Uma espécie de imperador

por Zulmira Furbino 19/08/2015 15:19

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Marcelo Lelis
(foto: Marcelo Lelis)
 

Era uma vez um rei sem noção, egoísta e perigoso, o Rei da Cocada Preta. Para assumir o cargo, tudo o que ele precisa é mostrar que é “macho pra carai”. De pedreiro a político, de médico a engenheiro, de cientista a artista, de bailarino a faxineiro, um RCP pode ser qualquer coisa.


Não importa sucesso profissional, fama ou conta bancária. Não importa que seja homem, mulher, hétero, gay, negro, branco, transgênero. Basta ser covarde, bater em mulher, agredir minorias, atropelar ciclista propositadamente na avenida.

 

O Rei da Cocada Preta se acha uma espécie de imperador. Pelo menos é isso o que vê toda vez que se depara com sua própria imagem no espelho. Na realidade, porém, trata-se de uma pessoa adoecida. Há que ter cuidado ao cruzar o seu caminho.

 

Ultimamente, por exemplo, espécimes extremos desse tipo apareceram nos jornais, revistas e sites de notícia na pele de um médico da elite estuprador de pacientes ou como aquele cara que, brincando de testar o “turbo” do seu carro, tirou a vida de duas pessoas.

 

Mas um RCP não é só o sujeito que ficou famoso por exibir um grau de periculosidade que chegou ao ponto máximo nos jornais.

 

Ele pode ser o vizinho que “incendeia” o prédio nas madrugadas de segunda-feira em recorrentes festas de arromba com o som no talo. Ou a vizinha que, sabendo que há uma pessoa doente no apartamento ao lado, interfona várias vezes ao dia para perguntar se ali funciona uma pensão.

 

Um Rei da Cocada Preta age – e vive – como se ocupasse o topo da cadeia alimentar e considera que esse posto é eterno. Trata-se de um sujeito inflexível, chegado numa hierarquia e no status quo.

 

Desconsidera que o mundo dá voltas e que algumas guinadas, quando ocorrem, tornam a vida mais difícil. Se a mudança o desfavorece, nega-se a aceitar a realidade e “brilha” de um modo todo próprio. Foi o que constataram três estudantes de 20 anos noite dessas.

 

Ao sair de um bar, elas seguiram até um ponto de táxi, onde um motorista aguardava passageiros. Entraram no carro, cumprimentaram o taxista, informaram para onde iam e o trajeto que deveria ser feito.

 

Ele, no entanto, desconsiderou o pedido e, ao chegar numa rua sem testemunhas, acelerou o veículo de forma agressiva. As clientes reclamaram educadamente.

 

Foi o que bastou para que o sujeito começasse a berrar e parasse o carro, expulsando-as e obrigando as três a descer numa rua escura e deserta. Eram 2h da manhã.

 

Apavoradas, as três saíram correndo, sem se lembrar de pagar a corrida (até o ponto em que foram abandonadas). Então o motorista passou a segui-las, proferindo ameaças. O pânico durou até que chegaram ao local onde uma delas mora. Depois que entraram, o táxi permaneceu na rua por mais de uma hora e meia à espera de que saíssem.

 

Infelizmente, esse é um relato real. O segundo que ouço sobre agressões feitas por taxistas contra passageiras em corridas durante a madrugada na cidade. No primeiro, ao perceber que a cliente havia fotografado a placa do seu carro, o motorista lembrou-a de que sabia onde ela morava e ameaçou voltar se houvesse denúncia.

 

É compreensível que a maioria dos taxistas esteja preocupada e sinta-se pressionada e estressada com a queda de faturamento provocada por mudanças de mercado, materializadas no aparecimento de um novo serviço de transporte de passageiros, o Uber.

 

Mas vamos lembrar que mudanças drásticas ocorrem também com outras categorias profissionais, como o jornalismo e nas livrarias, e nem por isso se veem jornalistas e livreiros ameaçando seus leitores por aí.

 

É inadmissível que alguns taxistas, em prejuízo de seus colegas de classe, soltem suas feras, tornando-se algozes dos passageiros. Ameaça é crime, e bancar o rei da cocada preta “macho pra carai”, o fim da picada. Mas matar a galinha dos ovos de ouro é simplesmente burrice.



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