Eu te conheço de algum lugar? Estudo explica o que está por trás da perda da memória relacionada a rostos

Descoberta pode levar a tratamentos de doenças como o mal de Alzheimer

por Vilhena Soares 25/08/2015 08:35

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Gomes / CB / D.A Press
Por mais banal que possa parecer essa tarefa, reconhecer uma feição constitui um dos maiores desafios para a mente, garantem os autores (foto: Gomes / CB / D.A Press)
Muitas pessoas já passaram pela situação desconfortante de encontrar alguém na rua e não ter certeza se a conhece ou não. Essa saia justa, tão comum no dia a dia, intrigou uma equipe de pesquisadores americanos, que, ao desvendar os circuitos cerebrais envolvidos no confuso processo, conseguiu não só explicá-lo melhor, como também abrir caminhos para tratamentos de problemas da memória, incluindo o mal de Alzheimer.

Publicado na revista especializada Neuron, o estudo usou como modelos camundongos, animais cujo cérebro tem estrutura semelhante ao dos humanos. Como resultado, concluíram que a falha no reconhecimento de pessoas — e também locais — tem origem em um sistema neuronal responsável por fazer a separação entre elementos inéditos e conhecidos visualizados pelo indivíduo.

Por mais banal que possa parecer essa tarefa, ela constitui um dos maiores desafios para a mente, garantem os autores. “Você vê um rosto familiar e diz para si mesmo: ‘Eu acho que já vi essa cara, mas é alguém que eu conheci há uns cinco anos, talvez com cabelo mais fino ou óculos diferentes. Ou será alguém completamente diferente?’”, descreve James J. Knierim, professor de neurociência no Instituto Zanvyl Krieger. “Esse é um dos maiores problemas que o nosso sistema de memória tem para resolver”, garante ao Estado de Minas o líder do trabalho.

Para decifrar como a dúvida surge, os cientistas analisaram o hipocampo dos ratos, região cerebral ligada à memória. Hipóteses anteriores apontavam duas partes dessa área como as responsáveis por esse processo: o giro denteado e a CA3. O primeiro seria responsável por identificar estímulos novos e separá-los de referências conhecidas. Já ao CA3 caberia minimizar pequenas mudanças de uma experiência anterior para que ela não seja erroneamente classificada como algo novo, um processo chamado padrão de realização. Segundo essa explicação, quando uma pessoa entra em um quarto familiar levemente redecorado, o giro denteado forma automaticamente uma nova memória do aposento e a envia para a CA3, que, então, deverá ignorar as pequenas mudanças e ajudar no reconhecimento do espaço.

A equipe de Knierim conseguiu detalhar melhor esse mecanismo implantando eletrodos no hipocampo de camundongos que, mais tarde, eram submetidos a experimentos de memória. Os animais eram colocados para correr em esteiras circulares enquanto buscavam alcançar uma prenda de chocolate granulado. Com o tempo, a textura da esteira era alterada, podendo ser uma lixa, uma superfície adesiva ou borracha. Também foram utilizados objetos distintos, conectados à pista. Por mais de 10 dias os animais repetiram as atividades, construindo mapas mentais.

FUTURO
Em uma etapa seguinte, os pesquisadores mudaram o sentido no qual os animais corriam e a disposição dos objetos, criando uma incompatibilidade de percepção na mente das cobaias. Com a ajuda dos eletrodos, os cientistas observaram que, mesmo quando as mudanças eram poucas, o CA3 mudava seus padrões de atividade. Isso significa que a região realmente está envolvida no processo, mas de uma maneira diferente. “Costumava-se pensar que todo o CA3 tomava a mesma decisão. Nossa experiência mostra que, em vez disso, uma parte do CA3 decide se o espaço é uma nova sala, e outra parte determina se aquele é um lugar familiar e, assim, recupera a memória daquele local”, explica o autor do trabalho.

A descoberta de que o CA3 tem mais funções do que se imaginava pode ajudar futuramente em tratamentos médicos ligados a problemas de memória, como o mal de Alzheimer. “Essa é a pesquisa científica básica. Esperamos que, futuramente, ela forneça insights sobre os mecanismos cerebrais de memória, o que pode levar a futuros tratamentos. No entanto, é difícil prever como seriam essas terapias”, destaca Knierim. “Uma possibilidade especulativa é a criação de testes do potencial de perda de memória em pacientes com doença de Alzheimer antes de o dano cerebral ocorrer. Ou seja, imagens do cérebro podem mostrar sinais sutis de déficits nesses processos antes que a doença progrida de forma irreversível. Mas é um caminho longo, caso ocorra”, completa.

Norberto Anízio Ferreira, membro da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), concorda. “É uma região que sabíamos estar ligada à memória, mas não que tinha essas divisões de reconhecimento mais complexas, de padrões novos e antigos. É algo útil e interessante, mas é muito cedo para falarmos em tratamentos”, avalia. “Essa região é atingida pela doença de Alzheimer, porém, precisamos saber mais sobre o tema para destacar sua importância.”

Para Ferreira, que não participou do estudo, mais trabalhos são necessários para desvendar as falhas ligadas ao reconhecimento, pois outros fatores podem pesar nesse tipo de memória. “A ansiedade e a atenção podem influenciar na capacidade do cérebro em trabalhar esse tipo de informação. Quando você está ansioso ou preocupado, não consegue focar e dá aquele branco. Existem muitas conexões que podem estar envolvidas”, frisa o neurologista.

O trabalho dos americanos terá continuidade, com o objetivo de estudar outras regiões ligadas à memória. “Estamos analisando a área CA1 do hipocampo, que recebe a saída da CA3. Queremos saber como partes do CA1 interpretam a saída conflitante. Uma vez que a CA1 se comunica com o resto do cérebro, é importante saber como se resolve o conflito de informações”, explica Knierim. Outro passo próximo da equipe é analisar a memória ligada ao envelhecimento. “Vamos abordar como esses processos podem mudar durante o envelhecimento normal e anormal e testar se certos tratamentos com medicamentos podem contribuir para corrigir anomalias nesses processos”, adianta o líder do estudo.

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