Matemático mostra qual é a receita da felicidade

Christian Bayer garante que modelo ideal de satisfação combina aumentos progressivos de renda, mesmo que pequenos, e horário moderado de trabalho. Segundo o estudo, grandes ganhos financeiros não são garantia de bem-estar

LUIS ACOSTA / AFP
Pesquisa afirma que se a pessoa muda de emprego, por exemplo, para ganhar uma quantia bem maior, mas para se dedicar muito mais tempo, isso não aumentará a felicidade (foto: LUIS ACOSTA / AFP )
Na busca pela fórmula da felicidade, o dinheiro costuma ser uma importante variável. O peso da riqueza no resultado da equação, contudo, varia conforme o autor do cálculo. Agora, um estudo da Universidade de Bonn, na Alemanha, mostra que uma renda maior, de fato, aumenta a satisfação pessoal. Mas a conta não é tão simples. Para tanto, o ideal é receber aumentos periódicos — uma grande soma de uma só vez não traz o efeito benéfico. Outro componente fundamental para a alegria geral da população tem a ver com carga horária laboral: menos horas de trabalho está associado a uma percepção maior do bem-estar.

Quem fez o estudo não foi um psicólogo ou especialista em comportamento. Christian Bayer é economista matemático e seu trabalho foi publicado na revista American Economic Journal. Bayer e Falko Jüssen, da Universidade de Wuppertal, também da Alemanha, desenvolveram uma nova abordagem para investigar a influência do dinheiro na satisfação. Em vez de uma relação puramente estatística — comparar a renda das pessoas com a autoavaliação que têm da felicidade —, eles optaram por considerar a dinâmica dos ganhos financeiros. “Um aumento de renda progressivo e duradouro tem um efeito completamente diferente na satisfação do empregado, comparado a um ganho temporário, mesmo que esse último seja substancial”, observa Bayer.

O matemático explica que, embora a literatura sobre o tema seja robusta, o questionamento a respeito da influência das condições econômicas individuais na percepção da felicidade ainda carece de respostas. Para desenvolver a própria fórmula, Bayer utilizou dados do Painel Socioeconômico Alemão Anual (Soep), um estudo longitudinal que inclui dados de composição familiar, emprego, renda, saúde e indicadores de satisfação. Os pesquisadores pegaram resultados de 1984 a 2010, focando em provedores e seus companheiros com idades de 25 a 55 anos, de renda média. No fim, eles trabalharam com informações de 77.112 indivíduos.

Ocupação
Como o Soep acompanhou essas pessoas por um longo período, sempre avaliando as mesmas questões, foi possível verificar de que maneira a flutuação de renda impactou o índice de satisfação dos participantes, que sempre respondiam à pergunta “O quão insatisfeito ou satisfeito você está com sua vida no geral?”, em uma escala de 1 (nada satisfeito) a 7 (completamente satisfeito). Um dado sobre o qual os pesquisadores se debruçaram foi o relativo ao mercado de trabalho: se a pessoa estava empregada e, em caso positivo, quantas horas semanais de trabalho.

Uni Bonn / Divulgação
"Nós constatamos que, ao contrário do que já disseram algumas outras pesquisas, ter um trabalho, qualquer que seja ele, não traz mais felicidade que estar desempregado. Os desempregados no nosso estudo sofriam não pelo desemprego em si, mas pela falta de renda" - Christian Bayer, economista matemático da Universidade de Bonn (foto: Uni Bonn / Divulgação)
“Nós constatamos que, ao contrário do que já disseram algumas outras pesquisas, ter um trabalho, qualquer que seja ele, não traz mais felicidade que estar desempregado. Os desempregados no nosso estudo sofriam não pelo desemprego em si, mas pela falta de renda”, assinala Bayer. “Também observamos que o nível de felicidade vai decrescendo quanto mais horas são dedicadas ao trabalho. A fórmula do bem-estar parece ser melhorar permanentemente a renda sem aumentar as horas de trabalho. Se você muda de emprego, por exemplo, para ganhar uma quantia bem maior, mas para se dedicar muito mais tempo, isso não aumentará a felicidade. Mas, se recebe aumentos progressivos ao longo da carreira, ainda que não sejam tão altos, tendo de trabalhar a mesma quantidade de horas de antes, aí, sim, encontrará uma satisfação maior”, diz.

