Veneno de vespa brasileira ataca células cancerígenas

Pesquisa feita pela Unesp, em parceria com universidade inglesa, identifica substância produzida pelo inseto que pode levar a novos tratamentos contra tumores

por Paloma Oliveto 08/09/2015 10:30

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Mario Palma/Unesp/Divulgação
Vespa da espécie Polybia paulista: em laboratório, o veneno do inseto atrapalhou o crescimento de células de câncer e poupou as saudáveis (foto: Mario Palma/Unesp/Divulgação)
Na pele, ele causa dor, coceira, queimação e inchaço. Mas, para a medicina, o veneno nem sempre é vilão: Hipócrates receitava arsênico contra úlcera; Plínio, o Velho, apostava no líquido extraído de serpentes para curar a catarata. Hoje, com maior sofisticação técnica, a ciência também se volta à investigação de substâncias tóxicas que levem ao desenvolvimento de novos remédios. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp), um grupo de pesquisadores encontrou no veneno de uma vespa brasileira o potencial de combater células cancerosas. O resultado do estudo foi publicado na revista Biophysical Journal, do grupo Cell.

A descoberta está em fase embrionária, ressaltam os cientistas. Mas, se confirmada nas próximas etapas, poderá fazer do veneno da Polybia paulista forte candidato para compor uma nova classe de medicamentos oncológicos, que visam à camada de lipídeos da membrana celular. “Isso poderia ser útil no desenvolvimento de novas terapias combinadas, em que múltiplas drogas são usadas simultaneamente para tratar um câncer, ao atacar diferentes partes das células cancerígenas ao mesmo tempo”, destacou, em um comunicado, o pesquisador da Universidade de Leeds Paul Beales, coautor do estudo. Nos testes da Unesp, realizados com células cancerígenas de tumores sólidos, cultivadas em laboratório, o veneno evitou o crescimento das estruturas doentes e poupou as saudáveis.

De acordo com João Ruggiero Neto, pesquisador do Instituto de Biociências da Unesp e também autor do artigo, em 2009, os cientistas da universidade brasileira detectaram, pela primeira vez, a presença de um peptídeo chamado MP1 no veneno da Polybia paulista. A substância começou a ser explorada por sua atividade antibacteriana.

“O MP1 é um potente bactericida e não citotóxico e tem grande potencial de substituir antibióticos convencionais”, esclarece Ruggiero. “O crescimento no número de cepas resistentes aumenta exponencialmente e a busca por novos compostos bactericidas é de grande importância”, lembra. O cientista explica que a substância retirada do veneno da vespa atua criando poros na membrana celular. Dessa forma, parte do citoplasma se perde, o que inviabiliza a ação da bactéria. Com as células cancerígenas investigadas no estudo é possível que o mecanismo seja o mesmo, embora Ruggiero não descarte outras possibilidades.

O trabalho da Unesp soma-se a outras pesquisas que buscam, nos venenos de animais peçonhentos, substâncias com potencial anticâncer. Em Cuba, o Instituto de Oncologia e Radiobiologia do Ministério de Saúde Pública vem realizando testes com a toxina de um escorpião da ilha no combate a tumores de cérebro. Na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, estudos ainda preliminares constataram o potencial de um elemento sintético que mimetiza o veneno de abelhas, cobras e escorpiões para impedir a proliferação celular do câncer de mama e do melanoma.

DIVISÃO IMPEDIDA

“Nem todos os venenos têm o mesmo potencial anticâncer, mas alguns conseguem frear o crescimento das células”, explica o professor do Instituto de Biociências da Unesp Mário Sérgio Palma, que também assina o artigo no Biophysical Journal. De acordo com o cientista, as toxinas agem em um processo fundamental do desenvolvimento do tumor: a divisão das células que, no caso do câncer, ocorre de forma desordenada. “A toxina trava a divisão celular. Quando ela vai se dividir em duas, para se duplicar, o veneno trava as fibras e mata as células. Não é uma ação genética, é mecânica”, esclarece.

Ao mesmo tempo, o tecido saudável não é atingido, um pré-requisito que qualquer candidato a medicamento precisa cumprir. João Ruggiero Neto explica que isso ocorre devido às características diferentes das células doentes. “Nas saudáveis, existe uma assimetria na distribuição de fosfolipídeos”, diz, referindo-se às moléculas que constituem a membrana celular. “Dois fosfolipídeos PE e PS (fosfatidiletanolamina e fosfatidilserina) estão na camada interna da bicamada. Nas células de câncer, esses fosfolipídios estão na camada externa. O PS tem carga negativa e o peptídeo tem carga positiva, então há atração do peptídeo pela membrana por causa das cargas opostas. A camada externa das células saudáveis não tem carga, logo, o peptídeo não é atraído pela membrana”, ensina.

Apesar dos resultados bem-sucedidos, há um longo caminho antes que o veneno da vespa seja confirmado como possível substância anticâncer. O próximo passo é testá-la em modelos de pequenos animais, como roedores, mas, embora existam planos para isso, falta orçamento. “Existe um planejamento, mas não sabemos quando haverá liberação de recursos, ainda mais com essa crise”, observa Mário Sérgio Palma.

Serão necessários ainda testes com animais maiores e, depois, em humanos, um processo que pode levar mais de 10 anos. Se, no meio do caminho, os efeitos colaterais forem muito fortes, a substância é descartada. Porém, caso os resultados preliminares se confirmem, o veneno da vespa poderá beneficiar pacientes de diversos tipos de câncer, como os de pulmão e fígado. “A toxina tem um enorme potencial”, diz Palma.

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