Abordagens alternativas podem ser opção para o tratamento do autismo

Especialista questiona os tratamentos à base de remédios alopáticos convencionais

por Revista do CB 19/11/2015 13:00

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Zuleika de Souza / CB / D.A Press
A pequena Laura respondeu muito bem ao método Dias-Presotti: suspeita de autismo foi afastada (foto: Zuleika de Souza / CB / D.A Press)
O transtorno do espectro autista engloba dos autismos clássicos — do leve ao severo — até a síndrome de Asperger. Os diagnósticos do espectro envolvem o comprometimento na interação social (com dificuldade em demonstrar e reconhecer sentimentos), a afeição por rotinas, a aversão a barulho, entre outros. Ocorrem também os comportamentos repetitivos e brincadeiras não funcionais, como enfileirar objetos e girar rodas dos carrinhos. Esses foram alguns dos comportamentos apresentados pelo filho de Wanessa Silva, 33 anos.

“Ele chorava em trocas de ambiente, evitava contato visual, tinha fixação por luzes e não brincava de maneira funcional”, conta a servidora pública. Com 2 anos e 4 meses, ele ingressou na Estimulação Precoce, um programa da Secretaria de Educação do Distrito Federal em que crianças com algum tipo de necessidade especial recebem acompanhamento duas vezes por semana. No horário oposto, ele frequentava uma escola particular, que, segundo Wanessa, não tinha preparação específica para receber autistas, mas foi muito atenciosa e inclusiva. Aos 6 anos, ele foi para uma turma de Integração Inversa na rede pública de ensino, formada por outras 13 crianças acompanhadas de uma professora e monitores. O objetivo dessas turmas é promover a inclusão com crianças neurotípicas sem negligenciar o tratamento diferenciado.

Uma das diferenças da síndrome de Asperger é a presença de talentos acima do comum. A professora Ana Paula Golias, 33 anos, acredita que as próprias particularidades do autismo incentivam o desenvolvimento de habilidades. “Eles não têm comunicação e vão na tentativa e erro até conseguir”, supõe. Até o momento, o filho dela, Leonardo Golias, 3, não apresentou nenhuma habilidade especifica. Como Wanessa e Ana Paula, muitos pais de autistas tentam amenizar os sintomas comunicacionais e o sofrimento físico com terapias complementares, que têm apresentado bons resultados e sido repassadas nos círculos sociais de apoio aos familiares.

Leonardo tem uma rotina de alimentação especial. Ele é bem sensível em relação a sabores — não gosta de açúcar, por exemplo — e faz as refeições em um método semelhante ao baby-led-weaning (desmame realizado pelo bebê), em que a criança tem autonomia para comer sozinha e apalpar os alimentos crus, fora do horário de refeições. Isso evita que alimentos sejam rejeitados antes de serem provados. Além disso, ele deixou de consumir leite há dois meses. A dieta aplicada por Ana Paula e outras mães tem algum respaldo científico. O microbiologista americano Sydney Finegold, professor da Universidade da Califórnia, fez um experimento com doze crianças e descobriu que a bactéria Clostridium é abundante no intestino de autistas. Essas bactérias produzem ácido propiônico, um conservante usado em produtos industrializados como bolos, pães e queijos — alguns dos alimentos evitados pelos pacientes.

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Kalcker acredita que o segredo do autismo pode ser o desequilíbrio da flora intestinal (foto: Zuleika de Souza / CB / D.A Press)
Wanessa Silva relata que seu filho fica muito agitado após comer pizza. No estudo de Finegold, ao tomarem o único antibiótico capaz de combater a Clostridium, as crianças tiveram redução significativa ou desaparecimento de sintomas relacionados ao autismo, como o andar na ponta dos pés e as dificuldades sociais. Ao interromper o uso do antibiótico, todos os sinais retornaram. O mesmo resultado foi observado em testes laboratoriais com ratos que receberam o ácido propiônico. O caminho medicamentoso, porém, pode não ser a solução do autismo. A comunidade acadêmica não recomenda o uso indefinido de antibióticos. Sabe-se que a bactéria produz esporos muito resistentes e, portanto, pode retornar tão logo o remédio é suspenso.

