Aumento dos casos de diabetes mostra que população desconhece o problema

A cada 2,5 minutos, um brasileiro descobre que tem o distúrbio metabólico

por Ailim Cabral 12/11/2015 14:00

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Karlos Geromy / OIMP / D.A Press
Brasil é o país da América Latina que registra o maior número de pessoas afetadas pela manifestação do tipo 2 (foto: Karlos Geromy / OIMP / D.A Press)
O diabetes é uma das doenças que mais cresce no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, surgem 500 novos casos da doença por dia. Pelas contas, a cada 2,5 minutos, um brasileiro descobre que tem o distúrbio metabólico. O mal está entre as doenças não comunicáveis (DNC), patologias crônicas e não transmissíveis que, muitas vezes, são também silenciosas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as DNCs são responsáveis por 36 milhões de mortes por ano no mundo e os números só aumentam em países em desenvolvimento, como o Brasil.

Por aqui, o diabetes faz parte de estatísticas preocupantes. É considerado o país da América Latina que registra o maior número de pessoas afetadas pela manifestação do tipo 2. Preocupados a progressão do quadro, especialistas de saúde brasileiros se reuniram com médicos e profissionais da saúde da Índia, México e África do Sul, além de representantes da empresa de saúde Eli Lilly and Company, para debater projetos e estratégias de prevenção das DNCs, com foco no diabetes.

A empresa tem dois projetos no Brasil. O primeiro é em parceria com o Instituto para Crianças com Diabetes (ICD) e o segundo com a Fundação Médica do Rio Grande do Sul. A equipe da Revista conversou com os profissionais à frente dessas iniciativas: o médico Balduíno Tschiedel, presidente do ICD; a médica Maria Inês Schmidt, da Universidade Federal do RS, além do CEO da Lilly, o doutor em química John Lechleiter.

O projeto do ICD é um programa estrutural de educação focado no diabetes tipo 1, criado para alertar e orientar sobre o problema. A equipe produziu 15 pequenos filmes de temas variados, abrangendo todos os aspectos da doença. A proposta é exibi-los aos pacientes ao longo de três semanas e os resultados têm se mostrado positivos. A ideia é replicar o programa por todo o país, por meio de equipes médicas e, em seguida, para todos os pacientes que tiverem interesse. “O programa é voltado para todas as idades e também para pais de crianças com diabetes tipo 1”, completa Tschiedel.

No caso da experiência da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, o estudo consiste em ajudar mulheres, que tiveram a diabetes gestacional, a não desenvolver o tipo 2 no pós-parto. Estimular uma alimentação mais saudável após a gestação, por exemplo, segundo Schmidt, é uma das soluções que podem ajudar a prevenir o surgimento da doença nesse período. “Posteriormente, pretendemos estender os programas de prevenção a outros grupos de risco”, completa a médica.

Um dos problemas da prevenção e controle do mal é justamente a falta de conhecimento. Poucas pessoas sabem realmente do que se trata essa síndrome metabólica. Para a maioria, é apenas uma condição na qual o indivíduo fica limitado ao consumo de açúcar. Mas o diabetes, e suas variações, vai muito além e pode ser muito perigoso se não for tratado adequadamente.

O endocrinologista Fabiano de Oliveira Griciunas explica que é uma doença crônica caracterizada pela inabilidade do corpo de produzir ou de utilizar a insulina circulante no organismo, o hormônio responsável pelo controle da quantidade de glicose no sangue. No caso do diabetes tipo 1, o pâncreas não sintetiza ou é incapaz de usar o hormônio, mesmo quando este é produzido. Faz-se, então, necessário que o paciente reponha a insulina, por meio de injeções, para garantir a transformação da glicose em energia e impedir o acúmulo de açúcar na corrente sanguínea.

O diabetes tipo 1 pode ser causado por autoimunidade, por deficiências no funcionamento pâncreas ou dificuldade de produção de hormônios. A doença tem traços genéticos, mas suas causas não são amplamente conhecidas. O diagnóstico é mais comum em crianças e jovens.

No caso do tipo 2, a disfunção é causada por fatores externos e pode ser prevenida. Ela acontece quando o paciente apresenta algum tipo de resistência adquirida à insulina. Assim, o hormônio não consegue exercer sua função de colocar as moléculas de glicose dentro da célula, para que sejam metabolizadas e transformadas em energia. O sangue, então, fica com excesso de açúcar.

Segundo o especialista John Lechleiter, 11 milhões de brasileiros, o que corresponde a 9% da população, sofrem com o diabetes adquirido. A endocrinologista e professora universitária Maria Inês Schmidt afirma que o número assustador está intimamente ligado ao aumento de peso da população. “Não podemos deixar de mencionar a obesidade. Nos últimos 20 ou 30 anos, a população passou a ter um peso muito maior, os índices de obesidade e sobrepeso cresceram enormemente”, acrescenta.

Nesses casos, a gordura cria uma membrana que dificulta a entrada da glicose nas células. “A insulina funciona como uma chave que permite a entrada da molécula de açúcar na célula, nos casos de sobrepeso, a insulina não consegue vencer a barreira de gordura”, completa Griciunas.

Presidente do Instituto para Crianças com Diabetes (ICD), o médico Balduíno Tschiedel explica que, no início, o instituto tratava apenas crianças e jovens com diabetes tipo 1, mas o aumentode casos do tipo 2 também afetou os mais novos. “Hoje, já temos 100 pacientes jovens com diabetes adquirido. O tipo 1 não pode ser evitado, mas, pelo menos por enquanto, o tipo 2 está diretamente ligado ao aumento da obesidade. Temos um paciente de nove anos, obeso e com a doença”, alerta.

Apesar de a obesidade ser um dos mais importantes responsáveis pelo aumento da incidência de diabetes, não é a única culpada. Outras causas, como fatores genéticos, ambientais também devem ser levados em consideração. Os especialistas afirmam que é possível ter a doença mesmo sem estar acima do peso.

Há ainda o diabetes gestacional. A doença costuma desaparecer assim que a gestante tem o bebê, uma vez que a gravidez é a responsável pela resistência da mulher à ação da insulina. Ainda que o quadro seja revertido, deve ser tratado com cuidado. Além de ser um fator de risco para que a mulher desenvolva a diabetes tipo 2 no futuro, pode persistir após o parto e trazer complicações para a saúde da mãe.

A identificação e o tratamento do diabetes ainda são desafios para os especialistas, uma vez que grande parte dos sintomas é inespecífico. Entre os principais sinais citados por Griciunas estão: a fadiga, o ganho excessivo de peso, o aumento na sede e na frequência da urina. “Esses são o que chamamos de sintomas clássicos, mas, em casos mais avançados da doença, o paciente pode apresentar perda de peso”, complementa o endocrinologista.

O acompanhamento médico é essencial em casos suspeitas, independente da modalidade da patologia. Não tratá-la pode acarretar problemas sérios. As principais complicações acontecem nos chamados “orgãos alvo”, como os rins e coração. Insuficiência renal, infartos, acidentes vascular-cerebrais e problemas circulatórios, que podem levar a amputações, são os mais comuns. Os olhos também são afetados em casos de falta de tratamento e a diabetes pode causar cegueira.

A prevenção é igualmente essencial e pode ser adotada no caso do diabetes tipo 2 e do gestacional. Entre as medidas estão mudanças no estilo de vida. Alimentação saudável, com baixa ingestão de açúcares e carboidratos, prática de atividades físicas e fazer check-ups médicos periódicos são os passos mais importantes.

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