Popularidade dos nudes indica uma vontade de ver e ser visto sem inibições

Compartilhar fotos íntimas com parceiros e não parceiros virou mania na internet e tem conotação libertária segundo especialistas

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Raquel Pellicano / Divulgação
"Manda nudes" é a senha da contemporaneidade para revisitar a antiga obsessão pelas formas humanas ao natural. Por trás desse compartilhar frenético de imagens, há muito o que se discutir sobre liberdade e limites da exposição (foto: Raquel Pellicano / Divulgação )
O corpo despido era natural na Grécia Antiga. Foi parcialmente ocultado na Idade Média, sob a rigidez da religião. Reapareceu com o Iluminismo. Os grandes museus exibem nus célebres, obras de Renoir, Botticelli, Cézane, Manet, Modigliani, Picasso. Os povos do Xingu vivem nus até hoje. O topless é prática corriqueira em diversos países europeus. Nudez que não coincide necessariamente com sexualidade.


“Há menos de um século, apesar do calor tropical, os homens vestiam fraque, colete, colarinho duro, polainas e as ‘santas’ mulheres cobriam-se até o pescoço. Hoje, as anatomias mostradas parecem confirmar a ideia de que vivemos um período de afrouxamento moral nunca visto antes”, analisa a antropóloga Mirian Goldenberg em seu livro O nu e o vestido (Editora Record). O corpo despido está na televisão, nas revistas, na internet. De certa forma, não choca mais.

 

Ainda assim, o corpo nu não é visto com a naturalidade que merece. Com o costume de cobrir a pele, a nudez ainda está relacionada à vergonha, à intimidade — mesmo no Brasil, com o calor escaldante e as roupas cada vez menores. Agora, parece se desenhar uma forte investida contra o pudor. As forças libertárias vêm da internet: mandar nudes virou uma moda. Compartilha-se material íntimo com parceiros e não parceiros, com ou sem filtros.

 

“A maioria das pessoas tira fotos nuas no sentido de libertação: ‘O corpo é meu, posso fazer dele o que quiser, não tenho vergonha dele’. Tem um sentido muito libertário nessa prática, principalmente do corpo feminino. E não enxergo como exibicionismo. Há milhares de outras maneiras de se chamar a atenção sem tirar a roupa”, afirma Mirian, em entrevista à Revista. Ela explica que esse movimento é importante exatamente porque, no Brasil, ainda não temos essa liberdade de estar nu. É preciso estar confortável e feliz na própria pele, e as nudes são um instrumento de afirmação.


“O corpo aqui ainda é visto como capital, principalmente feminino. Precisa ser magro, jovem, sexy, bonito. E, por isso, não aceitamos que qualquer pessoa possa fazer nudes. Ainda temos muita repressão. Vivemos entre a prisão e a libertação, é um paradoxo mesmo. Por um lado vivemos esse movimento de liberação de todos os corpos, mas de outro, eles estão aprisionados em um modelo muito fechado”, afirma. No livro, a antropóloga conta que o corpo dentro do padrão não é tão chocante. “Pode-se dizer que, sob a moral da ‘boa forma’, um corpo trabalhado, cuidado, sem marcas indesejáveis (rugas, estrias, celulites, manchas) e sem excessos (gorduras, flacidez) é o único que, mesmo sem roupas, está decentemente vestido”, provoca.


Defensora da nudez como expressão artística, a fotógrafa Raquel Pellicano aponta a incoerência do imaginário brasileiro sobre o assunto. “Na Europa, a nudez não está diretamente ligada à sexualidade como aqui. Existe essa contradição: embora nas praias use-se biquínis minúsculos e no carnaval pessoas desfilem seminuas, ficar pelado ainda é um tabu.” Ela fotografa garotas comuns nuas há quatro anos e sempre procura a espontaneidade.


Raquel Pellicano / Divulgação
Corpo nu não é visto com a naturalidade que merece (foto: Raquel Pellicano / Divulgação )
Gabriela Nehme, 25, arquiteta, já havia posado nua, como modelo-vivo em aulas de artes. Professora de desenho, ela quis experimentar o olhar do outro. Chegava a ficar quase meia hora na mesma posição, o que era um tanto desgastante. Por meio de amigas, conheceu o trabalho de Raquel Pellicano. Começou a pesquisar sobre fotógrafos que se autorretrataram nus com seus filhos com o objetivo de desmistificar a nudez e decidiu que posaria num contexto diferente. Posou para um ensaio completo, que chegou a ser publicado em um revista.