Uma descoberta acidental
O biofísico alemão Andreas Kalcker questiona os tratamentos à base de remédios alopáticos convencionais. Kalcker conta que tinha uma artrite severa nas mãos e, pesquisando possíveis curas, encontrou o relato sobre o dióxido de cloro de Jim Humble, em 1996. Humble participava de uma excursão pelas selvas da Guiana Inglesa quando alguns de seus companheiros apresentaram febre alta e dores pelo corpo, sintomas da malária. A única substância que Humble carregava consigo era dióxido de cloro, usado como purificante de água. Ele deu o dióxido aos companheiros que, horas depois, já não apresentavam nenhum sintoma. Após obter melhora na artrite, Kalcker iniciou ciclos de estudos e palestras mundiais sobre o dióxido de cloro, ao lado da pesquisadora Kerri Rivera.

Em um experimento, Kalcker e Rivera administraram dióxido de cloro a um grupo de 191 crianças. Todas apresentaram algum tipo de melhora ou mesmo a cura de sintomas do autismo. A evolução dos pacientes foi medida pela queda na pontuação do ATEC, Autism Treatment Evaluation Checklist, um formulário sobre o comportamento do autista. Os resultados foram apresentados oficialmente nas duas últimas edições do maior evento mundial sobre autismo, o Autism One. Kalcker diz ter ouvido em suas pesquisas mais de 2 mil mães. A maioria relacionava o surgimento dos sintomas do autismo após alguma etapa da vacinação. “Não estou contra vacinas, mas a favor da segurança”, ressalta o biofísico.

Kalcker e Rivera acreditam que o segredo do autismo pode ser o desequilíbrio da flora intestinal, seja com bactérias como a Clostridium ou outros parasitas. O protocolo com dióxido de cloro é iniciado com cerca de cinco a seis ingestões diárias da substância. Progressivamente, o tratamento engloba outros tipos mais comuns de vermífugos que não poderiam ser administrados de início, pois o parasita criaria uma membrana que cobre os ovos e só pode ser rompida pelo dióxido de cloro.

Abordagens alternativas
E
mbora seja uma hipótese altamente controversa e negada por parte da comunidade científica, há quem defenda, como o médico holandês Tinus Smits, que um possível desencadeador do transtorno do espectro autista é a reação a medicamentos e vacinas. Ele trabalha com homeopatia há mais de 30 anos e desenvolveu o método Cease (Eliminação Completa dos Sintomas do Espectro do Autismo), com compostos homeopáticos formados pelas próprias substâncias que desenvolveriam o transtorno, diluídas centenas de vezes. Essa prática de tratar o problema com o próprio agente causador é conhecida como isoterapia.

A homeopata Maria Helena Rossi explica que, com a diluição em água, a substância é facilmente distribuída pelo organismo. A partir daí, é criada uma memória nos anticorpos — processo similar ao que as próprias vacinas fazem com os organismos patogênicos. “O mercúrio, por exemplo, é um dos grandes causadores do autismo. Quando você coloca o mercúrio em alta diluição, faz com que o corpo dessensibilize, por criar memória celular”, diz.

Na primeira consulta, os homeopatas adeptos do Cease elaboram uma lista com todas as vacinas e antibióticos usados pela criança e pelos pais antes e durante a gravidez. Tinus Smits fez um experimento e aplicou em doses homeopáticas os compostos citados pelos adultos. Em mais de 300 casos, as crianças inicialmente tinham reações como febre e diarreia e, em seguida, os sintomas do autismo regrediam. Hoje o método é adotado por médicos homeopatas em todo o mundo, que são formados em um curso ministrado por seus veteranos.

Um trabalho em várias frentes
Mesmo sendo a mais tradicional das abordagens, a terapia psicológica tem nomes que buscam inovar. A base de todo o trabalho desenvolvido por Lourdes Dias e Giselda Presotti é a terapia cognitivo-comportamental. Lourdes e Giselda eram servidoras da Secretaria de Educação e começaram a desenvolver um trabalho diferenciado no Centro de Ensino Especial de Taguatinga em 2006. Porém, a secretaria já usava outro método e elas decidiram abrir a própria clínica. Hoje, o método Dias-Presotti acompanha 150 crianças de várias regiões administrativas do DF e também de fora. “Nós temos mães de Minas Gerais que vêm aqui, aprendem a técnica, aplicam em casa e voltam para acompanhamento a cada dois meses”, conta Lourdes.

