Pesquisa explica como mulheres soropositivas conseguem dar à luz filhos que não têm o HIV

Cientistas detectam, em macacos, que fetos expostos ao vírus ficam mais resistentes à ação dele depois que nascem. A descoberta pode ajudar no desenvolvimento de vacinas contra a Aids para humanos

por Vilhena Soares 25/08/2015 15:00

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SXC.hu
Observações mostram que a exposição a patógenos infecciosos no útero pode resultar em respostas imunitárias reduzidas ou tolerância (foto: SXC.hu)
Um dos mistérios que rondam a medicina é como mulheres soropositivas conseguem dar à luz filhos que não têm o HIV. Pesquisadores dos Estados Unidos tentaram entender esse mecanismo em um experimento com macacos rhesus. Ao colocar filhotes ainda no útero de mães em contato com o SIV, micro-organismo parecido com o HIV e que afeta primatas não humanos, identificaram marcadores imunológicos que protegeram as pequenas cobaias do patógeno. Segundo eles, a descoberta, detalhada na  revista Science Translational Medicine, pode ajudar no desenvolvimento de vacinas contra a Aids.

A equipe liderada por Joseph McCune, chefe da Divisão de Medicina Experimental da Universidade da Califórnia, partiu de estudos anteriores que indicavam a possibilidade de haver uma maior proteção ao vírus em bebês que tinham sido expostos ao HIV antes do nascimento. “Observações mostram que a exposição a patógenos infecciosos no útero pode resultar em respostas imunitárias reduzidas ou tolerância. Temos a hipótese de que a exposição fetal ao HIV pode tornar o feto resistente ao vírus, diminuindo, assim, os danos causados pela infecção na vida adulta”, destacam os autores no estudo divulgado hoje.

Para provar a suspeita, fetos de macacos foram expostos ao vírus da imunodeficiência símia (SIV) em carga reduzida, incapaz de desencadear a doença. Após o nascimento, esses filhotes e os de um grupo de controle que ainda não tinham tido contato com o vírus receberam uma versão mais forte do micro-organismo. Os primeiros mostraram maior resistência à doença do que os pertencentes ao segundo grupo. Não que não tenham ficado doentes, mas o SIV os prejudicou menos.

Os cientistas explicam que, mesmo não sendo 100% eficaz, a barreira à doença mostra um diferencial quanto à exposição precoce de bebês ao vírus. “Os animais expostos ao SIV no útero melhoraram as respostas imunes. Embora o desenvolvimento de uma maior tolerância não tenha sido demonstrado, os resultados apoiam a hipótese de que a exposição a esse vírus durante o primeiro trimestre tem um efeito sobre a resposta do recém-nascido a ele”, ponderam os autores no artigo.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)


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No experimento, também foram identificados marcadores imunológicos responsáveis por proteger os macacos do vírus depois do nascimento. Essas substâncias poderão ser exploradas em pesquisas focadas na elaboração de vacinas contra o HIV, servindo, por exemplo, como base para novas fórmulas de proteção. Outra esperança dos investigadores é encontrar uma estratégia que reduza a inflamação causada pelo vírus em humanos.

“As vacinas tradicionais geralmente induzem a ativação da resposta imune, que pode, paradoxalmente, favorecer a replicação viral e a disseminação do vírus. Uma abordagem alternativa para impedir isso seria criar uma vacina que funcionasse impedindo as inflamações durante as fases iniciais da infecção, o que reduziria a propagação do vírus”, explicam os cientistas. Segundo eles, o próximo passo do trabalho será identificar formas de reduzir a inflamação.

Para Alberto Chebabo, infectologista do Laboratório Exame, em Brasília, se alcançada, essa pode ser a grande contribuição do estudo norte-americano. “Realmente, foram encontrados alguns marcadores, novos parâmetros imunológicos, mas não foi observada a resposta que gera menos inflamação, que é o que tem se buscado em pesquisas do tipo e o que tentam as propostas de desenvolvimento de novas vacinas”, destaca o especialista.

Segundo Chebabo, o trabalho precisa de continuidade para render projetos mais concretos, que possam ser usados futuramente para a prevenção e também o tratamento da Aids. “Uma das maiores buscas nessa área é justamente uma estratégia que possa reduzir a atividade inflamatória em pessoas soropositivas porque isso diminui as chances de que outras doenças ocorram. Encontrando essa possibilidade, diminuiríamos o impacto da Aids”, explica.



Pré-natal decisivo
As taxas de transmissão do vírus HIV de mãe para filho podem chegar a 20%, em casos em que não há um acompanhamento pré-natal. Se há apoio médico, o risco costuma ser reduzido para menos de 1%. Para evitar esse tipo de contaminação, são utilizados antirretrovirais, o parto é cesáreo e não há amamentação. O bebê também recebe medicamentos contra o vírus durante quatro semanas após o nascimento. O teste de HIV geralmente é realizado no primeiro trimestre da gestação, mas pode ocorrer no decorrer da gravidez e até na hora do parto.

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