 

Para ela, a experiência foi importante para adquirir consciência corporal. “Eu descobri meu corpo, os aspectos físicos dele, me senti bonita. Até então, eu não ligava, não pensava nele”, conta Gabriela. Além da confiança na profissional, outro fator que deixou Gabriela segura foi saber que estava posando em busca de algo maior: “Seria uma nova descoberta”. Em relação às artes plásticas, Gabriela descobriu que, na fotografia, o processo era muito mais dinâmico e descontraído. “O trabalho é conjunto”, afirma. Atualmente, tem curiosidade de posar de novo, pois o corpo mudou bastante. Na opinião da jovem, foi criada uma seriedade desnecessária no ato de ficar pelado. “A gente coloca muito tabu. Eu queria mostrar que ele é natural”, afirma.


Os amigos próximos apoiaram a ideia e a arquiteta nunca se importou com a opinião dos outros. Para os pais, demorou mais para contar, com medo da reação. As fotos já estavam na internet e eles poderiam ser surpreendidos. A mãe foi a que mais se preocupou, o que ela atribui ao fato de ser mulher e estar acostumada a se proteger o tempo todo. O pai simplesmente aceitou que o corpo era dela e ela faria o que quisesse com ele.

 

Vazou

Nas últimas semanas, o assunto de nove em cada 10 grupos de amigos foram as nudes de Stênio Garcia, 83 anos, e da mulher Marilene Saade, 47 anos. Na foto, o casal se olhava no espelho, sem roupas. Segundo a esposa do ator, a divulgação das fotos foi uma “falta de respeito, uma invasão.” Mas não é a primeira vez que fotos de atores nus vazam. Scarlet Johansson, Blake Lively, James Franco, Jennifer Lawrence, Vanessa Hudgens e Paris Hilton são alguns dos famosos que tiveram imagens da intimidade expostas na internet. No Brasil, a atriz Carolina Dieckmann teve suas fotos vazadas depois de ter o e-mail pessoal hackeado. O caso ganhou proporção e foi parar na Justiça. Hoje, a Lei Carolina Dieckmann, como é conhecida a  Lei nº 12.737, de 2012, prevê punições à invasão de aparelhos eletrônicos para obtenção, adulteração ou destruição de dados particulares.

 

Divulgação
Karina Buhr (foto: Divulgação )
Free the nipples!

A campanha começou em 2012 com a cineasta americana Lina Esco. O objetivo é discutir a proibição do topless feminino. Nos Estados Unidos, mostrar os seios em público é crime na maioria dos estados. A censura aos mamilos também é forte na internet. O Facebook e o Instagram consideram o topless feminino uma violação das suas regras e costumam apagar os posts e até as contas que exibirem esse conteúdo. A cantora Rihanna, por exemplo, teve sua conta no Instagram bloqueada após publicar fotos sensuais. Com a pressão dos internautas, o Face abriu uma exceção e autorizou fotos de mulheres amamentando.

 

No Brasil, a fotógrafa carioca Julia Rodrigues abriu uma página chamada Pode e Não Pode (http://migre.me/rSECS) depois de ter uma imagem excluída do Facebook por conta de uma modelo com o seio à mostra. No site, homens e mulheres postam sem camisa. As mulheres têm os seios escondidos por tarjas. A fotógrafa, que já foi punida pela rede social por postar imagens que vão de encontro às regras de uso, faz comentários como “sem denúncias nem reclamações”, nas fotos masculinas, e “conteúdo removido porque não segue os padrões da comunidade do Facebook em relação à nudez”, nas femininas. A cantora Karina Buhr também sofreu com a censura da rede social. A capa de seu novo álbum, Selvática, em que aparece de topless, também foi deletada por violar as regras de conduta. 

 

Autoestima renovada

Embora fotografe diversos temas, João Guedes dedica atenção especial a retratar mulheres nuas. Na opinião dele, existe a questão da tendência em qualquer área criativa, e as fotos de mulheres comuns nuas poderiam ser mais um caso de moda. Ele, no entanto, acredita se tratar mais de um fenômeno de popularização da fotografia em geral e, consequentemente, de tipos específicos. Ele também acha que a forma de a sociedade ver a nudez está mudando aos poucos. “Antes, a fotografia de nu era voltada para editoriais de revista masculina.” A situação está tão diferente que a Playboy anunciou, recentemente, que não haverá mais fotos sensuais na publicação.

Foi montando o portfólio aos poucos. Precisou conquistar a confiança das modelos. “Eu tento gerar a expectativa correta do que vai ser feito. A pessoa vai para o ensaio sabendo exatamente o que vai acontecer”, afima. João compartilha com a fotógrafa Raquel Pellicano a percepção de que as mulheres estão cada vez mais bem resolvidas com o próprio corpo. “Elas não são perfeitas, mas é uma questão de libertação, de estar bem consigo mesma e de confiar no trabalho do profissional”, resume Raquel.

