OMS alerta que tuberculose já mata mais que a Aids no mundo

Em 2014, foram 1,5 milhão de mortes causadas pelo bacilo de Coc contra 1,2 milhão pelo HIV. Doença tem cura

por Cristiana Andrade 30/10/2015 11:19

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Uma doença de mais de 8 mil anos, curável, cujo tratamento está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, mas que tem matado no mundo mais que a Aids, segundo dados divulgados ontem pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A tuberculose faz 1,5 milhão de vítimas por ano, enquanto a Aids, em 2014, matou 1,2 milhão. “A tuberculose agora divide a liderança do ranking com o HIV como os maiores responsáveis por mortes no mundo”, indicou a OMS ontem, em um relatório.

Arte: EM / D.A Press
Por ano, 9,6 milhões de novos casos de tuberculose são registrados no mundo (foto: Arte: EM / D.A Press)
No ano passado, a tuberculose matou 890 mil homens, 480 mil mulheres e 140 mil crianças, segundo o órgão. De 1,5 milhão de vítimas, 400 mil haviam sido infectadas pela Aids. Por ano, 9,6 milhões de novos casos de tuberculose são registrados – 54% deles estão na China, Índia, Indonésia, Nigéria e Paquistão. O Brasil, apesar dos avanços, continua entre os 22 países considerados de alta incidência da doença. Em 2014, registramos 81 mil novos casos.

“Quem tem o HIV fica mais suscetível a ter a tuberculose, que é uma infecção oportunista. Ela ataca o sistema imunológico fragilizado, que no caso de quem tem o HIV está com o sistema de defesa deprimido. Entre 12% e 17% dos pacientes com tuberculose têm Aids. E olha que paradoxo: a tuberculose tem cura e a Aids, ainda não”, pontua a médica pneumologista Munira Martins de Oliveira, coordenadora do Setor de Tuberculose do Hospital Júlia Kubitscheck, da Rede Fhemig, em Belo Horizonte. A unidade hospitalar é referência em centro terciário no estado para doenças do pulmão, ou seja, trata casos difíceis e graves, que já passaram pela rede básica e pelas unidades de pronto atendimento (UPAs).

A diferença básica entre as doenças está no fato de a tuberculose ter cura, e a Aids, não. Então, porque ainda tem gente morrendo de um mal para o qual há tratamento? Na visão de Munira, ocorre uma rede inteira de falhas.

“Falhamos quando o sistema básico não faz o diagnóstico precoce, ninguém vai atrás dos contatos (que são as pessoas que vivem no mesmo ambiente que o doente) e não há supervisão do tratamento. O correto e ideal seria o agente de saúde ir diariamente à casa do tuberculoso em tratamento e vê-lo engolir o remédio”, diz a médica. Para ela é inadmissível haver jovens de 20, 30 anos, em idade de produção econômica e intelectual, doentes e acamados.

Segundo informações do Ministério da Saúde, no Brasil, a tuberculose é sério problema da saúde pública, com profundas raízes sociais. A cada ano, são notificados aproximadamente 70 mil casos novos e ocorrem 4,6 mil mortes em decorrência da doença. O Brasil ocupa o 17º lugar entre os 22 países responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose no mundo. Em Minas Gerais, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), 4.612 pessoas foram diagnosticadas com tuberculose no ano passado. Onze por cento dos pacientes abandonaram o tratamento e 3% morreram.

“Temos uma média de 2,1 óbitos para 100 mil habitantes no Brasil, um índice alto para um mal curável. E, em média, entre 70 mil e 80 mil novos casos por ano no país, sendo que de 10% a 20% das pessoas abandonam o tratamento. Depois de muitos anos marginalizada, a tuberculose voltou com a Aids, nos anos 1980 e 1990, e caiu. Agora, o que vemos é a mortalidade aumentando porque o diagnóstico está sendo feito tardiamente e o paciente já chega com estágio avançado da doença. Um dos pontos-chave é identificar doenças associadas, ou seja, se chega um paciente com HIV, é preciso investigar se ele tem o bacilo de Coc (causador da tuberculose) e em todos os tuberculosos, fazer o teste de HIV. Nosso óbito para tuberculose tem que ser zero. Não há razão para não sê-lo”, explica Munira.

FAMOSOS VITIMADOS
Doença infecciosa transmitida pelo ar, a tuberculose matou artistas como Noel Rosa, Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. Associada antigamente a quem tinha hábitos “mundanos”, como boêmios e alcoólatras, ainda hoje a tuberculose é uma doença que acomete em grande parte pessoas de nível socioeconômico mais baixo, mas qualquer um de nós está suscetível a ser infectado pelo bacilo.

“O primeiro tratamento, para a tuberculose sem gravidade, é de, no mínimo, seis meses. São comprimidos que a pessoa toma diariamente, pela manhã. E há efeitos colaterais, com queimação no estômago e coceira pelo corpo. Não pode haver falhas nas doses. O que ocorre na prática é que um mês, dois meses depois, o paciente ganha peso, a tosse some, ele se sente bem e interrompe a medicação. Muitas pessoas que vivem nas ruas, não têm o que comer, ou consome muito álcool e drogas, então, sua adesão é bem difícil”, acrescenta a pneumonologista.

Teste rápido e gratuito

O exame mais simples para detectar a tuberculose e disponível em toda a rede básica de saúde é o do escarro. Há ainda o teste molecular para tuberculose, que analisa, caso o paciente esteja com a doença, o DNA do bacilo e avalia em até três horas se a doença é sensível ou resistente ao medicamento.


“O paciente com tuberculose faz ainda o teste de HIV, radiografia do tórax, tudo isso via posto de saúde mais próximo de casa. O medicamento é inteiramente gratuito e totalmente controlado pelo Ministério da Saúde, justamente para tentar cercar o controle de quem segue o tratamento, as recidivas etc.”, explica a médica Munira Martins de Oliveira. De acordo com ela, quanto mais cedo detectada a tuberculose, mais eficaz sua cura. “Começou a tossir muito, com escarro amarelo ou com sangue, geralmente acompanhado de perda de peso (entre 10% e 20% do peso corporal normal), sudorese noturna de trocar a roupa de cama e uma febre baixa, no fim do dia, procure atendimento”, ensina.

INVESTIMENTOS
A OMS admite que novos remédios, tecnologia para o diagnóstico e uma maior atenção dos governos conseguiram salvar 43 milhões de vidas entre 2000 e 2015. No entanto, é preciso mais investimentos. “Existem avanços. Mas, se o mundo quer colocar um fim a essa epidemia, ele precisa investir em pesquisa e aumentar os serviços”, disse ontem a diretora-geral da OMS, Margaret Chan. O buraco nas contas chega a US$ 1,4 bilhão, de um total de US$ 8 bilhões necessários para implementar uma estratégia para frear a doença. A partir de 2016, a OMS vai estabelecer como prioridade um programa para erradicar a tuberculose até 2030 e cortar as mortes em 90%. (Com Agência Estado).

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