Projeção para 2050 é que resistência a antibióticos vai matar 10 milhões de pessoas no mundo por ano

Especialistas defendem que problema deve ser tratado globalmente e que Brasil pode desempenhar um papel de liderança ao incluir a resistência antimicrobiana como tópico relevante de discussão em reuniões do G20

por Correio Braziliense 17/10/2015 10:00

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BRIC/Divulgação
"Essa visita nos mostrou como o país é sofisticado no desenvolvimento de pesquisas que visam à redução do abuso de antibióticos em animais. Vimos que, nessa questão, o Brasil é mais desenvolvido que os Estados Unidos" - Jim O'Neill (foto: BRIC/Divulgação)
Brasília - A ingestão excessiva e/ou incorreta de antibióticos tem levado ao desenvolvimento de bactérias que não sucumbem mais à ação desses medicamentos. E o surgimento desses micro-organismos blindados aos remédios assusta. A Organização Mundial da Saúde (OMS) trata a questão como uma ameaça real à saúde pública e teme que infecções comuns e pequenos ferimentos voltem a matar. Preocupado com o cenário, o governo britânico entregou nas mãos do economista Jim O’Neill a incumbência de formular um estudo que avaliasse os custos humano e financeiro das infecções resistentes. Os dados indicam que é preciso uma batalha intensiva contra as superbactérias.

De acordo com as projeções da pesquisa Comission Antimicrobial Resistence (AMR), as mortes anuais relacionadas a casos de doenças resistentes aos antibióticos poderão chegar em 2050 a 4,7 milhões na Ásia; 4,1 milhões na África e 392 mil na América Latina. No planeta inteiro, serão 10 milhões, a um custo de US$ 100 trilhões. Hoje, esse tipo de infecção, associada a doenças como a tuberculose, mata cerca de 700 mil pessoas por ano, ao passo que aquelas que se manifestam em pacientes com câncer tiram a vida de 8,2 milhões.

Assim que os dados foram divulgados, no fim do ano passado, Jim O’Neill e sua equipe começaram um trabalho independente de identificação de atitudes pontuais para resolver o problema. Nesta semana, ele e Dame Sally Davies, conselheira-chefe para saúde pública da Inglaterra, desembarcaram no Brasil com a mesma finalidade — a pesquisa também encabeçou a empreitada do Reino Unido contra as superinfecções.

Segundo o economista, o Brasil pode desempenhar um papel global de liderança ao incluir a resistência antimicrobiana como tópico relevante de discussão em reuniões do G20 e na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Ela tinha a intenção de conhecer “lideranças nacionais para entender como o país pode colaborar no desenvolvimento de novas drogas e métodos de diagnóstico” e conta que gostou do que viu. “Fui constantemente surpreendido, de uma boa maneira, sobre como o Brasil tem um grande número de pesquisas sobre o tema se comparado a outros países emergentes”, diz o também criador da sigla Brics, o grupo de cooperação econômica entre países emergentes do qual o Brasil também faz parte.

A dupla participou de um encontro com o recém-empossado ministro da Saúde, Marcelo Castro, em Brasília, além de palestras e visitações em instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a Fiocruz, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Fundação Getulio Vargas. Antes, passaram separadamente pela China e pelos Estados Unidos. As viagens anteriores favorecem a avaliação brasileira. “Essa visita nos mostrou como o país é sofisticado no desenvolvimento de pesquisas que visam à redução do abuso de antibióticos em animais. Vimos que, nessa questão, o Brasil é mais desenvolvido que os Estados Unidos”, compara O’Neill.

Durante a entrevista, Dame Sally Davies também disse estar animada com a disposição brasileira de lidar com o problema e reforçou o ponto de que a resistência aos medicamentos tem que ser tratada como um problema global. “No espaço de 10 anos, poderemos viver uma epidemia de superbactérias, com uma grande quantidade de pessoas morrendo”, alertou. A crise bateu na porta dos brasilienses pela última vez neste ano. Entre maio e julho, infecções por bactérias multirresistentes foram registradas em quatro unidades de saúde do Distrito Federal, causando oito mortes.