A estudante Gabriela Franze, 20 anos, sempre foi tímida. Na frente das câmeras descobriu que podia se soltar, apesar de depender de uma certa direção para saber o que fazer com os braços e com as mãos. Ela explica que, a cada ensaio nu, aprende um pouco mais sobre o próprio corpo. “Demorou muito para eu ter consciência corporal e, até hoje, eu aprendo formas de me expressar com ele”, conta.

Quem instigou Gabriela a posar foi uma amiga, que sugeriu como locação uma banheira. A amiga nem mesmo tinha uma câmera boa, mas ela topou. De tão tímida, não quis que o rosto aparecesse: “Eu estava vermelha, então, não ia dar certo mesmo”, lembra. Depois disso, tentou mais um ensaio no esquema amador. Desta vez, pouco rosto. Uma fotógrafa profissional, então, convidou a estudante para tentar fazer as fotos com produção. De lá para cá, foram mais de 30 ensaios sem roupas. Até hoje não se diz modelo. “Não tenho perfil. Se houver um trabalho que combine com minha aparência, com minhas tatuagens, eu faço, mas só assim. Não combino com trabalhos tão comerciais.”

Ela, que sempre se achou alta demais, magra demais e sem peito, passou a se achar bonita. “Sempre me senti desconfortável e me ver nas fotos foi bom para minha autoestima”, explica. A forma como os amigos e a família de Gabriela encararam a decisão dela foi reconfortante. Inclusive, vários ensaios já foram feitos na casa da mãe dela.  

 

O fim das coelhinhas

Depois de 62 anos de história, a Playboy anunciou este mês que deixará de publicar mulheres nuas em suas páginas a partir de março do ano que vem. O motivo é a concorrência desleal com a internet, que oferece conteúdo diversificado, vasto e, o mais importante, gratuito. A revista promete continuar com imagens sensuais, mas adequadas a leitores maiores de 13 anos.


Divulgação
Miley Cyrus (foto: Divulgação )

 

Miley, a polêmica

A cantora Miley Cyrus, conhecida pelas performances ousadas, pretende se apresentar completamente nua com a banda de rock The Flaming Lips, também nus, para uma plateia de fãs... nus! O objetivo é transformar a performance em um videoclipe. Não é a primeira vez que a cantora se apresenta sem roupas. No clipe da música Wrecking ball, Miley está nua, sentada em uma bola de demolição. A cantora já fez vários ensaios pelada, um deles clicado pelo polêmico fotógrafo Terry Richardson. Seguindo a linha chocante, nada de pudor na conta do Instagram de Miley (@mileycyrus). Lá, a cantora já publicou algumas selfies sem roupa.

Reprodução Internet
(foto: Reprodução Internet )

 

Os pelados de Porto Alegre

Em 2014, quatro pessoas foram clicadas em Porto Alegre (RS) correndo completamente nuas. Os corredores não tinham relação uns com os outros e foram flagrados em dias diferentes. Os pelados serviram de inspiração para um jogo de celular, no qual uma personagem corria nua pela cidade e precisava desviar de obstáculos. Aproveitando a onda, jovens da cidade marcaram uma corrida dos pelados, mas apenas dez pessoas (vestidas) compareceram.

 

Fora de sintonia
A marca de cosméticos Lush lançou uma campanha polêmica na Austrália. Famosa pelos produtos sem embalagem, a empresa lançou uma campanha com mulheres “sem nada” (nem Photoshop), com o objetivo era exaltar a beleza natural das consumidoras. Apesar disso, a Lush recebeu várias reclamações dos clientes e teve de tirar a campanha de circulação.

 

Raquel Pellicano / Divulgação
(foto: Raquel Pellicano / Divulgação )
Nu frontal e ao vivo

A nudez em imagens provoca, mas o nu ao vivo é muito mais forte. Por isso, é usado por vários grupos que pretendem chamar a atenção para suas causas. E se o corpo não seguir os padrões restritivos impostos pela sociedade, melhor ainda. O coletivo de performance Algodão Choque, por exemplo, ficou conhecido depois do “peladaço” organizado na Universidade de Brasília (UnB). O grupo está sempre aberto a quem quiser participar de uma ou mais apresentações. Eles abordam questões de gênero e todo tipo de preconceito. Muitas vezes, usam o corpo nu como instrumento político.

