Esporte vira aliado na aceitação e superação dos desafios da deficiência física

Para seguir em frente é preciso, primeiro, aceitar a deficiência para depois aprender a lidar e superar os problemas

por Carolina Cotta 13/09/2015 08:45

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Jair Amaral/EM/D.A Press
O tenista Daniel Rodrigues, 18º no ranking mundial, em partida com Rafael Medeiros (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Daniel Alves Rodrigues teve sua vida transformada mais pelo tênis do que pela deficiência que lhe apresentou ao esporte. Antes de começar a treinar, em 2006, não imaginava, por exemplo, conhecer tantos países quanto conhece hoje. Décimo oitavo no ranking mundial do tênis em cadeira de rodas, o mineiro de 28 anos nem sequer voltou do Canadá, onde conquistou a medalha de prata no Parapan de Toronto, na final de duplas, ao lado do parceiro Carlos Jordan e bronze no individual. Está aproveitando a estrutura do país para se preparar para os próximos torneios. Afinal, sua vida é como a de qualquer outro esportista, deficiente ou não. Com nove anos de dedicação ao esporte, ainda está comemorando a primeira medalha em Jogos Parapan-americanos.


O paratleta nasceu com uma malformação na perna direita, 20 centímetros menor que a esquerda. Só em 2013 decidiu amputá-la, em função de problemas decorrentes de uma das várias cirurgias que fez para tentar reverter o quadro. Antes, Daniel se locomovia com o auxílio de muletas e usava a cadeira de rodas apenas para jogar. “Quando comecei a competir fora do país, vi pessoas andando com próteses e elas me incentivavam a amputar para ser mais independente”, relata o tenista, que precisou esperar algum tempo pela cirurgia. Hoje, não tem dúvidas sobre a decisão. “Se soubesse, teria tomado a decisão quando era criança e teria evitado todas as dores do caminho”, conta.

Daniel sempre se dedicou aos esportes. Desde pequeno, jogava futebol, futsal, handebol e peteca com os amigos. O tênis em cadeira de rodas foi uma ideia de um professor da escola onde estudava, em Santa Luzia. Vendo Daniel tão desenvolto entre os colegas, perguntou ao então garoto se ele não teria interesse por um esporte direcionado a pessoas com deficiência. “Ele procurou uma entidade e comecei a treinar e a competir no mesmo ano (2006). Foi quando me encontrei. O tênis mudou a minha realidade. Tenho hoje uma vida que nunca imaginei. O esporte me ensinou a ganhar e a perder, me ensina coisas novas todos os dias, me permite conviver com pessoas com deficiência como a minha ou, às vezes, mais complicadas”, diz.

EXEMPLO 
Assim como o professor aposentado Túlio Max, Daniel também viu no esporte uma oportunidade para seguir de bem com a vida, apesar da deficiência. Assim como Túlio, Daniel também precisou aceitar sua condição e dela tirar forças para se superar. Talvez porque ambos viram nas suas deficiências os maiores desafios de suas vidas. O esporte faz isso. Tem ajudado muitas pessoas a lidar melhor com a deficiência. Talvez porque ele seja a forma mais simples e objetiva de enfrentar limitações. Encarar o ritmo dos treinamentos, a perspectiva do pódio, a possibilidade de ganhar ou perder, ajuda as pessoas a acreditar que podem chegar aonde quiser. Tem dado certo para muitos.


MODALIDADE
O tênis em cadeira de rodas tem praticamente as mesmas regras do tênis convencional, com exceção da possibilidade de a bola quicar até duas vezes na quadra antes da rebatida. As cadeiras utilizadas são esportivas, com rodas adaptadas para melhor equilíbrio e mobilidade. Não há diferença em relação às raquetes e às bolas. Para disputar, o único requisito é que o atleta tenha sido clinicamente diagnosticado com deficiência relacionada à locomoção. Para isso, é necessário ter total ou substancial perda funcional de pelo menos uma das pernas.

Um olhar aguçado
la não planeja ganhar de ninguém. Importava mais descobrir um novo prazer. Valia mais poder compartilhar isso com outras pessoas que, como ela, são deficientes e não por isso menos aptas a experimentar. Quando ficou totalmente cega, aos 18 anos, a estudante de direito Carla Chierosa Antunes foi apresentada a algumas modalidades esportivas adaptadas à deficiência visual. Chegou a jogar o goalball, mas não achou muita graça. Preferia patinar, como na infância, quando ainda enxergava. E, apesar de não ter encontrado nada sobre patinação para cegos, foi atrás.

Arquivo Pessoal
Carla Chierosa passou por vários esportes antes de redescobrir o prazer de patinar, brincadeira que adorava quando criança (foto: Arquivo Pessoal )
Carla nasceu com glaucoma congênito e passou por várias cirurgias, uma delas com poucos dias de vida. Aos 9 anos, perdeu a visão do olho esquerdo. Aos 18, perdeu também a oportunidade de enxergar com o direito. A cegueira sempre foi uma sentença, algo que ela esperava, embora não tão cedo. Mas, de forma alguma a cegueira abalou os planos de Carla, uma menina ainda mais aberta depois da deficiência. “Sempre convivi com essa realidade. E minha mãe jogou limpo o tempo todo. Dizia que se não tratasse direito eu perderia a visão. Eu sabia que isso ia acontecer”, lembra.

Ainda com alguma visão, Carla começou a fazer treinamento de mobilidade para se preparar para esse momento em que precisaria de um novo olhar para o mundo. Para estudar, se comunicar e, também, para se exercitar e se divertir. Foi um ex-namorado quem sugeriu que ela voltasse a patinar, um hobbie tão querido no passado. Depois de não achar nenhum relato de cegos que patinassem, ligou para um instrutor e marcou uma aula. Só no fim da conversa, avisou: “Ah, sou cega”, brinca. Foi um grande encontro. O instrutor, Emerson Pancelli, tinha perdido os movimentos da perna por um tempo e se recuperou com a ajuda da patinação. Parecia a dupla perfeita.

PROJETO
Este ano, Carla e Emerson trouxeram de volta o Projeto Hero. Criado por ele em 2012 para vencer as limitações de locomoção, o Hero, agora, leva o prazer da patinação para pessoas com deficiência. Juntos, eles estão adaptando a técnica para os deficientes visuais, que patinam com uma venda nos olhos para alertar quem passa por perto que eles não estão enxergando. A patinação é feita sempre com um guia, no caso Emerson. Juntos, eles participaram, inclusive, de uma meia maratona em São Bernardo do Campo, interior de São Paulo, onde vivem. “Andamos de mãos dadas. Guiada por ele, posso experimentar de novo o prazer de patinar. Queremos que outros deficientes vejam que é possível se divertir”, comemora.

Saiba mais sobre o projeto 'Hero':


VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA