Estudo identifica parcela da população adulta que mais consome bebidas açucaradas no mundo

Pesquisa realizada em 187 países mostra que adultos consomem exageradamente refrigerantes e energéticos. Homens entre 30 e 39 anos estão no topo e mulheres com mais de 60 anos são as que menos consomem refrigerantes, sucos industrializados e energéticos

por Paloma Oliveto 17/08/2015 15:00

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Em um mundo cada vez mais obeso, pesquisadores querem saber como as bebidas mais populares do globo impactam na saúde de homens e mulheres. Juntando dados epidemiológicos de 187 países, um estudo da Faculdade de Ciências e Políticas Nutricionais da Universidade de Trufts, nos Estados Unidos, montou o cenário do consumo de refrigerantes, sucos de fruta e leite em todas as regiões geográficas, considerando adultos com mais de 20 anos. Encontraram padrões bastante diversos que, de acordo com os especialistas, poderão ser usados para nortear políticas públicas de saúde voltadas a grupos populacionais específicos.

Valdo Virgo / CB / D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo / CB / D.A Press)


O resultado, publicado na revista Plos One, aponta para a ingestão excessiva de bebidas adoçadas com açúcar, como refrigerantes e energéticos. Em média, tomam-se mais esses drinques artificiais do que os outros pesquisados: 0,58 porção de 230ml por dia, contra 0,57 de leite e 0,16 de sucos de fruta. Dependendo da faixa etária e do gênero, a discrepância é ainda maior. Homens de 20 a 39 anos, por exemplo, tomam 1,04 porção de refrigerantes/energéticos por dia, 0,18 de suco e 0,51 de leite.

Por outro lado, as mulheres de todas as idades consomem menos bebidas açucaradas (0,56 porção) do que leite (0,60) e sucos de fruta (0,18).“Nós sabemos que diferentes bebidas têm impactos substanciais sobre a saúde, mas, até agora, não havia um mapa detalhado do ponto de vista estatístico sobre o consumo das açucaradas, dos sucos de fruta e do leite em nível global e regional”, observa Gitanjali Singh, professor assistente da Universidade de Tufts e principal autor do estudo, que contou com dados brasileiros de pesquisas nacionais feitas até 2010.

A nutricionista funcional Joana Lucyk, autora do recém-lançado livro Por que não posso comer besteiras todos os dias? (editora HTC), afirma que a ingestão exagerada de refrigerantes e sucos — altamente calóricos e com pouco teor de fibras — tem forte relação com a epidemia de obesidade. “Não é fator exclusivo, mas é um coadjuvante bastante importante”, diz.

Joana Lucyk explica que tanto o açúcar quanto outros elementos dessas bebidas, como frutose, sacarose e maltodextrina, desencadeiam processos inflamatórios associados ao acúmulo de gordura corporal.

O resultado disso não se limita a pneuzinhos a mais na silhueta, observa Gitanjali Singh. Ele destaca que pelo menos 180 mil mortes anuais estão associadas ao excesso de açúcar. “Com base no Global Burden of Diseases Study (relatório mundial sobre incidência de doenças crônicas), sabemos que, anualmente, a obesidade causa 133 mil óbitos por diabetes, 44 mil por doenças cardíacas e 6 mil por males oncológicos. Setenta e oito por cento das mortes devido ao consumo excessivo do açúcar concentram-se em países de renda baixa e média”, detalha. No estudo publicado na Plos One, a ingestão de refrigerantes é maior em nações em desenvolvimento: 0,8 porção diária, contra 0,51 registrada em países ricos.

Leite
Em todas as faixas de renda e regiões do planeta, o consumo de leite segue um padrão semelhante. A bebida tem apelo maior entre mulheres e pessoas com mais de 60 anos. Jovens e adultas de 20 a 39 bebem 0,55 de porção por dia, contra 0,51 ingerida por homens da mesma idade. Dos 60 em diante, a dose diária de leite passa para 0,68 porção (mulheres) e 0,55 (homens). No estudo, considerou-se a versão integral da bebida, que é mais gordurosa que a semidesnatada e a desnatada.

