Trabalho que vincula orientação sexual à genética é discutido por cientistas

Não é a primeira vez que estudos relacionam biologia e homossexualidade

por Paloma Oliveto 15/10/2015 14:11

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Desde que a genética entrou na moda, na década de 1990, cientistas buscam um gene para tudo. Já se falou do gene da inteligência, do gene da generosidade e até do gene de Deus. A sexualidade humana não poderia ficar de fora e, há 20 anos, alguns pesquisadores perseguem o gene gay. Estudos com essa abordagem suscitam bastante polêmica no meio científico. Que o digam Eric Vilain e Tuck Ngun, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), segundo os quais mudanças na forma de expressão genética, a chamada epigenética, podem explicar a orientação sexual das pessoas. O trabalho provocou uma avalanche de críticas, principalmente pela amostra muito pequena: 37 pares de genes.

A epigenética se refere a alterações químicas nos genes causadas por fatores externos, como estresse, poluição e tabagismo. Elas não mudam a estrutura do DNA, apenas a forma como um gene se manifesta. Mas são tão importantes que podem, inclusive, ser transmitidas através das gerações. Na reunião anual da Sociedade Americana de Genética Humana, na semana passada, Vilain e Ngun afirmaram ter encontrado regiões do genoma onde a expressão de um gene associa-se à orientação sexual.

Eles partiram de observações prévias segundo as quais a biologia tem participação na homossexualidade. Estudos com gêmeos idênticos indicam que, quando um deles é gay, há uma chance de 20% de que o outro seja também. Isso já descarta o gene da homossexualidade, pois, nesse caso, ambos teriam de ser homossexuais. Contudo, a estatística abriu caminho para postulações de que fatores ambientais desempenham um papel na sexualidade humana.

Vilain e Ngun, inclusive, não foram os primeiros a lançar essa ideia. Há três anos, um artigo do geneticista William Rice, também da Universidade da Califórnia, mas em Santa Bárbara, já havia sugerido que um marcador epigenético herdado teria influência sobre a homossexualidade. De acordo com ele, alterações químicas no DNA que influenciam a sensibilidade do feto à testosterona poderiam “masculinizar” o cérebro de meninas e “feminilizar” o dos meninos, quando essa modificação era passada, respectivamente, do pai para a filha e da mãe para o filho.

Gêmeos

Agora, Tuck Ngun e Eric Vilain estudaram 37 pares de gêmeos discordantes — um deles é gay e o outro hétero — e 10 pares em que ambos são homossexuais. Ao analisar 140 mil regiões do genoma dos voluntários, com a ajuda de um algoritmo, eles encontraram nove onde o padrão de metilação (a modificação química do DNA) poderia estar associado à orientação sexual. Um dos genes onde ocorre o fenômeno está implicado nas funções imunes do organismo.

Em seguida, os pesquisadores dividiram os pares de gêmeos discordantes em dois grupos e investigaram se a presença de alterações químicas nas nove regiões do genoma efetivamente poderia predizer a sexualidade dos participantes. Isso ocorreu em 68% dos casos, sugerindo que, na amostra estudada — 74 pessoas —, os marcadores epigenéticos, de fato, estavam associados à orientação sexual. Em um comunicado de imprensa distribuído pela organização do congresso da Sociedade Americana de Genética Humana, Ngun, pesquisador do pós-doutorado da UCLA, afirmou que, “até onde sabemos, esse é o primeiro exemplo de um modelo preditivo de orientação sexual baseado em marcadores moleculares”. Ele esclareceu que estudos anteriores identificaram amplas regiões cromossômicas envolvidas na orientação sexual, “mas fomos capazes de definir essas áreas em níveis de pares de base com nossa abordagem”.

Muitos sites de notícia divulgaram com entusiasmo o trabalho da dupla da UCLA, ainda não publicado em revistas científicas. Mas, no próprio evento, ocorrido em Baltimore, os pesquisadores começaram a ser alvo de críticas dos colegas. Pesquisador de sistemas biológicos moleculares do Instituto Karolinska, na Suécia, e autor de artigos publicados em renomados periódicos, Sten Linnarson tuitou: “Isso é ciência péssima em tantas formas que não sei nem contar”. Diversos pesquisadores presentes fizeram piadas sobre o trabalho em suas contas no Twitter. A quantidade muito pequena de participantes no estudo foi um aspecto bastante criticado entre eles.

Um dos mais ferrenhos críticos da pesquisa é John Greally, pesquisador da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York. “O que eles não descreveram no resumo do trabalho é que as células que usaram foram derivadas da saliva, o que inclui uma mistura variável de epitélio bucal com uma grande quantidade de leucócitos”, diz, acrescentando que o DNA dos micróbios presentes na boca pode confundir o resultado do trabalho. “Eles só revelaram isso na apresentação oral do trabalho, não escreveram nada. Mas o problema mais grave é querer interpretar um resultado mecanicamente; encontrar nove regiões por meio de um algoritmo e tirar as conclusões que tiraram. Não tenho nada pessoal contra eles, mas, se o campo da epigenética quiser sobreviver, não dá mais para suportar estudos pobres e sem credibilidade”, afirma.

Para Greally, além dos autores, os sites de notícia que reproduziram a matéria de divulgação escrita pela Sociedade Americana de Genética Humana são culpados por disseminar uma história que, na avaliação dele, está extremamente preliminar. “Eles precisam ser mais rigorosos e não aceitar cegamente informações geradas por estudos de metilação do DNA que ainda não têm sentido algum”, observa. De acordo com ele, na epigenética, correlações não podem ser interpretadas como casuísticas. Greally explica que não é porque metade dos participantes do estudo tinham alterações em nove regiões do genoma e eram gays que a homossexualidade está associada a essas modificações.

Os pesquisadores da UCLA não estão falando com a imprensa. Contudo, Tuck Ngun divulgou, em seu blog, uma resposta às críticas. “Vamos ser sinceros: ninguém vai prestar atenção a não ser que você fale sobre genes implicados”, confessou. “É uma questão de interpretação. Todos queremos saber o que está acontecendo em termos biológicos, então, é claro que vamos falar de genes que parecem interessantes ou relacionados”, continuou. Ele também admitiu que o número de participantes é extremamente baixo, justificando que não havia financiamento suficiente para fazer uma pesquisa em grande escala. Contudo, manteve as conclusões e defendeu os sites que reproduziram a notícia, dizendo que, se o fizeram, é porque acharam o assunto interessante.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA