu que o filho Henrique, 6 anos, ficasse sem contato com as telas nos primeiros dois anos de vida. Desafio será maior com o pequeno Antônio, 4 meses (foto: Arquivo Pessoal)
Por mais que seja difícil pensar em crianças e adolescentes desconectados nos tempos atuais, algumas famílias têm conseguido frear o acesso à tecnologia principalmente das crianças que ainda não estão na escola ou creche. É o caso do primeiro filho de Raquel Franco, 28 anos, estudante de design gráfico. Henrique, hoje com 6, passou os dois primeiros anos de sua vida longe dos desenhos infantis e de jogos em celular. “Eu e meu marido sempre fomos ligados em tecnologia. A decisão que a gente tomou nos primeiros anos de vida do Henrique foi apenas ligar a televisão quando ele dormia. A gente se educou também e foi ótimo. À medida que ele crescia, pessoas próximas começaram a se incomodar e achar a nossa decisão um exagero. A família queria presenteá-lo com DVDs infantis, mas acabou respeitando nossa decisão”, conta. Henrique foi para a escola quando já tinha 3 anos, fato que também contribuiu para afastá-lo das telas e, segundo a mãe, até hoje assiste muito pouco.

Agora, com a chegada de Antônio, 4 meses, a intenção de Raquel continua sendo a de não colocar o caçula em contato precoce com a tela. No entanto, Henrique já tem seus desenhos preferidos e tem seu tempo reservado de lazer com a televisão. “É comum ele passar um dia inteiro sem assistir nada. Quando quer ver algo na tevê nem preciso pedir a ele que desligue porque ela já toma essa decisão sozinho”, relata a mãe.

Raquel Franco diz, entretanto, que no final da gestação do segundo filho, quando ela já estava mais desanimada, foi a época que Henrique mais ficou em frente à tevê. “Nessas ocasiões de muito tempo na tevê, eu me lembro de o Henrique ficar com o sono mais agitado”, relata. A mãe garante que o filho não é privado de conhecer nada e afirma que, em ocasiões fora de casa, ela e o pai incentivam o garoto a ser um ser social. “Se acontece de ele pedir o celular para se distrair a gente tenta adiar o máximo, mas quando percebemos que ele se cansou, cedemos”, diz. No caso do Antônio, ela diz que o filho já está exposto ao barulho da tevê e acredita que será mais difícil de controlar o contato com as telas.

Quinho / EM / D.A Press
Um grande desafio na mediação de horas de tela é compensar a falta de tempo dos adultos com a tecnologia (Ilustração: Quinho / EM / D.A Press) (foto: Quinho / EM / D.A Press)


Tecnologia e ansiedade

Tema de seu 35º livro intitulado Ansiedade - Como Enfrentar o Mal do Século, o psiquiatra Augusto Cury afirma que o excesso de informação a que todos nós estamos submetidos atualmente acarreta a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Pesquisador do cérebro humano há mais de 30 anos, a doença foi descoberta por ele e, segundo o autor, é comumente confundida com a hiperatividade. Em sua obra, o especialista alerta para o fato de que as crianças e os adolescentes estarem sendo saturados de conteúdo, seja pelo excesso de uso de smartphones e games, mas também pelas atividades diárias. O psiquiatra defende que esse “bombardeio de informações” gera uma sociedade ansiosa, que sofre por antecipação e se torna vítima da SPA.

Arquivo Pessoal
Sem televisão em casa, a meta de Karllen Louise Santos é manter Vitor afastado das telas até os 3 anos (foto: Arquivo Pessoal )
O livro de Augusto Cury e a própria experiência com o acesso irrestrito ao computador e à televisão na infância motivaram a decisão de Karllen Louise Santos, 22 anos, a adiar ao máximo o contato de seu filho Vitor, 6 meses, com a tecnologia. “Quando engravidei, mesmo sendo uma gestação inesperada, fui em busca de leituras que pudessem me ajudar na condução da educação do Vitor. Conheci o trabalho de Ausgusto Cury que fala sobre tecnologia e as novas gerações e cita a ansiedade como o mal do século 21. Eu fui criada na tecnologia e sou muito ansiosa, tenho Síndrome do Pânico. Aos 7 anos, por conta de passar muitas tempo em frente ao computador, vi um conteúdo que meu pai acessou e fui exposta à pornografia muito cedo. Passei a minha adolescência viciada em pornografia. Superei o problema, mas não quero correr o risco de que isso aconteça com o meu filho”, relata.

