Pega pra capar

por Zulmira Furbino 06/09/2015 11:58

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Lelis
(foto: Lelis)

 

Nunca fui chegada em promiscuidade, a não ser quando o tema a ser considerado são os santos. Justo eles, que deveriam, por sua obra e graça, passar longe desta conversa.

Quem chega a minha casa logo de cara topa com o pequeno, embora poderoso, São José, o santo protetor da família (trata-se daquele que escolhe um companheiro ou companheira pra você, em vez de te arranjar o primeiro que passa na esquina, com o perdão de Santo Antônio, que já me decepcionou uma vez).

Envolto num arco de ferro sobre o qual passa um fio de cobre fino, enfeitado com pequenos cristais e delicadas flores de rede de aço envelhecido com iguais pedrinhas servindo de botão, ele reina absoluto no momento da chegada.

Se o visitante curioso olhar para a porta de entrada, verá uma pomba de madeira pintada de branco dependurada na maçaneta, imagem que remete ao Divino Espírito Santo. E, à direita, um espelho que fica em cima de um móvel antigo.

Na superfície desse móvel, dentro da bandeja laqueada de vermelho, há um vidrinho com uma flor pintada na frente. Está cheio de sal grosso (para espantar o mau-olhado) e tem a tampa no formato de pomba.

Sei que Fernando Pessoa disse que a segunda pessoa da Trindade é uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo. Embora ame Pessoa e o poema de O guardador de rebanhos, optei por manter a minha lá, por si acaso.

São José e o vidrinho com a pomba são meus guardiões. Só que ainda não acabou.

Ao voltar o rosto para a frente outra vez, quem entra, vai notar um quadro com moldura laqueada de branco. Dentro dele, protegido por um vidro, verá um belo estandarte, formado por uma coroa enfeitada com vidrilhos, miçangas e fitas coloridas.

Ali, Maria, numa figura lindamente bordada, aparece cuidando do pequerrucho Jesus Cristo, que está na manjedoura com os pezinhos pra cima, na postura do bebê feliz.

Caminhando até a cozinha, a visita vai se deparar com uma parede ultracolorida – que tem uma janela no centro –, coberta com o que parece ser um papel de parede florido, mas, na realidade, é uma daquelas toalhas de mesa de plástico estampadas usada de outro jeito.

Uma cortina de renda cobre a janela. Bem ali, em meio ao tecido que se move ao vento e à claridade da luz que entra, está minha Nossa Senhora de Fátima, num miniestandarte dependurado no pequeno altar pintado de azul, onde repousa uma minúscula representação de Nossa Senhora Aparecida.

Seguindo pelo resto da casa, há terços, medalhas de São Bento, uma cruz de madeira que fica na cabeceira direita da minha cama, uma bíblia, aquele pequeno folder de novena.

Isso sem falar em São Judas Tadeu, protetor das causas impossíveis, que já salvou minha vida duas vezes, e do meu querido São Jorge guerreiro.

Não sou nenhuma carola, mas é tanto santo envolvido, que, na hora do pega pra capar, me sinto meio perdida e sem saber a quem apelar. Nesses casos, é possível fazer um rodízio, se bem que sempre bate aquela dúvida: e se der confusão entre eles?

Imagine só a balbúrdia no céu, e justo por minha causa.

“Não, Jorge, esse pedido ela fez pra mim!”, diria São Judas, interrompido por Nossa Senhora. “Não senhor, o senhor está redondamente enganado. Ontem à noite ela me pediu isso, até anotei no meu caderninho!”, rebateria a Santa, que é muito organizada.

Daí surgiria São José: “Que isso, rapaziada!? Ela pediu foi pra mim”. “Nananinanão!”, retrucaria o Menino Jesus, que havia fugido do céu, mas acabava de retornar: “É comigo que ela bate papo toda noite, gente!”

Pensar que minha promiscuidade santística poderia causar um atrito entre os santos é uma coisa aterradora, mas pior é imaginar que eles se dariam conta da minha infidelidade – intensa nesses tempos em que “não tá fácil pra ninguém” – e romperiam relações comigo.

Pronto. Tá explicado porque ainda não ganhei na loteria e nem conquistei o Brad Pitt.

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