Na semana passada, outra pesquisa associou o contracheque mais polpudo à felicidade. “Satisfação na vida e felicidade aumentam, e a ansiedade diminui, à medida que a riqueza familiar cresce”, observou o Escritório Inglês de Estatísticas Nacionais (ONS, sigla em inglês), equivalente ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em um comunicado de imprensa. O ONS pediu às pessoas para dar notas de 0 a 10 a questões como o quanto se sentiam felizes com suas vidas e quais tipos de coisas elas achavam importantes para sua satisfação. As respostas foram, então, cruzadas com dados sobre riqueza familiar e renda mensal. De acordo com o relatório da ONS, o nível “de bem-estar pessoal está fortemente associado ao nível de riqueza da casa em que vive”.

Tipo de gasto de dinheiro é determinante
Para o psicólogo John Grohol, pesquisador de comportamento humano e escritor na área de saúde mental, a felicidade que o dinheiro traz não necessariamente está associada a um estilo de vida mais perdulário. “O dinheiro compra felicidade, mas isso depende do uso que se faz dele”, avisa. O editor da comunidade on-line Psych Central cita um trabalho de 2008 no qual se investigou, em três estudos, a relação entre os hábitos de consumo dos americanos e a autopercepção que eles têm da felicidade.


A primeira pesquisa foi conduzida com 632 americanos de várias partes dos Estados Unidos, que deveriam informar sua renda e detalhar como gastavam o dinheiro. Além disso, tinham de dizer o quão felizes se consideravam. Os pesquisadores encontraram duas coisas que estavam correlacionadas significativamente a níveis maiores de felicidade — maior renda e gastos em presentes para outras pessoas ou em doações para caridade. No segundo estudo, 16 trabalhadores foram perguntados sobre seus níveis de felicidade antes e depois de receberem o bônus anual da empresa. “Não importava o valor do bônus, aqueles que gastaram mais com outras pessoas ou com caridade reportaram mais satisfação geral que aqueles que gastaram mais come eles mesmos”, revela Grohol.


Finalmente, o último estudo, feito com 46 indivíduos, mostrou que os participantes que gastavam pequenas quantias com outros (US$ 5 a US$ 20) relatavam mais sentimentos de felicidade que aqueles que usaram a mesma quantidade de dinheiro com eles próprios. “Esses princípios altruístas podem ser aplicados para as esferas públicas. Países onde a distribuição de renda são mais igualitárias tendem a ser mais felizes. Um estudo indicou que as pessoas seriam mais felizes se pudessem escolher para onde vão seus impostos, e há quem defenda que, se tivéssemos essa opção, reclamaríamos muito menos de pagá-los porque nos sentiríamos felizes em imaginar que estávamos fazendo uma caridade, e não simplesmente gastando nossos salários com taxas e mais taxas”, observa Francis Flyyn, professor de comportamento organizacional da Faculdade de Negócios de Stanford.


Outra pesquisa recente citada pelo psicólogo John Grohol lança mais luz sobre a relação entre felicidade e renda. Os pesquisadores da Universidade Estadual de San Francisco perguntaram a 154 pessoas de 19 a 50 anos como gastavam seu dinheiro e de que forma essas escolhas afetavam a felicidade de cada uma. Os cientistas descobriram que os participantes que investiram nos últimos três meses em experiências eram mais propensos a considerar o dinheiro bem aplicado e dizer que aquele gasto os fez felizes na época e no tempo atual, comparado aos que fizeram compras materiais. “Se você quer que o dinheiro te faça feliz, considere guardar para investir em uma experiência pessoal. Não gaste com mercadorias”, disse, à época, Jeremy Dean, principal autor do estudo