Qual o principal interesse do governo britânico em investigar infecções resistentes a antibióticos?
Dame Sally Davies — Esta semana é mais um grande momento contra as infecções resistentes a antibióticos, que é uma grande prioridade para o nosso governo e o nosso primeiro-ministro. Primeiro, queremos colocar nossa casa em ordem. Na Inglaterra e no Reino Unido, estamos fazendo variadas ações para prevenir a população contra bactérias resistentes a remédios. Desse modo, o primeiro-ministro pediu pessoalmente para Jim O’Neill liderar uma pesquisa independente dentro do tema da resistência microbiana e trabalhar com parceiros globais para desenvolver o que realmente precisa ser feito no combate a esse mal. Viemos aqui ver o que o Brasil está fazendo internamente sobre o assunto e como o país pode trabalhar conosco.

Jim O’Neill — Não estou trabalhando para o governo, essa é uma pesquisa independente. Quando você perguntou sobre qual o interesse do governo britânico para Sally, acho que a minha pesquisa é algo mais como um projeto à parte. Embora tenha que relatar ao primeiro-ministro os resultados, não preciso levar em consideração a perspectiva britânica. O que eu posso dizer é que vim aqui com minha equipe e a da Sally para descobrir o que o Brasil está fazendo ou não sobre o assunto. Queremos incorporar o país nas ideias que nossa pesquisa está tentando formular e nas recomendações para resolver esse problema. Tem sido três dias fantásticos, eu fui constantemente surpreendido, de uma boa maneira, sobre como o Brasil tem um grande número de pesquisas sobre o tema se comparado a outros países emergentes.

Quais são os principais fatores que levam ao desenvolvimento dessas superinfecções no corpo humano?
Davies — É o mau uso de antibióticos. As pessoas tomam esse medicamento de forma errada para as infecções erradas, ou não tomam a quantidade de antibióticos necessários ou não são antibióticos bons. Esse é um problema no mundo inteiro. Muitas não ingerem a dose correta dos antibióticos porque são pobres e têm acesso restrito a medicamentos; enquanto os ricos tomam em excesso. No futuro, as bactérias presentes nessas pessoas não responderão mais aos tratamentos.

O mundo está preparado para enfrentar uma epidemia de superinfecções?
Davies — Claro que não. Nosso trabalho é prevenir essa epidemia. Mas, para isso, temos que educar o público a fim de que as pessoas utilizem antibióticos somente quando for preciso. Educar as enfermeiras, os médicos e os veterinários pra prescrever esses remédios apenas se necessário e de forma cuidadosa. É preciso construir um sistema financeiro que financie o surgimento de novos antibióticos e motivar a diminuição do uso dessas substâncias em animais. Uma grande quantidade de trabalho precisa ser feita e, se não fizermos isso agora, no espaço de 10 anos poderemos viver uma epidemia de superbactérias, com uma grande quantidade de pessoas morrendo. Já existem muitos óbitos pelo mundo em decorrência de problemas que não podem ser tratados por antibióticos comuns.

O’Neill — Você pode ter certeza que o mundo não está preparado para uma epidemia desse tipo. Nossa pesquisa mostra que, se não acharmos uma solução até 2050, 10 milhões de pessoas poderão morrer devido à resistência a antibióticos. Poderemos perder por volta de US$ 100 trilhões com essa possível epidemia. O mundo não está preparado, mas, a partir da minha pesquisa, que tem muita gente com boas iniciativas, vamos conseguir alertar sobre esses perigos. Já estive na Índia, na China, nos Estados Unidos e muitas pessoas estão receptivas ao que temos que fazer. Isso nos encoraja a chegar a soluções para os riscos que estamos correndo agora. Mas ainda temos muita o que fazer.

Quais são os principais desafios na luta contra infecções resistentes a antibióticos?