O artista Ricardo Caldeira, 27 anos, um dos integrantes do coletivo, explica que cada pessoa tem um corpo com características naturais e pode representar alguma luta. Tirar a roupa seria potencializar a mensagem. Um exemplo citado por Ricardo é de uma apresentação feita por uma mulher trans acima do peso que ficou pelada em público. A performance foi chamada de “gordura trans” e era uma reação à transfobia e à gordofobia.

O objetivo do “peladaço” foi reagir contra uma situação que o Algodão Choque enfrentou dias antes. “O movimento foi oposição à manutenção dos espaços heteronormativos”, explica Ricardo. Na ocasião, o grupo faria uma apresentação em um evento da universidade e um dos integrantes caminharia pelos corredores de peruca, carranca no braço, um véu e um tapa-sexo. O objetivo era chamar os estudantes para a performance, que acontecia em um anfiteatro. Ele foi tratado de forma truculenta tanto pelos universitários quanto pelos seguranças.

O fato foi noticiado e a repercussão também gerou diversos comentários negativos, o que fez com que o grupo resolvesse organizar o peladaço. “Ficamos surpresos porque ali era um local de pesquisa, manifestação artística, onde as pessoas, teoricamente, teriam a cabeça mais aberta. Toda nossa luta é para que as pessoas enxerguem o corpo de forma mais natural, independente se é o corpo de um homem, de uma mulher, se é negro ou branco, se é trans”, afirma.

Para Ricardo, existe todo um movimento para que as pessoas não aceitem o próprio corpo, o que evita que elas o exponham. A mídia, a escola, a Igreja seriam os “manipuladores” ideológicos da opressão. “A publicidade nos diz que o único corpo que pode ser visto é o magro e sem pelo; para a Igreja, o corpo já nasceu do pecado, então, devemos cobri-lo. Muita gente sente repulsa quando vê uma pessoa não depilada, por exemplo. Elas não percebem que a repulsa é contra elas próprias”, acredita.

Protesto de impacto
As ativistas do grupo Femen são conhecidas por usar a nudez em suas manifestações. As mulheres, de seios nus e usando uma coroa de flores na cabeça, protestam em eventos públicos contra o sexismo, o turismo sexual, machismo, a xenofobia, entre outras demandas. No Brasil, o grupo teve vida breve e terminou em 2013 por conta de desentendimentos entre a ativista Sara Winter e a direção, na Ucrânia.

 

Marcelo Ferreira / CB / D.A Press
Rosa Luz (foto: Marcelo Ferreira / CB / D.A Press)
"Meu corpo é um grito"

A artista Rosa Luz, 20, entrou para o coletivo Algodão Choque há cerca de dois anos. Enquanto o grupo fazia uma performance, a artista se juntou sem avisar, improvisando. Nunca mais se desligou. As performances sem roupa ajudaram na disforia de gênero, comum entre pessoas transexuais. É quando alguém sente que sua identidade de gênero é incompatível com seu sexo biológico real. As performances foram essenciais para que a artista se aceitasse.

“Meu corpo é um grito. Hoje, eu vejo que é natural e não quero deixar ninguém colonizá-lo, dizendo o que é certo e o que é errado. Eu uso como me convém. Meu corpo, minhas regras”, brada. Rosa Luz já sofreu tanto preconceito que as performances são momentos de empoderamento, de desconstruir preconceitos e responder a eles. Na própria UnB, uma apresentação em que estava nua lhe rendeu ameaças de morte.

Desmotivada com a recepção da arte no Brasil, Rosa Luz decidiu entrar em uma seleção para dar aulas e estudar no Reino Unido — só precisava de um bom projeto. Em luto pela morte de integrantes do grupo LGBTT, Rosa Luz se propôs a passar 16 dias vestida de noiva, sem emitir nenhum som. A ideia foi aprovada e ela passou três meses na Inglaterra, na Escócia e no País de Gales. Apesar de ter notado um conservadorismo grande do outro lado do oceano, sentiu um respeito maior. Além de Rosa ter sido bem-sucedida fora do Brasil, o Algodão Choque também teve sucesso fora do país. Um filme curta-metragem chamado Desova, dirigido pelo grupo, ganhou um concurso em Veneza, na Itália.  

 

Reprodução Instagram
Demi Lovato (foto: Reprodução Instagram )
Demi Lovato sem censura

No mês passado, a cantora Demi Lovato participou de um ensaio nua para a revista Vanity Fair sem nenhum retoque e sem maquiagem. Demi, que já sofreu de depressão e bulimia, encarou as fotos como uma chance de mostrar que se sente confortável em sua própria pele.

