Levantamento brasileiro mostra que 11% dos moradores de capitais podem ter transtorno de estresse pós-traumático

Doença é uma forma grave de sofrimento emocional após episódios violentos

por Isabela de Oliveira 13/11/2015 15:00

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Valdo Virgo / CB / D.A Press
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A bagagem de um veterano de guerra, quando ele volta para casa, costuma incluir algumas insígnias e muitas experiências dolorosas. Se recordá-las não é fácil, imagine revivê-las. Pois, para um grupo de ex-combatentes, é isso que acontece: as memórias provocam sentimentos tão intensos quanto no momento em que foram vividas pela primeira vez. A sensação angustiante, por vezes acompanhada de culpa e isolamento, provoca crises de choro sem hora e lugar.

Esse quadro emocional, chamado de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), foi inicialmente observado em militares que estiveram no fronte. Mas, na verdade, não é preciso ser combatente para sofrer com o problema. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostram em um estudo publicado no Journal of Psychiatric Research que as cidades brasileiras, de certa maneira, estão em guerra. A violência urbana deixa pelo menos 11% dos habitantes das duas maiores capitais do país — São Paulo e Rio de Janeiro — com risco condicional de desenvolver o transtorno.

A psiquiatra Mariana Luz, principal autora do estudo, explica que o risco condicional de desenvolver o TEPT é diferente do risco de exposição a um evento traumático, que, nas duas metrópoles fica em 86%. Embora, evidentemente, uma situação perturbadora seja o desencadeador do transtorno, nem todas as pessoas que a vivenciem vão desenvolver o problema. Outros fatores, como características de personalidade, status social, gênero e o tipo de trauma sofrido influenciam na condição emocional que se segue. “Portanto, na verdade, o risco condicional de uma população não está diretamente relacionado ao nível de segurança ou de violência de um local”, afirma a pesquisadora.

Foi por meio de questionários, respondidos por 3.744 homens e mulheres residentes nas duas cidades, que a equipe chegou ao índice de 11% de risco condicional. As perguntas ajudaram também a estimar que esse índice é três vezes mais alto entre as mulheres (15,9%) do que em homens (5,1%). “Há hipóteses de que diferenças neurobiológicas entre homens e mulheres possam explicar parte dessa diferença, como, por exemplo, a maior ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal nas mulheres, bem como diferenças no processamento cognitivo das reações de medo. Entretanto, ainda não se sabe ao certo o motivo”, diz Mariana Luz.

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, o psicólogo Aurélio Melo, que não participou do estudo, levanta a hipótese de que, além dos aspectos biológicos, as mulheres sejam mais suscetíveis por serem vítimas das várias formas de violência com frequência maior. “Sendo homem, sinto medo de andar sozinho na madrugada em São Paulo, mas, como mulher, sentiria mais ainda. Nós também corremos riscos, mas elas, infelizmente, ficam mais acuadas. Além disso, vivem situações que são menos ameaçadoras e constrangedoras para um homem, como uma discussão no trânsito ou uma cantada na rua”, analisa. A idade em que o choque ocorre é outro fator de risco, assim como a quantidade e o tipo de episódios vividos. Por exemplo, casos de violência interpessoal favorecem mais o desenvolvimento de TEPT do que eventos acidentais ou naturais.

Mortes
Mariana Luz também aponta como preocupante o alto índice de pessoas com TEPT após a morte súbita de um ente querido. O estudo estima que esse quadro aconteça com 435.970 pessoas nas duas cidades. Para a psiquiatra, o dado indica que muita gente não esteja sendo diagnosticada adequadamente nos consultórios, pois os sintomas podem ser confundidos com depressão ou luto. Queixas de dor, alterações gastrointestinais inespecíficas e hipertensão, além de relatos difusos de insônia e ansiedade também dificultam a detecção do transtorno, especialmente quando os pacientes são atendidos em ambulatórios ou consultórios generalistas.

“Eles sentem medo ou vergonha de falar sobre os sintomas e o acontecimento traumático. Deve haver um treinamento e uma conscientização dos profissionais de saúde e dos cuidados básicos”, propõe a autora. Luz cita como aterrador o alto risco de TEPT secundário ao abuso sexual em adultos e crianças. Muito relatado pelos participantes da pesquisa, esse tipo de violência impõe risco condicional de até 50% para o transtorno. Os casos estão associados com doenças cardiovasculares e comportamentos nocivos, como abuso de substâncias.

O transtorno pode reduzir ou impedir a produtividade, levando o paciente a abandonar o emprego por medo e insegurança. A incapacidade de ter uma vida normal também gera carga para familiares, que têm a qualidade de vida igualmente comprometida. Além disso, são significativos os custos públicos e privados de atendimento médico e psicológico. Sem contar os aplicados no controle da própria violência: o Fórum Brasileiro de Segurança Pública calculou que o país gastou R$ 258 bilhões com segurança em 2013, o que representa 6% do PIB do país.

“Podemos dizer que há ‘custos ocultos’ do TEPT que muitas vezes não são contabilizados diretamente”, alerta Luz. Diante disso, a necessidade de estudos sobre a prevenção de traumas “preveníveis”, como os do trânsito, merecem incentivos. “Controle de armas, melhora da segurança nas ruas e estradas e projetos de informação à população sobre redução de violência são estratégias eficazes”, completa, acrescentando que é preciso identificar esses pacientes para diagnóstico e tratamento corretos.

Com a equipe que integrou o trabalho, Mariana Luz pretende investigar fatores de risco pessoais e populacionais para o desenvolvimento de TEPT e as reações que ocorrem durante o evento traumático, como imobilização e ataques de pânico. Estudos de neuroimagem para buscar as regiões cerebrais possivelmente envolvidas no TEPT também estão dentro dos planos, assim como pesquisas comparativas internacionais.


Olhar para o coletivo

“É importante observar que a pessoa não precisa realmente passar por uma experiência violenta para sofrer com esse quadro, pois apenas o clima de estresse e a sensação de ameaça e insegurança que há na cidade, especialmente no trânsito, são suficientes para desgastá-la. Os dados desse estudo nos dizem que precisamos olhar não somente para o indivíduo, mas para o coletivo, a sociedade e a vida em grupo. Muitas vezes, profissionais de saúde orientam as pessoas individualmente, sem considerar que os pacientes estão dentro de uma esfera coletiva que inclui, entre outras coisas, a violência.”

Aurélio Melo, psicólogo e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo

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