Elas são crianças, mas têm doenças de adultos

Entidades médicas constatam aumento da incidência de patologias cardiometabólicas em menores de idade

por Carolina Cotta 31/10/2015 15:50

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Beto Novaes/E.M/D.A Press
Elas têm 5, 10, poucos anos, mas já enfrentam problemas típicos de adultos, como colesterol alto, hipertensão e altos índices de glicose. Não há dados epidemiológicos no Brasil, mas entidades médicas estão constatando um aumento na incidência de doenças cardiometabólicas em crianças em função dos hábitos de vida moderna, principalmente. “Estamos vendo doenças normalmente esperadas na vida adulta ocorrendo com mais frequência na infância e na adolescência. O fato de as crianças estarem cada vez menos ativas é fator de risco”, alerta Raquel Pitchon dos Reis, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria – seção Minas Gerais.

Um recente estudo canadense sobre como a intervenção no estilo de vida pode melhorar o desempenho escolar de crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade revelou que de 2% a 3% dos pequenos pesquisados já apresentavam hipertensão associada à obesidade, que, no Brasil, já atingiu proporções de epidemia. Dados da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República mostram que três em cada 10 brasileirinhos, com idade entre 5 e 9 anos, estão acima do peso. Isso quer dizer que 33,5% das crianças brasileiras está fora da curva esperada para a idade. Na adolescência, a taxa cai para 20,5%.

Segundo especialistas, o estado nutricional na primeira infância repercute na vida adulta e, se esse quadro não for revertido, o Brasil poderá se tornar, em alguns anos, um dos países com maior número de adultos obesos do mundo. A importância da prevenção e educação foi um dos destaques do 37º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado este mês, ocasião em que a Sociedade Brasileira de Pediatria apresentou a cartilha A culpa é sua, também disponível no site www.smp.org.br, um guia ilustrado que mostra que a responsabilidade não é só da criança, mas de um complexo contexto em que está inserida.

“O ambiente influencia mais na obesidade infantil que a genética. Esta pode ser aplacada por uma alimentação adequada e hábitos saudáveis”, explica Raquel Pitchon. Pesquisas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, do total de obesos em idade adulta, 85% já tinham sobrepeso aos 5 anos. O problema são as doenças crônicas que vêm juntas, como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. “O ideal é que o acompanhamento comece desde o quinto dia de vida, para que o pediatra consiga promover desenvolvimento saudável, com peso adequado, e identificando qualquer tipo de distorção”, afirma.

COLESTEROL A maioria dos casos de colesterol alto na infância e adolescência pode ser explicada pelos maus hábitos de vida, mas uma parte sofre com uma doença genética: a hipercolesterolemia familiar. Segundo Celso Antônio Tafuri, coordenador do ambulatório de aterosclerose do Hospital Vera Cruz, em Belo Horizonte, há dois tipos de manifestação da doença: a homozigótica, mais rara e grave, que acomete uma em cada um milhão de pessoas, e a heterozigotica, mais comum, que atinge uma em cada 300 pessoas. “Nesses casos, as crianças têm colesterol alto herdado geneticamente do pai ou da mãe. Essa doença é uma das causas de colesterol alto em crianças. A outra é o erro alimentar, e este é bem mais frequente”, alerta.

Cristina Horta/EM.D.A Press
O cardiologista Celso Antônio Tafuri, coordenador do ambulatório de aterosclerose do Hospital Vera Cruz (foto: Cristina Horta/EM.D.A Press)
Segundo o especialista, crianças com parentes de primeiro grau que infartaram com menos de 45 anos ou que têm colesterol elevado precisam dosar o colesterol desde cedo. Antes dos 2 anos, não há indicação e a criança sequer poderia fazer uma dieta, mas, a partir dessa idade, esse grupo de risco deve fazer o exame de sangue. “Crianças com o LDL (mau colesterol) acima de 190 têm diagnóstico de hipercolesterolemia familiar e precisam ser encaminhadas para tratamento com pediatra ou cardiologista. Mas, se o primeiro exame der normal, a criança pode voltar a medir novamente por volta dos 10 anos”, sugere o médico. Colesterol total acima de 170, LDL acima de 110 e triglicérides acima de 90 também demandam tratamento, que inclui dieta, atividade física e, em último caso, fitoesterois.

