Você sente o corpo tremer, taquicardia e outros sintomas que se confundem com infarto? Pode ser ataque de pânico

Quanto mais cedo se tratar, maior a chance de se curar

por Gustavo Perucci 18/08/2015 10:16

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“Demorou um pouco até entender que o fato mais importante era este: perder o controle me apavora. O nervosismo daquela noite havia sido só a última gota em uma caixa enorme que eu estava enchendo há muitos anos e que, de repente, transbordou. Foi preciso passar pelo que passei para entender melhor os pequenos monstrinhos que habitam em mim”
(Trecho do relato da jornalista Daniella Cronemberger no livro 'Paúra – Um mergulho na síndrome')


Reprodução
Uma das imagens do ensaio fotográfico de José Maria Palmieri feito para o livro, que traz relatos de pessoas que superaram o transtorno (foto: Reprodução )
Você está tranquilo em casa e, de uma hora para outra, começa a sentir taquicardia, acompanhada de dor no peito, faltar de ar e tremor. Qual seria sua primeira reação? Ir a um pronto-socorro? Ligar para seu cardiologista? Sim, o recomendado é, realmente, diante de tais sintomas, procurar atendimento médico o mais rápido possível. Mas, em muitos casos, depois de realizados os exames, a pessoa não tem nenhum problema físico constatado. Isso é o que ocorre com 90% dos pacientes que sofrem de transtorno do pânico, que se manifesta por ataques intensos de ansiedade, acompanhados de sintomas físicos.

Para o psiquiatra e chefe do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais Humberto Correa, num primeiro momento, o ataque de pânico se assemelha a uma doença orgânica. “A pessoa pensa que está enfartando. Com frequência, o primeiro contato médico que essa pessoa tem é com um serviço de atendimento de urgência. Esses profissionais têm que ser capazes de identificar a doença e encaminhar para um especialista”, observa.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), de 3% a 4% da população mundial tem trastorno do pânico. Assim como a depressão, costuma ser mais frequente em mulheres que em homens. “Ainda não se sabe a razão desse quadro, mas, em termos estatísticos, alguns transtornos de ansiedade são mais vistos em mulheres”, explica Humberto Correa. Segundo o psiquiatra, mesmo que o transtorno possa se manifestar em qualquer idade, o normal é que ele ocorra em indivíduos adultos, geralmente, na terceira década de vida. Os ataques duram, geralmente, de cinco a 20 minutos.

“O ataque de pânico, normalmente, ocorre sem nenhum fator desencadeante. A pessoa pode estar tranquila, dormindo, inclusive. A principal característica é de uma ansiedade maciça. São dois tipo de sintomas: os psíquicos e os físicos. Os psíquicos são uma sensação de morte iminente, de que algo grave esteja ocorrendo ou está por ocorrer. Os físicos são ligados muito à esfera cardíaca e respiratória. E isso, possivelmente, vai desaparecer da mesma forma que apareceu”, completa o psiquiatra.

Humberto Correa alerta que metade dos pacientes diagnosticados com transtorno do pânico desenvolvem o quadro de agorafobia, que é o medo de que determinadas situações e lugares deflagrem um ataque. Ele explica que, quanto mais tempo se leva para iniciar o tratamento, maior a chance da evolução da doença para a agorafobia. “O que ocorre é que a pessoa tem um, dois ataques e começa a ficar com medo de sair sozinha, de passar mal e não ter ninguém por perto para ajudar. Quanto mais ataques de pânico sem tratamento, mais o quadro vai se agravando.”

TROCA DE EXPERIÊNCIAS
O tratamento farmacológico, segundo o médico, resolve muito bem o transtorno de pânico. Já no quadro de agorafobia, os medicamentos não são tão eficazes e é necessário a terapia. “Ainda existe muito preconceito relacionado à doença mental. Temos que reconhecer que melhorou muito em relação ao que era no passado, mas ainda existe um estigma”, completa.

Com o objetivo de trazer uma visão menos clínica sobre a síndrome e diminuir o preconceito em relação à doença, as jornalistas brasilienses Daniella Cronemberger e Lara Haje se uniram ao fotógrafo José Maria Palmieri e à artista plástica Daniela Ktenas para produzirem o livro Paúra – Um mergulho na síndrome do pânico. A publicação traz relatos de 12 pessoas sobre suas experiências com o transtorno, incluindo os quatro autores. “Os quatro passaram pelo pânico e todos transformaram essa experiência em texto, fotografias e bordados. A Lara e eu ficamos responsáveis pelos textos, o José, pelo ensaio fotográfico que vem no fim do livro e a Ktenas, pelas ilustrações”, explica Daniella.

A jornalista conta que, num primeiro momento, descartou a ideia do livro, pois considerou fora de questão escrever sobre um assunto tão pessoal, expondo sua intimidade. Para ela, a própria terapia a ajudou a mudar de opinião. “É complicado falar de seus problemas, ainda mais num momento em que as pessoas estão tão preocupadas em construir uma imagem perfeita de si mesmas nas redes sociais. É difícil admitir isso. Mas, no momento que se naturaliza a questão, o retorno é muito positivo. Hoje, acho um desperdício não se falar de coisas delicadas.”

O processo de coletar depoimentos, conversar com as pessoas e escrever os textos ajudaram a jornalista a se entender melhor. E ela espera que o livro ajude outras pessoas da mesma maneira. Hoje, ela fala sobre o pânico com a certeza de que está falando de algo “absolutamente natural”.

“É um assunto que ainda é tratado como um tabu. Quem sofre de pânico tem medo de ser visto como desequilibrado, maluco. Num momento difícil, seja ele qual for, o compartilhamento de experiências parecidas é muito importante. Você deixa de se sentir tão sozinha, como se fosse a única pessoa que está passando por aquilo, e aprende muito com o processo do outro. Escutar uma vivência semelhante ajuda a acelerar o processo de autoconhecimento”, completa.

FIQUE ATENTO
O transtorno do pânico se caracteriza por ataques de ansiedade frequentes e recorrentes. Os principais sintomas são:

» Falta de ar ou sensação de asfixia
» Vertigem, sentimentos de instabilidade ou sensação de desmaio
» Palpitações ou ritmo cardíaco acelerado (taquicardia)
» Tremor ou abalos
» Sudorese
» Sufocamento
» Náusea ou desconforto abdominal
» Despersonalização ou desrealização
» Anestesia ou formigamento (parestesias)
» Ondas de calor ou frio
» Dor ou desconforto no peito
» Medo de morrer
» Medo de enlouquecer ou cometer ato descontrolado

Fonte: Alexandre Martins Valença, doutor em psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de janeiro




Livro:
Paúra – um mergulho na síndrome do pânico
De: Daniella Cronemberger, Lara Haje, José Maria Palmieri e Daniela Ktenas
Preço: R$ 48, 180 páginas
O livro será vendido a partir desta quarta-feira (19/08) no site http://pauralivro.iluria.com/

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