Pesquisa aponta que os descuidados com corpo e alimentação são os mais convictos de que genética influencia peso

Estudo ouviu 8,8 mil pessoas entre 18 a 79 anos

por Isabela de Oliveira 23/09/2015 09:30

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Brasília – Na Grécia antiga, Moirai – trindade de deusas que determinavam o curso da vida humana – punia e recompensava rigorosamente os homens que, impotentes diante dela, aceitavam o destino com resignação. O mito foi superado pela ciência, que, especialmente nas sociedades ocidentais, procura explicar criteriosamente as condições humanas, biológicas ou não. Para alguns indivíduos, porém, as respostas científicas se tornaram uma espécie de moirai moderno: são usadas como muleta para isentá-los da responsabilidade pela própria saúde. Estudo publicado recentemente na revista Health Education & Behavior constata esse tipo de boicote: pessoas que justificam que a obesidade é determinada pela genética descuidam mais da saúde do que aquelas que, apesar de saber da influência do DNA, se preocupam em controlar o peso.

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Mike Parent, da Universidade Texas Tech, nos Estados Unidos, chegou à conclusão depois de analisar dados de 4.166 homens e 4.655 mulheres com 18 a 79 anos e inscritos em uma pesquisa nacional de saúde e nutrição. A idade média dos participantes era de 46 anos. Eles foram instruídos a responder se concordavam com afirmativas apresentadas por um formulário. Entre elas, “algumas pessoas nasceram para ser gordas e outras para ser magras, não há muita coisa que se possa fazer para mudar isso”.

Os participantes também foram questionados sobre a atenção a informações nutricionais nos rótulos dos alimentos; se consumiam frutas e vegetais ou preferiam alimentos prontos; como tinha sido a ingestão de congelados um mês antes da pesquisa; além da quantidade de refeições realizadas fora de casa na semana anterior à investigação.

“A crença de que o peso é imutável foi negativamente relacionada com hábitos saudáveis, como a prática de exercícios físicos e a alimentação balanceada. Também encontramos evidências de que a relação entre a crença de que o peso pode ser controlado e esses hábitos saudáveis difere por faixa etária”, detalha Parent.

Segundo o pesquisador, à medida que envelhecem, as pessoas que acreditam que o peso é ditado pelo DNA se tornam menos atentas às informações nutricionais, preferem os alimentos congelados e descartam a prática de exercícios físicos da rotina. Os mais jovens e adeptos da mesma crença relataram, no experimento, seguir uma dieta levemente pior, mas não demonstraram ser tão resistentes às atividades físicas. Parent diz que outras estudos detectaram ainda diferenças de gênero na adoção de hábitos saudáveis, com as mulheres sendo mais cuidadosas. Essa relação, porém, não apareceu em seus resultados.

Passividade
Trabalhos anteriores ao de Mike Parent mostram que, se as pessoas acreditam que um atributo especial pode ser alterado e melhorado, elas estabelecem metas persistentes para alcançá-lo. As que se dão por vencidas, contudo, enxergam esse atributo como intocável, inalcançável. A chamada teoria da entidade afirma que indivíduos com essa visão de mundo tendem a aceitar o fracasso sem questionar. Em 2010, Jeni Burnette, professora da Universidade da Carolina do Norte, também nos Estados Unidos, publicou, na revista Personality and Social Psychology Bulletin uma pesquisa para investigar esse fenômeno.

Algumas pessoas foram aleatoriamente escolhidas para ler artigos que defendiam ou refutavam a imutabilidade do peso. Conforme os resultados, aquelas que leram o primeiro material relataram menor disposição e intenção para se exercitar do as que ficaram com o conteúdo sobre a possibilidade de controle do peso. “Em outro estudo, participantes que expressaram interesse em perder peso e tinham os conceitos da teoria da entidade apresentaram expectativas de perda de peso menores, evitaram o enfrentamento quando confrontadas sobre o retrocesso no emagrecimento e, em última análise, emagreciam menos, mesmo com acompanhamento nutricional”, acrescenta Parent.

O pesquisador alerta que o convencimento de que a genética é o principal fator para a obesidade leva a um comportamento autodestrutivo, que gera problemas como diabetes tipo 2, doença cardiovascular, câncer, dores nas costas, depressão, distúrbios de autoimagem e transtornos do sono. Na verdade, segundo ele, a genética responde por, no máximo, 60% da variação do peso. E em casos específicos.

Metabolismo
Nutróloga e especialista em medicina do esporte pela Associação Médica Brasileira, Alice Amaral esclarece que não existe obesidade saudável, nem mesmo quando o obeso ainda não desenvolveu problemas metabólicos. “Ele apresenta risco 24% maior de morte prematura, que pode ser causada por eventos súbitos, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular encefálico. Isso porque um dos riscos mais evidentes da obesidade é o acúmulo de gordura nas artérias”, explica. Pode ocorrer, diz a especialista, de o obeso ter uma reserva metabólica funcional orgânica que compense as alterações ocasionadas pelo peso em excesso. “Mas, com certeza, essas alterações vão aparecer muito antes do esperado”, adverte.

Segundo a nutróloga, as chances de uma criança filha de pais obesos desenvolver obesidade é 80% maior do que aquela com pais magros. Para médicos e cientistas, já está bem estabelecido que a genética responde por apenas parte dessa herança. Já o ambiente em que a pessoa está inserida é determinante para a expressão dos genes envolvidos na engorda. O estado mental do indivíduo, a médica acrescenta, também deve ser levado em consideração.

Alice Amaral conta que a depressão é responsável por aumentar em 30% as possibilidades de ganho de peso devido, principalmente, ao aumento das taxas de cortisol, hormônio do estresse que favorece o acúmulo de células de gordura na região abdominal. Outra relação é a redução da produção de noradrenalina e serotonina, substâncias que induzem a uma disfunção hormonal que tem como consequência o maior desejo por carboidratos. Todas essas dificuldades, porém, não devem ser consideradas barreiras, defende a nutróloga. “Importante é saber que existe luz no fim do túnel. Genética não é destino.”


Rotina desequilibrada
“As pessoas dizem que existem obesos saudáveis porque não apresentam nenhuma síndrome metabólica. Porém, esse conceito é muito relativo, pois leva em conta apenas o índice de massa corporal (IMC), que indica um peso acima do normal. Só que isso geralmente ocorre com atletas que têm massa magra exuberante, e o músculo pesa muito, deixando-os mais pesados do que o considerado adequado pelo cálculo do IMC. Eles, então, são considerados obesos, mas só entre aspas, pois não são gordos. Dificilmente existirá um obeso com mais massa gorda que seja saudável. A obesidade se desenvolve, basicamente e na maioria dos casos, em decorrência do desequilíbrio no estilo de vida. Estudos muito básicos identificaram genes isolados responsáveis pelo ganho descontrolado de peso. Raramente a pessoa tem um gene exclusivo que a faz engordar, mas um conjunto que facilita isso. É fundamental que não exista a ideia de que a genética é determinante para a obesidade. Todo paciente pode fazer alguma coisa para mudar seu corpo e sua qualidade de vida, cuja expectativa aumenta em termos de anos.”

Artur Pacheco Seabra, gerente do Centro Cirúrgico e chefe do Serviço de Cirurgia eral do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre

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