A primeira etapa do tratamento é o que Lourdes chama de ‘trabalho de mesinha’, que é o diferencial do método, com dois terapeutas interagindo simultaneamente com a criança. Enquanto um inicia os diálogos, o outro senta-se atrás da criança e é responsável por suprir possíveis lacunas na interação. Uma dessas lacunas é a ecolalia, a repetição da pergunta no lugar da resposta. “O coterapeuta é um elo auxiliar no combate à ecolalia. Não é uma imitação mecânica: com a presença do coterapeuta, a criança compreende qual é seu papel na interação social. Ele é responsável por clarificar e decodificar a mensagem, já que a criança autista não consegue ler a si mesma e o outro”, explica Dias. Em seguida, é iniciado o trabalho psicomotor.

“É preciso tratar a criança, e não o autismo. Para isso, identificamos os gostos dela. Se tiver que pular, nós vamos pular; se tiver que correr, nós vamos correr. Só após isso é feito o trabalho pedagógico.” Essa técnica é conhecida como Son Rise. Foi criada em 1970 pelo casal Samahria e Barry Kaufman, após ouvirem que o autismo severo do filho Raun não teria tratamento. O método foca em incentivar a interação social, que, quanto maior, mais proporcionaria desenvolvimento cognitivo e motor. Para isso, um ambiente ideal de desenvolvimento é formado apenas com objetos e atividades que interessem à criança.

O Son Rise parte do princípio que as crianças autistas têm três estados de atenção. O primeiro deles é o isolado — o mais evitado pelos pais. Eles não devem, porém, interromper o filho, mas, sim, juntar-se a ele na atividade que esteja sendo realizada, ainda que repetitiva, como folhear livros. Caso o estado isolado seja rompido, a criança passa a estar interessada. Nessa fase, ela observa o que o adulto faz, tem contato visual e físico, aponta e entrega objetos. Primeiramente, o acompanhante deve festejar a interação da criança e não pedir mais nada em troca. Na última fase do Son Rise, é possível pedir para que a criança fale ou olhe nos olhos, quando ela estiver altamente conectada e demonstrando interesse na interação. Com a evolução no comportamento da criança, é possível aplicar o Son Rise em ambientes externos e não apenas no cômodo artificial.

A observação mais atenta ajuda a detectar diagnósticos errados. Um desses casos é o de Laura Fiorini, 6 anos. A mãe dela, Luciane Fiorini, conta que chegou ao método Dias-Presotti por indicação de uma amiga fonoaudióloga. Suspeitava de autismo, pois Laura chorava muito. No entanto, não tinha prejuízo social. Com o avanço da terapia duas vezes na semana, ela passou a ser mais atenta e expressar melhor seus desejos. O trabalho pedagógico é continuado em casa, com um caderninho de atividades desenvolvido pela equipe. “Uma boa estimulação é ter uma irmã de um ano e meio, que não pára quieta”, diverte-se Luciane, ao se referir à caçula, Alice. Há a possibilidade de Laura ser apenas uma menina neurotípica que respondeu bem ao acompanhamento. Apesar da dúvida, Luciane diz que é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. “Se o pai notar que o filho tem um comportamento diferente, tem que buscar ajuda especializada.”

A parte psicomotora é garantida pela integração sensorial, em que a criança entra em contato com materiais como tinta, milho e serragem para diminuir sua resistência psicológica a mudanças e desenvolver os sentidos. Os bons resultados são garantidos por Valéria Fernandes, mãe de Joab, 12 anos. Ele faz acompanhamento pelo método Dias-Presotti por indicação da escola desde os 8 anos. Valéria relata que o comportamento do filho era muito repetitivo, apesar de ele não ter dificuldades sociais. Joab também não apresenta particularidades na hora de comer, o que o difere de um autista clássico. O diagnóstico dele é de Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) e, hoje, ele apresenta idade mental de uma pessoa de 10 anos. Antes do método Dias Presotti, a idade era de 2 anos e meio. Ele sempre fez terapia, mas não apresentava melhora, e Valéria demorou muito tempo para encontrar uma boa clínica. “É muito ruim viver assim, ainda há muita discriminação no Brasil”, desabafa. Para ela, Joab não é mais difícil de lidar que outras crianças e todos merecem apoio para alcançar o seu melhor.

A homeopatia trata o paciente em sua totalidade e procura reestabelecer a energia do corpo, visando não apenas a parte física. Por isso, podem ser receitados também compostos naturais variando de acordo com o paciente. O filho de Wanessa Silva, por exemplo, usa o Hypericum perforatum, que o ajudou na comunicação. Ele não falava até os 4 anos. Uma pesquisa feita em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) em 2010 evidencia os benefícios da Hypericum perforatum, popularmente conhecida como erva de São João. Os pesquisadores analisaram células de crianças autistas e perceberam mutações no gene TRPC6 — um dos responsáveis por formar neurônios —, que faziam com que as células formassem menos conexões do que o esperado. Com a interferência de um dos compostos formadores da erva de São João, a hiperforina, a deficiência teria sido corrigida e os voluntários apresentaram melhor atenção, memória e desenvolvimento cognitivo. Hoje a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite a comercialização da erva de São João em cápsulas, com prescrição médica.

Leonardo Golias também sentiu os benefícios dos compostos homeopáticos, que usa há apenas um mês. “Ele começou a balbuciar e, depois, desenvolveu a fala”, conta a mãe, Ana Paula. Maria Helena Rossi lembra que a fala depende da interação entre neurônios, que pode ter sido interrompida pela toxicidade de algum medicamento. O homeopata Allan Kardec Rezende ressalta que, antes da prescrição, uma análise cuidadosa do paciente é feita, desde sua personalidade até sua genética. Para Rezende, a homeopatia é uma opção complementar para todas as especialidades que não obtiveram êxito. “Um pneumologista acompanha um paciente com asma. Se ele usou todos os recursos que tem e não viu melhora, encaminha para a homeopatia.”  

A música como estímulo
Desde os 2 anos, Leonardo Golias frequenta a musicoterapia. “Ele sempre foi muito sonoro, então é a atividade que ele sai mais feliz, sempre pede para ficar”, conta a mãe, Ana Paula Golias. A principal diferença entre uma aula de música e uma sessão de musicoterapia é o objetivo. Enquanto a aula de instrumentos tem fins pedagógicos, a musicoterapia usa a dança e a música para promover qualidade de vida e ensinar a pessoa a se descobrir por meio dos sons. “Cada terapia tem o seu foco, mas pode contemplar o sujeito integralmente”, comenta a musicoterapeuta Clarisse Prestes, que trabalha com crianças autistas desde 2007.

A professora estava ministrando uma aula de musicalização quando uma mulher perguntou se Clarisse poderia ensinar o filho dela. “A partir dessa criança, senti que precisava entender mais do universo autista para atendê-la”, conta. Desde então, outros autistas surgiram, sempre por uma rede de indicações entre eles. Clarisse realiza a musicoterapia em uma chácara próxima à BR-020, onde acredita que a variedade de estímulos e situações pode contribuir mais rápido para o desenvolvimento dos alunos, que incluem crianças com dificuldade de aprendizado e com lesões cerebrais. Ela ressalta que, ainda que os alunos tenham dificuldade em falar, a socialização acontece. “A gente interage musicalmente. Podemos simular diálogos (pelos sons musicais). Um fala, outro fala, todos falam ao mesmo tempo”, compara. Além disso, é importante respeitar o tempo de cada um. Mesmo que ele goste de música, pode demorar a ceder aos estímulos e não ir de imediato olhar os instrumentos. Durante sua carreira, Clarisse deu aula para duas crianças autistas particularmente talentosas para a música. Uma delas, hoje, faz aula de bateria, além da musicoterapia, e assume uma postura autodidata frente aos instrumentos.

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