TESTE GRATUITO Níveis de LDL acima de 190mg/dl em adultos e acima de 160mg/dl em crianças combinados com história familiar de colesterol alto e problemas cardíacos antes dos 55 anos são sugestivos de hipercolesterolemia familiar (HF). Outros sintomas do problema são depósitos de colesterol em volta dos olhos, que provocam uma mancha amarela, nodulações nos tendões das mãos e cotovelos, além do tendão de aquiles espessado. A confirmação do diagnóstico, contudo, só é possível com teste genético. O Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) oferece o teste gratuitamente, mesmo para quem não mora em São Paulo. Para isso, a pessoa deve entrar em contato com o programa Hipercol Brasil, por meio do site www.hipercolesterolemia.com.br. É preciso enviar o resultado dos últimos exames de colesterol. Se a equipe de especialistas suspeitar de um possível caso, enviará, pelos Correios, um kit para realização do teste, feito a partir da coleta de uma gota de sangue em papel de filtro específico. O DNA é extraído dessa amostra para identificação de alguma alteração genética.

Brincar é se exercitar

Pesquisas mostram que brincadeiras comuns da infância estão favoravelmente associadas a controle e redução do peso. Por outro lado, essas atividades sofrem forte concorrência de uma série de hábitos sabidamente ligados ao sedentarismo. Segundo o cardiologista e médico do esporte Marconi Gomes da Silva, presidente da Sociedade Mineira de Medicina do Exercício e do Esporte, o aspecto positivo é o fato de as crianças relacionarem os exercícios físicos à atividade lúdica, o que deve ser valorizado e estimulado pelos educadores em saúde. “As brincadeiras podem diminuir o tempo de ociosidade das crianças e adolescentes, entrando no 'banco de horas' das atividades físicas praticadas nessa faixa etária”, sugere. 

A orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que a prática de atividade física seja diária, de pelo menos 60 minutos em intensidade moderada a vigorosa, devendo ser incluídas atividades que fortaleçam músculos e ossos. “Esse é o tempo mínimo de exercícios físicos recomendado a crianças e adolescentes justamente por ser um período de formação osteomuscular e do desenvolvimento neurológico, psicológico e motor. A atividade pode ocorrer no contexto de brincadeiras, jogos, esportes, trabalho, transporte, recreação, educação física ou estar prevista em algum tipo exercício programado e sistematizado, como aulas de futebol, tênis, basquete, natação”, sugere Marconi.

TEMPO DE TELA Segundo o cardiologista, é nessa fase que se construirá a base de uma vida saudável. Já se sabe, por exemplo, que a criança obesa apresenta alta probabilidade de se tornar um adulto obeso. Cerca de 30% dos adultos obesos foram crianças obesas e, entre os casos graves, essa proporção aumenta para entre 50% e 75%. Mas nem sempre o tempo dedicado à atividade física cresce, ao contrário do que vem ocorrendo com o tempo de tela – aquele dedicado a computadores, celulares, videogames, TV e tablets. “Merecem preocupação os dados encontrados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, que detectou que apenas 30,1% dos escolares eram ativos, ou seja, praticavam 300 minutos ou mais de atividade física por semana”, alerta Marconi.

PERSONAGEM DA NOTÍCIA
Arquivo Pessoal
Ananias Elias Bastieri Neto, de 7 anos, portador de hipercolesterolemia familiar (foto: Arquivo Pessoal)

"Isso mata o coração"

“Como tomate, alface, arroz integral, feijão e carninha sem gordura. De vez em quando, como brócolis, mas só um pouquinho. Meu colesterol é alto e tem que abaixar”, conta Ananias Elias Bastieri Neto. Aos 7 anos, o garoto encara uma rotina de cuidados que poderia ter mudado o destino de seu pai, que faleceu aos 27 anos, depois de um infarto fulminante. O avô também morreu de problemas cardíacos, por volta dos 40, uma realidade que deixa clara a herança recebida: Ananias tem hipercolesterolemia familiar. Seus índices de colesterol alterados foram identificados aos 3 anos.  “O acompanhamento era só com dieta e atividade física, mas, depois de uma consulta ao cardiologista, foi preciso entrar com um fitoterápico”, conta Tamara, mãe do garoto. Ananias, que tinha 1 ano quando o pai faleceu, na época não compreendia o que ocorreu, mas hoje conhece a importância de se cuidar desde novo para encarar a doença que altera seu colesterol. “Outro dia, o primo ofereceu refrigerante e ele agradeceu dizendo: 'Isso mata o coração da gente'”, conta Tamara.

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