A nutricionista Joana Lucyk destaca que a ingestão mais baixa de leite por parte dos mais jovens não chega a ser um problema, porque o cálcio está presente em outras fontes, como vegetais verdes-escuros (agrião, rúcula e brócolis). “O leite realmente é boa fonte de cálcio, porém é preciso que esse nutriente seja biodisponível, ou seja, aproveitado pelo organismo. E, nesse caso, a biodisponibilidade do cálcio é baixa. Enquanto absorvemos apenas 32% desse mineral presente no leite, no brócolis, por exemplo, chegamos a absorver mais de 60%”, compara.

Segundo Dariush Mozaffarian, reitor da Faculdade de Ciências e Políticas Nutricionais da Universidade de Trufts, o próximo passo da pesquisa será avaliar os padrões de consumo dos três tipos de bebida entre crianças e adolescentes. Ele destaca que, mesmo sem os dados dessa faixa etária, o estudo publicado na Plos One já pode nortear políticas públicas de saúde. “Podemos começar a estabelecer e a melhorar as políticas que promovam o consumo de bebidas com baixo teor de açúcar levando em consideração as especificidades de cada região”, acredita.

Taxação em debate

Na guerra contra a crescente epidemia de obesidade, médicos do Reino Unido defendem que o governo institua uma taxação de 20% sobre bebidas e alimentos adoçados com açúcar. O dinheiro subsidiaria o custo de frutas e vegetais, explicaram em um documento apresentado pela Associação Médica Britânica (AMB). A sugestão foi debatida por especialistas na revista British Medical Journal desta semana.


Sirpa Sarlio-Lähteenkorva, conselheira do Ministério da Saúde da Finlândia, afirmou que o imposto específico sobre o açúcar poderia reduzir o consumo do ingrediente. “Evidências crescentes sugerem que impostos sobre refrigerantes, açúcar e guloseimas podem mudar dietas e melhorar a saúde, principalmente em grupos socioeconômicos mais baixos”, afirma. Contudo, a médica ressalta que essa é uma solução parcial, e sugere que sobretaxar todos os produtos que levam açúcar na composição pode ter um efeito mais positivo. “Isso poderia estimular a reformulação dos produtos, com menos açúcar, e, portanto, menos taxas a serem pagas”, observa.

A professora da Universidade de Helsinki Sarlio-Lähteenkorva lembrou, porém, que sobretaxar alimentos e bebidas para preservar a saúde é algo desafiador. Um exemplo foi o que ocorreu na Dinamarca, que criou um imposto sobre gordura saturada durante um curto período. A medida reduziu o consumo desse ingrediente de 10% a 15%, mas o lobby da indústria foi mais forte e o governo abandonou o programa. Os fabricantes de alimento argumentaram que a medida era ineficaz, injusta e prejudicial ao setor. “Nós precisamos de políticas fiscais que levem a saúde a sério”, aponta a especialista.

Para Jack Winkler, professor emérito de política nutricional da Universidade Metropolitana de Londres, impostos sobre ingredientes poderiam ter um desenvolvimento positivo no início, mas seriam extremamente impalatáveis para a indústria. De acordo com ele, um referendo realizado nos Estados Unidos só resultou em imposto para refrigerante em uma cidade (Bekerley, na Califórnia), enquanto apenas quatro dos 53 estados da Organização Mundial da Saúde (OMS) no âmbito da União Europeia adotaram, até hoje, taxas sobre alimentos.

O especialista ainda argumenta que esses impostos são ineficazes economicamente. Dois estudos britânicos constataram que uma sobretaxa de 20% reduziria o equivalente a apenas quatro calorias do consumo dos ingredientes selecionados. “Efeitos desse tamanho não revertem a obesidade global”, alerta.

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