Aedes é alvo para conter casos de zika e microcefalia

Mosquito que também transmite a dengue é vetor do vírus que pode estar relacionado aos 399 casos de microcefalia registrados no Nordeste e à doença que há décadas vem assustando o país no verão

por Gustavo Perucci 19/11/2015 09:20

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O Ministério da Saúde (MS) realiza, na próxima semana, reunião com representantes das secretarias de Saúde de todos os estados para discutir estratégias contra o Aedes aegypti, que transmite, além da dengue, o vírus chikungunya, a febre do Nilo e o vírus zika, que é suspeito de estar relacionado aos casos de microcefalia que se alastraram no Nordeste do país. O ministro da Saúde, Marcelo Castro – que nesta quarta-feira (18/11) pediu cautela aos casais que planejam engravidar com o intuito de alertá-los sobre esse súbito aumento de casos da malformação fetal –, argumentou que, como não há literatura sobre o assunto, é preciso ter cautela para afirmar de forma categórica que o aumento de casos é fruto da infecção pelo zika. “Qualquer que seja a hipótese, o cenário é gravíssimo”, disse Castro.

O zika vírus chegou ao país este ano, provocou epidemia no Nordeste e já está presente em 14 estados, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo. Ele é transmitido pelo mesmo vetor da dengue – que até outubro fez 693 óbitos no Brasil –, o Aedes aegypti, mosquito que tem seu ápice de reprodução durante o verão, um complicador para o Brasil, que há décadas vem tentando combatê-lo.

Com a confirmação feita pelo Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) da presença do genoma do zika vírus no líquido amniótico de duas gestantes da Paraíba, o ministro recomendou aos casais que pensam em engravidar neste momento a reavaliar a decisão. E sentenciou: “Sexo é para amadores, gravidez é para profissionais”. Se houver a gravidez, o ideal é que todos os cuidados sejam tomados, durante toda a gestação.

Até o momento, foram notificados 399 casos de microcefalia em recém-nascidos de sete estados da Região Nordeste. Primeiro a identificar o aumento de ocorrências, Pernambuco já registrou 268 diagnósticos. Em 2014, foram 12, um número quase 22 vezes maior. Em seguida, aparecem Sergipe (44), Rio Grande do Norte (39), Paraíba (21), Piauí (10), Ceará (9) e Bahia (8). A maior parte dos casos foi identificada nos últimos três meses.

Arte: EM / D.A Press
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SINTOMAS
Não há ainda como afirmar a causa do problema, mas a maior suspeita é a de que o súbito aumento tenha sido provocado pela infecção por zika vírus da mãe, no período da gestação. Isso porque cerca de 80% das gestantes apresentaram nos primeiros meses febre, coceiras e manchas pelo corpo, sintomas da presença do vírus no organismo humano. Mesmo sendo um achado científico importante para se entender a infecção do vírus zika nos seres humanos, sua presença no líquido amniótico dos dois fetos analisados – fato divulgado na segunda-feira pelo MS –, não é suficiente para estabelecer a relação com os casos de microcefalia. O isolamento do vírus nos bebês com a malformação no crânio usou três metodologias. O resultado será usado para nortear outros exames e, com isso, comprovar ou descartar a associação da malformação e o vírus zika.

Caso comprovada a relação entre a microcefalia e a infecção vertical (mãe-bebê) do zika vírus, Marcelo Castro afirmou haver risco de surtos da malformação em outros estados brasileiros e em outros países. Desde 11 de novembro, o Ministério da Saúde decretou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional. Diante do avanço dos números, o ministério tornou compulsória a notificação de casos da malformação em todo território nacional. O protocolo para identificação de bebês com o problema, desenvolvido em Pernambuco, deverá ser usado em todo o país.

Questionado pelo Estado de Minas sobre uma possível contaminação das gestantes por outros vírus ou bactérias, radiação, água contaminada por metais pesados ou eventual vazamento de produtos químicos nos estados do Nordeste, o MS informou que todas as possibilidades estão sendo investigadas. “A investigação desses casos está sendo realizada pelo ministério de forma integrada com as secretarias estaduais e municipais de Saúde, com o apoio de instituições nacionais e internacionais. Comitês de especialistas apoiarão o MS nas análises epidemiológicas e laboratorial, bem como no acompanhamento dos casos”, disse a pasta.

OMS

Em visita ao Brasil, a diretora da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, afirmou que a entidade está acompanhando de perto a investigação em curso no país. “Apesar do achado de ontem (17) ser de grande importância, é preciso continuar o trabalho. A ligação entre a microcefalia e o zika ainda não está determinada”, disse ela, se referindo aos testes de cordão umbilical. A diretora da OMS considerou incomum o aumento de casos da doença no Brasil e avaliou que o país está tomando todas as ações necessárias.

Pré-natal
O ministério reforçou também que, além das investigações epidemiológicas de campo, como revisão de prontuários e outros registros de atendimento médico da gestante e do recém-nascido, entrevistas com as mães por meio de questionário e investigação laboratorial e exames de imagem como a tomografia computadorizada de crânio estão sendo realizadas nos estados onde há casos de microcefalia registrados. “Reforçamos às gestantes que não usem medicamentos não prescritos pelos profissionais de saúde e que façam um pré-natal qualificado e todos os exames previstos nesta fase, além de relatarem aos profissionais de saúde qualquer alteração que perceberem durante a gestação”, diz o MS.


Ana Maria Bispo, virologista e pesquisadora do Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz

1) Com o início do ano se aproximando, período em que os casos de dengue aumentam no Brasil, qual o risco de o vírus zika se espalhar pelo país?
No caso do vírus zika, para o espalhamento, são necessários três fatores: o vírus, o mosquito transmissor e pessoas suscetíveis à infecção. Nos locais onde essas situações ocorrem simultaneamente, o espalhamento é possível.

2) O genótipo do vírus encontrado nos exames recentes é asiático. Esse genótipo segue o dos casos de infecção pelo vírus que ocorreram no início do ano no Brasil?
É o mesmo genótipo que tem sido verificado em circulação na maior parte do Brasil e em vários outros países onde houve registros recentes de casos do vírus zika.

3) Quais os próximos passos da pesquisa? Há algum prazo para algum resultado da relação entre o vírus e os casos de microcefalia?
Estamos atuando em atividades de pesquisa para ajudar a gerar conhecimentos novos sobre o vírus zika que possam colaborar para a saúde pública no país. Os dados atuais não permitem correlacionar diretamente, de forma causal, a infecção pelo zika com a microcefalia. Tal entendimento se dará por estudos coordenados pelo Ministério da Saúde e outras instituições de saúde que investigam as causas de microcefalia no país.

(Colaborou Cristiana Andrade)

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