O’Neill — Eu tenho10 mandamentos sobre os desafios dessa luta. Primeiro, precisamos lavar mais as mãos em todo o mundo. A Sally foi pioneira em fazer as pessoas pensarem nisso. Segundo, precisamos de uma campanha para que os jovens não tenham os mesmos maus hábitos que a minha geração tem em relação ao abuso de antibióticos. Terceiro, precisamos de mais pesquisadores nessa área, e esses cientistas precisam de uma maior remuneração. Quarto, precisamos de maior vigilância para saber como a resistência está se espalhando — esse é um grande problema tanto de países emergentes quanto dos desenvolvidos. Quinto, precisamos de mais inovações globais na formação de pesquisas sobre a dimensão do problema. Sexto, são necessárias novas formas de diagnóstico. Uma espécie de Google para os médicos. Nós temos uma boa tecnologia à nossa disposição, mas não a utilizamos para diagnosticar melhor nossos pacientes. Sétimo, precisamos de uma pecuária que ajude a controlar o uso de antibióticos em animais, que também podem desenvolver superinfecções e se transformar em agentes de disseminação de superbactérias. Oitavo, precisamos desenvolver novas drogas. Alguns dizem que esse é o nosso maior problema. Nono, necessitamos de vacinas que vão reduzir a necessidade de antibióticos tanto em humanos quanto em animais. E por fim, precisamos de uma coordenação global. Por isso, estamos tentando encorajar a China e outros países grandes a encabeçar esse movimento.

Qual a importância do Brasil nessa luta?
O’Neill — Acho que o Brasil é importante, pois é o quinto maior país em população, um dos países do meu amado Brics, o maior da América Latina e tem um grande histórico para liderar questões no Hemisfério Sul. Aqui, existem grandes pensadores que ajudaram no pensamento moderno. Nós vimos nesta semana que existem pesquisas fundamentais sendo desenvolvidas na Fiocruz, pesquisas fantásticas. Chamamos um dos pesquisadores de lá para que ele seja um dos conselheiros na nossa pesquisa. Eles mostraram que o Brasil é um grande produtor de pesquisas agropecuárias. Essa visita nos mostrou como o país é sofisticado no desenvolvimento de pesquisas que visam à redução do abuso de antibióticos em animais. Vimos que, nessa questão, o Brasil é mais desenvolvido que os Estados Unidos. Se essa pergunta fosse feita há uma semana, eu não teria certeza se teria respondido essas coisas.

Vocês se reuniram com o ministro da Saúde, Marcelo Castro. O que foi tratado nesse encontro?
Davies — Foi um encontro muito estimulante. Vimos que o ministro sabe que Brasil e o Reino Unido precisam trabalhar nessa empreitada.

O’Neill — Mesmo que ele esteja há poucos dias no cargo, achei muito cortês ter se encontrado conosco, pois ele deve ser um homem ocupado. Acho que há uma semana, ele nem sabia que estaria assumindo essa pasta. Nós levamos essa prontidão em nos receber como um símbolo de boa vontade do Brasil em ajudar nessa questão.

Existe interesse da indústria farmacêutica no desenvolvimento de novos medicamentos contra as superbactérias?
O’Neill — Outra coisa estimulante foi o laboratório brasileiro Eurofarma, que está mostrando os melhores sinais de que nos gostaríamos de ver ao redor do mundo. Não acreditamos que a indústria farmacêutica ao redor do mundo esteja fazendo o suficiente. Eles têm um foco de mentalidade muito estreito, mas essa empresa brasileira parece muito comprometida em achar novas drogas, nós aplaudimos isso. Queríamos que outros lugares do mundo tomassem a atitude dessa empresa, um exemplo inclusive para as dos Estado Unidos.

O Nobel de Medicina deste ano foi dado a duas pesquisas de combate a infecções parasitárias, entre elas, a malária. Esse é um indicativo de que a academia está mais interessada no tratamento de infecções tratadas com antibióticos?
Davies — Nós estamos muito encorajados porque foi surpreendente ver que o Nobel foi dado para uma área de doenças negligenciadas, assim como as infecções resistentes a antibióticos. São pesquisas fantásticas e muito benfeitas pelos envolvidos.

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