A ferramenta ideal
O Snapchat começou como um aplicativo ideal para compartilhar as nudes. A ideia era enviar um vídeo ou foto que seria reproduzido apenas uma vez, por pouco tempo, para apenas um receptor, e logo seria deletado. Os nudes se multiplicaram. Hoje, o aplicativo se reformulou e é usado para compartilhar os acontecimentos do dia a dia com os seguidores. Mas ainda dá pra mandar nudes!

 

Flagra que saiu caro
A atriz Daniella Cicarelli teve um momento íntimo filmado e publicado na internet em 2006. Na época, a atriz e o então namorado entraram com um processo contra o Google e o YouTube, pedindo que o vídeo fosse retirado do ar. As empresas pagaram multa pelos dias em que deixaram de cumprir a decisão judicial. Há duas semanas, saiu a decisão final: Daniela e Renato Malzoni devem receber R$ 250 mil, cada um.

 


 

"Tá, agora fica sem cueca"


Rafael Campos

 

A fotógrafa disse aquilo de forma natural. Acostumada aos corpos despidos, não importava quem estava ali: não era um constrangimento. Para minha surpresa, também não o senti. Há algumas semanas, ela, que é colega de trabalho, perguntou se eu toparia fazer umas fotos sem roupas. Fotografando corpos femininos desde 2011, queria treinar de que forma a luz natural se comportava em um homem.

Eu nunca tive problemas com a minha nudez, talvez porque pense, há muito tempo, que é possível separá-la do sexo. Ainda mais hoje, em uma época na qual ele é cada vez menos um tabu e que as nudes são quase um primeiro momento da paquera, ficar sem roupa não precisa, necessariamente, ser um prenúncio de uma relação sexual. Mas, até então, essa era apenas uma teoria, que foi colocada à prova depois daquela frase.

Confesso que foi fácil. Além dela, um amigo de longa data, que havia “emprestado” o apartamento para as fotos, conversava amenidades. Mesmo com os dois vestidos, tomei café, deitei, levantei, fomos ao quarto, à janela, fiquei de pé, fiquei sentado, sempre seguindo os pedidos da dona da câmera... O papo continuava e, então, me dei conta que ficar pelado entre pessoas de roupa é mesmo muito mais tranquilo do que eu imaginava.

A hipersexualização dos corpos, algo bem conhecido das mulheres como mais um efeito nefasto do machismo, não apenas reforça os estereótipos sarados que vemos todos os dias nas academias. A partir disso, faz com que criemos vergonha da nossa nudez, como se o corpo nu, necessariamente, estivesse buscando o prazer sexual. Sendo assim, tirar a roupa em frente de outra pessoa parece sempre ter um único objetivo. Quando, na verdade, não deveria ter.

Não que devamos começar a andar pelados pelas ruas, até porque eu perderia muitas camisetas legais nessa ideia. Nem mesmo critico aqueles que não se sentem à vontade com o próprio corpo, isso também é uma consequência dessa sexualização exacerbada, que estimula a vergonha de todos que estão fora dos “padrões”. O que deve acontecer é o questionamento.

“Por que tenho vergonha de ficar sem roupa na frente de outra pessoa?” Ninguém precisa fazer uma sessão de fotos, até porque sei o quão desinibido eu sou. Mas analisar o que existe além da nude é necessário não só para que nos aceitemos melhor — seja com o corpo que tivermos —, como para que consigamos não transferir as inseguranças que nossa nudez traz para o momento do sexo. E, claro, para que a gente possa sentir menos calor, não é mesmo?

 

 

"São apenas corpos!"


Paula Rafiza

 

Ser fotografada nua foi uma experiência muito interessante, como fotógrafa e como mulher. No campo da fotografia foi enriquecedor, uma vez que, geralmente, estou atrás das lentes. Colocar-me no lugar da pessoa fotografada mudou meu olhar.

Existe um tabu em relação a esse estilo de trabalho, mas acredito que quanto mais pessoas passem por essa experiência, menores serão as barreiras. São apenas corpos! A fotógrafa que realizou o ensaio é minha amiga pessoal e de profissão, e ela teve muita dificuldade em encontrar pessoas que aceitassem participar de um ensaio nu. Tenho total confiança e sou admiradora do trabalho dela, me sensibilizei com a situação e resolvi aceitar o convite.

O que mais surpreendeu foi que ela conseguiu captar com poesia e sensualidade um lado meu que eu não conhecia. As fotos foram feitas na minha casa, então fiquei bastante à vontade,  apesar de ter ficado um pouco envergonhada no começo. Mas, com sabedoria e paciência, ela foi me deixando descontraída. Entrei no clima, me soltei, e o resultado foi gratificante! A experiência toda me despertou a vontade de fazer um trabalho nessa linha.

 

 

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