Em 2014, a Public Health England, agência responsável por definir os parâmetros do sistema de saúde público britânico, mostrou que crianças que passam muito tempo na internet estão desenvolvendo problemas de saúde mental. O relatório afirma que aquelas que passam mais de quatro horas conectadas diariamente são as mais suscetíveis a desenvolverem depressão, ansiedade e baixa autoestima.

Sem televisão em casa, a meta de Karllen é manter Vitor afastado das telas até os 3 anos. “Não é fácil. No primeiro mês de vida, meu marido colocou um vídeo para o Vitor ver no celular. Nós conversamos e ele tem me apoiado nessa decisão. Quando estou brincando com ele, meu celular não está comigo. Com o tempo vai ficar mais difícil, mas enquanto eu puder, vou evitar”, considera.

Outro fator que não deve ser desconsiderado nessa discussão é a sobrecarga de trabalho doméstico e cuidado com os filhos que ainda recai sobre as mulheres. Dessa forma, não é raro que uma mãe precise colocar a criança para assistir a um desenho enquanto prepara o jantar da família. Por essa razão, Ari Brown diz que nenhum pai ou mãe deve se sentir culpado de suas escolhas, mas que é importante que sejam decisões conscientes sobre o uso de telas por crianças e adolescentes.

Para ele, a mensagem geral é a de que enquanto a tecnologia muda o tempo todo, a maternidade e a paternidade não. Assim, “é importante estabelecer limites, ensinar bondade e estar envolvido na educação dos filhos”, declarou ainda na entrevista concedida à CNN. Para ele, nada disso muda em razão de novos aplicativos ou dispositivos que as crianças estão usando. O médico disse também que os pais nunca devem parar de ouvir suas crianças e, da mesma forma que querem conhecer os amigos de seus filhos, devem saber o que as crianças e adolescentes estão acessando ou vendo na tevê ou na web.

Psiquiatra e professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Tânia Mourão afirma que a ciência já demonstrou que o excesso de tecnologia pode ativar o sistema de recompensa cerebral que vai fazer com que a criança ou o adolescente procure cada vez mais e mais por aquilo. “Esse é o lado danoso porque meninos e meninas podem desenvolver um vício. No entanto, não se pode negar as mudanças do mundo e querer que uma criança exista longe de toda a tecnologia disponível”, pondera.

A especialista diz que a interação com outra pessoa, independentemente da idade, é sempre mais rica do que a mediada por uma tela, mas negar o mundo digital é privar crianças e adolescentes, inclusive, de informação. “Brincar com o outro é importante, mas uma criança se sentar no colo da mãe e se divertir com um videogame não é, por si só, prejudicial. Pode ser, em caso de excessos e alguns sinais podem ser percebidos pelas famílias, caso a criança ou o adolescente demonstre irritação ou ansiedade por estar ‘desconectato’. A tecnologia não pode privar as experiências de interações sociais”, observa.

Para ela, um grande desafio na mediação de horas de tela é compensar a falta de tempo dos adultos com a tecnologia. Tatiana Mourão afirma, entretanto, que cada vez mais as famílias estão se abrindo para discutir e refletir sobre o espaço da tecnologia na vida dos filhos. A psiquiatra que é membro da International American Psychiatric Association reforça que a revisão de protocolos e recomendações de entidades e sociedades é comum de tempos em tempos. “Toda diretriz é sustentada em contexto sociocultural”, destaca.

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